O Anel dos Nibelungos (Ato 3 – 1/6)

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Siegfried

I – O nascimento de Siegfried

Uma mulher, diante de um destino tornado subitamente adverso, viu-se, obrigada a fugir da cólera de um homem perverso e da ira de um deus vingativo. Dois inimigos colossais, sem dúvida, considerando que um deles – o deus – era seu próprio pai. Mas o mundo tem destas contingências estranhas e muitas vezes, não basta a uma criatura, em absoluto, que aquele que julga ser seu protetor, seja um pai e um deus, se este ser poderoso tiver o seu coração tomado pelo mais cruel ressentimento. Neste caso, para mal de si própria, estará ela sujeita apenas à ira conjunta de um pai e de um deus – algo, sem dúvida, pouco reconfortante, se levarmos em conta o modo como costuma processar-se a ira no coração da maioria das divindades.

Sieglinde era esta mulher. Após vagar por incertos caminhos com um filho oculto no ventre – um bem que, ao mesmo tempo, a estorvava e lhe dava forças para prosseguir em sua áspera jornada -, a pobre moça encontrara, depois de um longo périplo de infortúnios, de fome, de cansaço e de sofrimentos, um pequeno ser que a amparara, levando-a para sua modesta caverna, lar de todos os despossuídos e perseguidos dos ermos, fazendo dali um pequeno local de refúgio.

Refúgios, contudo, dependendo das circunstâncias, podem chegar a ser até locais amenos e aprazíveis, observadas as condições, é claro, da ausência do perseguidor e a possibilidade remota de que este venha a descobri-los. Depende também da ferocidade daquele que nos persegue; se for algo realmente terrível que está em nosso encalço, então, uma simples, mas segura toca, nos haverá sempre de parecer um local de idílio.

Um canto mais ou menos confortável para dormir; três ou quatro utensílios para se haver com o manejo da natureza e uma certeza, minimamente razoável, de segurança podem ser o bastante para tornar uma existência até apetecível ou, quando menos, suportável, nestes lares improvisados.

Era, mais ou menos assim que Sieglinde sentia-se, quando já estava instalada há alguns meses na caverna do seu protetor, mesmo tendo a vizinhança de um dragão e a ameaça da chegada iminente de um marido furioso ou de um deus possesso. Mas, dentro de seu pequeno refúgio, havia também este pequeno ser que lhe dava companhia e amparo – e, já que o mencionamos pela terceira vez, é mais do que hora de lhe revelar o nome: tratava-se de Mime, um anão que tinha uma particularidade que o aproximava muito de sua protegida: era um fugitivo, tal como ela. Expulso da casa de seu irmão pela tirania que tomara conta de sua alma, Mime vira-se obrigado a fugir, pois sua própria vida estava em risco. Seu irmão, Alberich, desde que forjara um certo objeto, a um mesmo tempo belo e sinistro, havia pervertido com ele a sua própria natureza, tornando-se um ser ambicioso e cruel, a ponto de escravizar seu povo e o próprio Mime.

Ele contara toda a sua história à bela e infeliz Sieglinde, – arrancando copiosas lágrimas dos olhos da jovem; ela, por sua vez, havia lhe relatado também a sua triste sina, fazendo com que ambos se sentissem, imediatamente, unidos por um mesmo e funesto destino. Mas havia um terceiro ser, que ainda não fizera sua entrada neste mundo perigoso e hostil, mas que estava prestes a fazê-lo: era o filho de Sieglinde, que mesmo antes de nascer já tinha o nome de Siegfried.

– Mime, sinto que a hora de seu nascimento se aproxima…! – disse ela, um dia, ao seu protetor. O anão sorriu – como sempre sorria, toda vez que ela fazia esta afirmação (e não era esta, seguramente, a primeira vez que o fazia).

– Sim ou não, o melhor é aguardarmos – dizia ele (seguramente, também, não pela primeira vez).

Mime, entretanto – e é bem triste ter que fazer tal revelação -, como todo ser que um dia se viu oprimido, guardara em si algo do opressor, ainda que fosse apenas (ao menos aparentemente) um mero tique verbal. Mas, como não houvera razão nem oportunidade para que este seu lado deformado pudesse se manifestar, Mime deixava-se estar na sua habitual docilidade.

Mas por que razão Sieglinde insistiria tanto nesta que se tornara uma verdadeira obsessão, o nascimento de seu filho? A verdade é que a jovem, dotada de um forte senso materno, tinha, talvez com base nele, um profundo pressentimento: o de que não chegaria a ver seu filho vivo. Por tudo quanto passara, podia,perfeitamente, prever para si o pior, embora não pudesse admitir o mesmo para seu filho. Brunhilde, filha de um deus – e deusa, portanto, também – havia predito um destino glorioso para ele, e um destino glorioso, sabemos, não se cumpre em apenas uma hora ou um dia de vida.

Mas, qual seria a reação de seu amigo? Poderia confiar a Mime esta revelação tão importante acerca de seu filho? Durante muito tempo, ela vacilou e jamais teria-lhe revelado, apesar de sua confiança, se não tivesse sobrevindo o dia de sua morte no nascimento de Siegfried.

Desde os primeiros impulsos que o filho dera para ganhar a vida, ela pudera cristalizar a certeza dentro de si que estava prestes a gerar, ao mesmo tempo, a vida e a morte – a vida para o filho e a morte para si própria.

– Oh, Mime!… – dissera ela, aflita, tão logo obtivera dentro de si esta certeza. – Logo, irei juntar-me à minha pobre mãe e a meu irmão, Sigmund, nas lonas escuras de Hei. –

Sieglinde referia-se à terra dos mortos, regida pela deusa sinistra, filha de Loki, que lhe dava o nome.

– Não diga isto, pobre jovem! – disse Mime, amparando sua cabeça.

Durante a noite inteira, estiveram o anão e Sieglinde combatendo a morte até que, ao amanhecer, veio ao mundo o pequeno Siegfried, saudável e rosado. Sua mãe, entretanto, estava condenada. Chegara a hora de revelar ao anão toda a verdade sobre o futuro de seu filho: afinal, aquele seria o pai – ainda que postiço – do pequenino e frágil ser que ali estava aninhado em seus braços.

Mil vezes, ela observou os traços do anão, que ia e vinha numa azáfama, que não podia ser outra coisa senão o produto de uma dedicação sincera. Mas dedicações podem ter diferentes motivações; um ser interesseiro, não era ela ingênua o bastante para ignorar, podia agir com perfeita dedicação, desde que seus zelos o trabalhos pudessem lhe ser muito proveitosos. Porém, de outro modo, a quem, agora, poderia recorrer, caso perdesse, inteiramente, a confiança naquele companheiro que estivera sempre ao seu lado e que, muito provavelmente, seria a única companhia de sua morte? O pequeno Siegfried teria, de um jeito ou de outro, que ficar aos cuidados de Mime, ser educado por ele e aprender a confiar nele – ou a desconfiar dele, se fosse este o caso. Sieglinde, após fazer todas estas reflexões, decidiu lançar a sorte, a única, com efeito, que poderia lançar nas suas circunstâncias.

– Mime, a você caberá favorecer o destino desta criança! – disse ela ao anão, que tinha os olhos cheios de lágrimas. Afeiçoado aquela jovem, não podia constatar sem pesar que iria perder, para sempre, a sua única companhia. -Preciso lhe contar, antes que a morte vele meus olhos, acerca de um segredo que diz respeito ao futuro de meu filho.

– Há, então, um segredo a respeito dele? – disse Mime, satisfeito com este prêmio consolatório que o destino, inesperadamente, lhe reservara.

– Sim, Mime, fiel… – respondeu Sieglinde, reunindo as últimas forças para pronunciar suas derradeiras palavras. – Siegfried, meu amado filho… é preciso que você saiba… será o escolhido…

– Escolhido? – murmurou. – Escolhido para quê…?

– Fafner… o dragão… Notung… o anel…

– Anel…?! – exclamou Mime, tentando abafar sua curiosidade mordente.

– Sim… o anel… Siegfried… de posse de Notung… a espada de seu pai… retomará o anel…

Mime desviou os olhos da mãe e os pousou sobre a criança; de repente, aquela pequenina porção de carne e ossos revestira-se de uma importância transcendente aos seus olhos.

– Você disse Notung, a espada de Sigmund, dada a ele pelo próprio Wotan?

– Sim…

– Mas, Sieglinde, querida, ela está quebrada… o próprio Wotan a destruiu… – disse Mime, ao mesmo tempo em que pensava, desconsolado “Oh, não, ela está delirando!…”

– Não, ela será refeita… seus pedaços criarão uma nova Notung… muito mais poderosa… e invencível…

– Siegfried matará o dragão e retomará o anel…!

– Sim, e você deverá estar ao seu lado… Oh, por favor, Mime, prometa que assim o fará!

– Claro, minha jovem! – disse o anão, tomando nas suas mãos as da moribunda.

– E que você sempre o defenderá…!

– Sempre estarei ao lado dele, esteja tranqüila… – repetiu Mime, mas, dando uma tal entonação à voz, que parecia que pronunciava aquilo que ela queria ouvir.

– Mime…! Oh, Mime…! – disse a jovem, arregalando seus grandes olhos azuis para ele. E, então, finalmente, morreu. O que seus olhos quiseram dizer com aquelas últimas palavras – um pedido desesperado? O horror de se ver diante da morte? A descoberta de uma traição, que já se desenhava no rosto do anão? – somente ela poderia responder.

Mime leu tudo isto em seus olhos – a advertência, a censura, o receio, a esperança, mas, por fim, acabou vendo neles apenas uma última palavra de gratidão.

– Sim, de gratidão, é claro – disse o anão, dando as cestas à pobre jovem o pousando seus olhos sobre o menino, que ausente do drama que se abatera sobre a sua mãe, dormia, agora, envolto no seu berço improvisado. Que outro sentimento ela poderia devotar a ele, que a recolhera em meio à mais extrema aflição e miséria; que lhe dera um abrigo; e que lhe possibilitara a ventura de gerar e parir seu único filho?

Mime, depois de ter sossegado sua alma – que coisa errada fizera até então, que justificasse, afinal, qualquer remorso? -, entregara-se ao estudo daquele pequeno ser, que já nascera envolto numa aura de eleição, que pressagiava um futuro repleto de poder e riqueza, de mando e grandeza.

– Sim, meu belo Siegfried! – disse o nibelungo, na ponta dos pés, em frente ao grande berço que construíra com suas próprias mãos. – Temos ambos, dem dúvida, um grande futuro pela frente!

II – A revelação do anão


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