O Anel dos Nibelungos (Ato 3 – 5/6)

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V – O dragão e o anel

Medo e apreensão: duas palavras cujo real significado um ser, que há longo tempo vive encarcerado em uma escura e profunda caverna, com toda a certeza, aprendeu. Ele está encarcerado, no entanto, por sua própria vontade, pois o medo, é sabido, forja um a um os elos de suas próprias cadeias. Estas duas palavras, entretanto, talvez até salutares se absorvidas em doses mínimas depois de convertidas em razão diária de ser e de pensar, podem, perfeitamente, transformar o seu prisioneiro em um ser disforme e mesmo aterrador. Pois, é deste modo que o medo engendra a si mesmo: alimentando receio com mais receio, fomentando angústia com mais angústia, até que esteja tornado, afinal, em uma razão única e demente de vida.

Fafner, último remanescente da raça dos Gigantes, detém, agora, a posse do algo muito, muito precioso! Ele tem consciência perfeita disto, pois chegara a matar para tê-lo só para si. E não matara qualquer um – nestes tempos rudes, afinal, mata-se qualquer um até com relativa serenidade de alma -, mas o seu próprio irmão, companheiro de toda uma vida, que o ajudara a obter o bem maior que já tivera ao seu alcance.

“Ora bolas, Fasolt, aquele idiota!”, pensara, um dia, a criatura, antes de ter se tornado, finalmente, aquilo em que hoje está convertida. “Quem mandou o maldito ganancioso querer apossar-se de algo que só a mim deveria pertencer?”

Sim, a criatura pensara assim um dia – um único dia – e depois, deixara a coisa de lado; para que, afinal, perder tempo, pensando em algo que se tornaria, cedo ou tarde, um objeto permanente de seu tormento? Verdade que, dentro de i, como que abrigada em outra caverna, a recordação do terrível fato permanecera, apenas enrodilhada e quieta; mas os pensamentos da criatura estavam iodos voltados para um único objetivo: como fazer para manter a guarda daquela preciosidade, que brilhava tão belamente em seu dedo – aquele aro perfeito, brilhante, que faiscava, noite e dia, em todas as cores, e que nem ele nem ninguém jamais poderia dizer onde começava, nem onde acabava?

Quem poderia, afinal, garantir-lhe a posse dele por toda a eternidade?

Porque quem teve uma vez colocado em seu dedo o Anel de Poder, não podo admitir, por um segundo que seja, a idéia de ler de restituí-lo ao sou legítimo dono desde, é claro, que se possa chegue ao consenso de saber quem é, de fato, o seu legítimo dono.

“Ora, o legítimo dono”, assim pensa Fafner, enfatuado, “não pode ser outro senão o seu possuidor!” Um ponto de vista magnífico e incontestável, mas que perde, contudo, um tanto do seu poder de convencimento, quando se descobre que quem o pronuncia é, exatamente, o seu possuidor. Mas, espere: dizer-se possuidor, não é dizer-se também transitório possuidor, uma vez que nada há de permanente num mundo sempre mutável?

E que a palavra possuidor pode admitir diversos prenomes? Senão, vejamos: desde que o anel foi confeccionado (não faz muito tempo, na verdade), por quantas mãos – ou dedos

-já não andou? Por enquanto, apenas pelas mãos de um anão e de um deus, pode-se dizer. Sim, mas convenhamos: é, desde já, um anel verdadeiramente maravilhoso este, que se amolda com perfeição a todos os dedos, de todas as mãos, desde os de um anão, passando pelos de um gigante e um dragão, até chegar aos dedos excelsos de um deus!

E quem diz dedos de uma mão, diz também dedos de uma pata, por que não? Pois, neste exato instante, uma pata imensa e marrom move-se dentro desta obscura caverna a qual já fizemos menção, com amoroso vagar, até encontrar a outra, onde o anel está enfiado. Então, por mais uma vez, o antigo gigante (agora convertido em um enorme dragão) alisa, deliciado, aquele pequeno aro de metal que tem a notável propriedade de estar sempre gélido e suave ao toque, sentindo que toda a sua razão de ser e de viver, está enfeixada dentro daquele círculo mágico, dotado de inexcedível fascínio. Pois, este é todo o encanto que restou a uma vida enclausurada em si mesma para defender de toda a cobiça, não um objeto que lhe deu todo o poder absoluto exterior, mas, meramente, a possibilidade – real, concreta e maravilhosamente palpável! – de vir a exercê-lo. Sim, pois há naturezas, excepcionalmente avaras para as quais o simples fato de um bem render tudo aquilo para o qual foi gerado ou construído já lhes parece uma diminuição do poder que poderiam ainda gozar. Melhor, então, deixá-lo assim, estático, em estado latente e gastar todo o tempo imaginando o que poderá ou poderia render, sem que, contudo, jamais chegue a render. Saber que se pode, sem que nunca, entretanto, se ouse fazê-lo; saber que se tem, sem que nunca se ouse expô-lo à cobiça do mundo: eis a delícia destas mentes, que cultivam um hedonismo da prevenção, que, antes, preferem ver o mundo paralisado, ou mesmo inteiramente destruído, do que imaginar a possibilidade de se aluir sob seus pés aquela maravilhosa sensação de poder e segurança, de que ora desfrutam.

Fafner, o gigante, conseguira obter, além deste anel, um elmo mágico, de que já tivemos notícia também há algum tempo. Um elmo capaz de metamorfosear o seu dono em muitas coisas. E de, uma vez convertida em hábito esta mudança, degenerar este ser, definitivamente, em outro. Pois Fafner, à vontade sob a forma hediondamente poderosa de um imenso dragão, há muito tempo, não se preocupa mais em reverter à forma original. Sim, pois o que é um gigante, mesmo forte e poderoso, em comparação com a forma magnificamente aterrorizante de um dragão que verte incessante veneno pela boca?

Fafner, o gigante, é agora – e para todo o sempre – Fafner, o temível dragão. Que o creiam assim, é tudo quanto sua mente aspira, pois quem ousaria, despido de um poder ao menos igual ao seu, adentrar seus obscuros domínios para tentar lhe arrancar aquilo que o faz imperador inconteste de todos os sonhos? O anão, que originariamente o forjou? Ora, piada! O deus, do qual arrebatou o anel por um contrato bem sucedido?

Também não, por força, justamente, deste contrato. Não, somente pela força poderão arrancar-lhe o anel, mas força igual à sua, quem tem?

Embalado nesta certeza, Fafner adormece outra vez, embora, é claro, suas orelhas permaneçam sempre alertas, pois bem se diz por aí, que “orelha de dragão jamais adormece.”

***

Ocultos do lado de fora, dois seres espionam a entrada da temível caverna. Ainda não é o herói, que tentará daqui a pouco a temível empresa, nem o anão que o impele a tanto, embora outro deles seja figurante da dupla. Alberich, com efeito, o forjador do anel e seu primeiro possuidor, ali está, escondido atrás de um rochedo. O outro espião é um velho andarilho, envolto em uma capa escura e com um chapéu derreado sobre um dos olhos – também nosso velho conhecido.

Tão logo este põe seu único olho sobre o anão, dirige-se a ele em termos rudes.

– Ora, maldito embusteiro! Vamos, dê o fora daqui!

– Desapareça você, ora, bolas! – retruca o anão, encolerizado.

– Por que ainda teima em reconquistar uma coisa que não mais lhe pertence? – diz Wotan ao anão, que permanece furioso. – Você sabe que jamais poderá arrancar do dragão aquele anel, que um dia já foi seu, mas que nunca mais será!

– Nem seu, tampouco, será! – responde Alberich. – Ou se esquece de que o anel é parte de um acordo, que está registrado em sua lança, o qual nem mesmo você tem o poder de desfazer?

– Eu não, mas há alguém que, em breve, irá fazê-lo por mim! – exclama o andarilho, confiante. – Siegfried, da estirpe dos Walsungs, estará aqui, logo ao amanhecer, junto com seu irmão Mime, para tomar, finalmente, das mãos deste perverso gigante, agora convertido em dragão, aquele bem que só a mim pertence!

– Só a você? Mas que atrevimento! Quem foi que o forjou, não fui eu?

– Forjou-o com ouro roubado, eis o que é!

– Pouco importa, não arredarei pé daqui, antes de ver o que será feito do dragão!

– Fique aí, se quiser, idiota; mas atenção: acautele-se com seu irmão!

O andarilho diz isto e desaparece, preferindo assistir a tudo oculto em outro rochedo.

Alberich, intrigado, envolve-se em sua capa e decide esperar o amanhecer.

A noite corre até que, finalmente, as primeiras cores do alvorecer tingem de róseo a parte visível do céu. Um rumor surdo de passos vem de uma clareira ali próxima, o que desperta logo a atenção de Alberich.

“São eles!”, pensa o anão, descobrindo a cabeça para melhor divisá-los.

Realmente, por entre os caules das árvores, Alberich vê surgir as figuras de Siegfried e de seu irmão. O primeiro porta sua espada em uma fulgurante bainha dourada, enquanto que Mime carrega uma espécie de velho odre de couro de cabra.

– Agora ouça meus últimos conselhos, pois você está prestes a conhecer o medo –

diz Mime, baixinho.

– Deixe de asneiras, não preciso de seus conselhos! – retruca Siegfried, enfadado. –

E, se me falar mais uma única vez nesta palavra desprezível, vou lhe ensinar de uma vez por todas o real significado dela, está entendendo?

Mime faz-se de desentendido e diz, temendo que o jovem se perca por uma tola presunção:

– Fafner é, hoje, uma criatura imensa; com uma única abocanhada pode engoli-lo inteiro! Uma espuma venenosa escorre, incessantemente, de sua boca e, além disso, ele possui também uma cauda escamosa, que poderá partir em pedaços todos os ossos do seu corpo, caso não seja hábil para se desviar dela a tempo, entendeu?

– Entendi, sabichão; agora, responda-me apenas uma coisa: esta fera tem um coração, como qualquer outra?

– Claro que sim.

– E está situado no lugar habitual?

– Sim, do lado esquerdo do peito.

– Ótimo, isto é tudo que preciso saber; agora dê o fora – diz Siegfried, dando as costas ao seu preceptor.

Mime parte, desejando, intimamente, que Siegfried e Fafner se matem um ao outro.

Siegfried, por seu lado, ruma para uma grande árvore. Um sorriso de prazer brilha em seu rosto. “Graças a Deus, só novamente!”, pensa ele, acomodando-se sobre a relva macia.

Enquanto está ali, repousando, seu pensamento volta-se para o anão que partiu: “Mime, então, não é meu pai!”

Um sentimento de alívio banha a sua alma; saber que não traz em suas veias o mesmo sangue daquele ser repulsivo e mesquinho é um bom começo para a nova vida que pretende levar doravante. “Depois que tiver matado o dragão e lhe arrebatado o anel, serei dono de meu destino”, pensa ele. Ao mesmo tempo, vem-lhe à mente a curiosidade de saber quem seriam seus verdadeiros pais: “Meu pai deve ter sido muito parecido comigo… mas, e minha mãe? Oh, mal consigo imaginar como seriam seus belos traços!”

O trinado dos pássaros, que pulam de galho em galho sobre os ramos acima de sua cabeça, aumenta a cada instante à medida que o dia se torna mais claro; Siegfried ergue os olhos para o alto e fixa sua atenção no canto das aves.

– O que será que eles conversam? – diz ele, ávido de curiosidade. – Sempre tivera esta ânsia de saber o que os pássaros conversam entre si, que coisas comunicam uns aos outros, sem que os humanos possam jamais entender.

Siegfried, com uma certa ponta de inveja, corta, então, o pedaço de um caniço e, após fazer-lhe alguns furos, improvisa uma pequena e tosca flauta. Ele sopra no frágil instrumento, mas os sons que consegue tirar dali são frouxos e desarticulados. Frustrado, Siegfried joga fora o caniço e toma de sua trompa. Dali a instantes, o som de seu instrumento começa a ecoar pela floresta, ricocheteando nos rochedos ao redor. Que diferença daquele tosco instrumento anterior! Siegfried, acostumado a tocar a trompa nas suas caçadas, sabe como retirar dela sons perfeitamente modulados; de vez em quando faz algumas pausas na esperança de ver seu canto respondido pelas aves. Entretanto, sem se dar conta da imprudência, consegue fazer apenas com que Fafner, o dragão que dormia dentro da caverna, lentamente desperte. Um ronco semelhante ao de um grotesco bocejo parte da entrada da toca sinistra. Siegfried, alertado pelo estranho ruído, abandona, finalmente, os seus devaneios e, sacando a sua Notung, põe-se, imediatamente, em pé.

O dragão Fafner surge de dentro da caverna com sua boca escancarada, onde despontam duas fileiras completas de dentes aliados como algumas dezenas de amarelados punhais, enquanto sua grande cauda escamosa chicoteia o ar, fazendo com que as folhas das árvores ao redor esvoacem em torno dele.

– Quem é você? – pergunta Fafner, mas sua voz é tão rouca e regurgitante, que Siegfried quase não consegue entendê-la. Fafner, acostumado à sua existência de dragão, não consegue mais se articular em termos humanos. Então decide agir, exatamente como um de sua espécie: atacando e devorando.

Com um grande e agilíssimo salto – absolutamente imprevisível em um ser daquela estatura e corpulência -, ele vai cair, precisamente onde estava seu desafiante que, com os sentidos alertas, fora esperto o suficiente para se arremessar para o lado em um salto, que nada ficou a dever em agilidade ao do dragão.

– Fafner, é bom que saiba antes de morrer – diz o herói, confiante, – que aquele que há de enterrar a lâmina desta espada em seu peito se chama Siegfried, filho de Sigmund!

Fafner responde com outro terrível rugido e, após abocanhar o pedaço de um rochedo, cospe-o envolto em sua baba pestífera sobre o herói que, desta vez, repele o arremesso com um golpe certeiro de sua espada invencível. A rocha explode em mil faíscas e estilhaços sem ferir Siegfried. A garra do dragão, com unhas escuras e recurvas, prende, num movimento ágil e inesperado, a cintura do herói, trazendo-o até a sua boca, cuja língua comprida serpenteia para fora. Siegfried, num movimento rápido de sua espada, corta fora a língua do dragão, que larga seu oponente para se contorcer num grito pavoroso de dor.

O jovem, até aqui, não provou o sabor do medo. Subindo uma escarpa, empunha com as duas mãos a espada e desfere outro golpe no rosto de Fafner. O dragão, ganindo de dor, ergue duas patas para proteger o rosto ensangüentado.

– Muito bem, chegou a sua hora! – grita o herói, aproveitando o descuido da fera para enterrar em seu peito (sabidamente a parte mais desprotegida de um dragão) a espada Notung até o cabo. Um grito atroante sacode a floresta inteira, enquanto um jorro espesso de sangue explode, tão logo Siegfried retira a arma do peito da fera colossal. Um pouco deste sangue escaldante cai sobre a mão do guerreiro.

– Maldição! – exclama Siegfried, levando a mão à boca para aliviar a ferida. Neste mesmo instante, um pássaro aproxima-se e Siegfried consegue, finalmente, entender-lhe as palavras:

– Ó herói, matador do dragão! – diz o pássaro, pousando em um galho bem à frente de Siegfried. – Você acaba de provar do sangue de Fafner e, por isto, a partir deste momento, está apto a entender a linguagem dos pássaros!

O filho de Sigmund fica agradavelmente surpreso com esta novidade.

– É verdade! – exclama ele. – Posso entender tudo que diz!

– Siegfried: agora, cabe a você tomar para si os tesouros que Fafner mantinha ocultos só para ele. – diz o pássaro, agitando suas douradas plumas. – O tesouro dos nibelungos é todo seu, bem como o elmo da invisibilidade e o anel cobiçado que o fará senhor de todo o mundo.

– Obrigado, pássaro gentil, por suas doces palavras! – diz Siegfried, arremessando-se, logo, para dentro da caverna.

Fafner, o dragão, nada mais pode fazer para impedir que lhe tomem aquilo que, com tanto zelo, guardara. Mas há outras pessoas, não tão grandes como ele, é certo, que ainda podem fazer algo para obter o ambicionado anel, que parece ser agora de propriedade exclusiva do herói.

Mime surge, cauteloso, a espionar o dragão abatido. Depois de ter a certeza de que a fera está morta, lança-lhe uma valente cuspida ao olho.

– Pfui! Aí está o que merece, usurpador de tesouros!

Mas, ao mesmo tempo, vê surgir à sua frente outra criatura do seu tamanho.

– Aonde pensa que vai, imbecil? – É Alberich, o primeiro dono do anel, que também estivera apenas aguardando o final do combate para entrar em cena e tentar se reapoderar de algo que julga de sua exclusiva propriedade.

– Vou pegar o que me pertence, eis tudo! – diz Mime, tentando ultrapassar o irmão encolerizado.

– Maldito, você vai ficar aí, exatamente onde está! – diz Alberich, dando um empurrão em Mime, que o faz cair de costas no chão. Mime, num salto, põe-se logo em pé e retruca não menos furioso:

– Eu criei o matador do dragão estes anos todos! Tenho, pois, o direito de me apoderar do anel!

– Você sabe que não me custa nada matá-lo para obter aquilo que me pertence, não sabe? Então, sai de uma vez por todas de minha frente!

Alberich parece disposto a tudo – e, sem dúvida, está! – mas, para sorte de um e outro, Siegfried já retorna de dentro da caverna com seus prêmios. O anel está enfiado em seu dedo e reluz de maneira magnífica ao receber os raios do sol da manhã. O herói parece meio indeciso quanto ao que fazer com os demais prêmios. Depois de pendurar o elmo de Tarn em seu cinto, percebe um adejar de asas ao redor de seu rosto: é, de novo, o pássaro, que vem para lhe fazer uma grave advertência.

– Tenha cuidado, Siegfried, pois seu velho preceptor aguarda apenas o momento certo para te atraiçoar! Preste toda a atenção às suas palavras, que provar do sangue do dragão tornou-o sábio e apto a entender o verdadeiro significado das palavras que saem da boca dos homens!

Mal o pássaro termina de ditar suas palavras ao ouvido de Siegfried, este vê surgir à sua frente Mime, que vem parabenizá-lo pela vitória sobre o inimigo.

– Você é um verdadeiro herói, Siegfried! – exclama o anão, abraçando-se a ele. –

Sempre soube que seria capaz de derrotar o dragão, pois sempre confiei em você! Sim, sou seu pai, ainda que somente de criação, mas o afeto que lhe dedico sempre me fez acreditar que jamais iria me decepcionar! Oh, Siegfried, como o admiro! Doravante, estaremos cada vez mais juntos e deixarei de ser seu pai postiço para ser o mais fiel dos seus servidores!

Siegfried escuta todas estas palavras, mas seu entendimento é perfeitamente capaz de lhes desentranhar o verdadeiro significado. Como se pudesse ler a mente do anão, ele vai escutando, como que em uma segunda audição as verdadeiras palavras daquele tratante: “Oh, imbecil, você sempre foi fácil de enganar! Não será, pois, agora, que será difícil ludibriá-lo pela última vez!”

Mime puxa, então, do seu odre e, após encher um copo com sua beberagem maldita, oferece-a ao herói, que está sedento e exausto da luta.

– Toma, bebe um pouco desta poção revigorante; ela o fará sentir-se novo outra vez, pronto para desfrutar de sua nova vida e de seus belos presentes!

Mas, o que o ouvido interno de Siegfried escuta é bem outra coisa: “Vamos, idiota, bebe logo esta poção sonífera! Dentro de instantes, estará adormecido e, então, será como que uma brincadeira de criança cortar-lhe fora a cabeça com a sua própria espada!”

Mime, astuto como é, percebe, no entanto, que suas palavras não exercem nas feições do jovem o efeito esperado, antes pelo contrário, elas estão congestas e seus dentes parecem rilhar dentro da boca.

– Vamos, o que há? Por que me olha com ódio? Bebe esta poção e estará logo mais calmo; então, partiremos juntos para casa: você, o amo; e eu, seu servidor!

Siegfried pega o copo e finge levá-lo à boca; Mime tem os olhos arregalados pela expectativa. De repente, Siegfried, num gesto abrupto, lança o conteúdo do copo à face do anão que, cego momentaneamente, exclama:

– Mas, o que houve, meu filho, por que continua a me tratar deste modo?

Siegfried, sem tolerar escutar a voz do pérfido anão, saca de sua espada e, num golpe veloz, arranca para fora dos ombros do anão a sua cabeça, que rola pelo chão com os olhos arregalados num último estertor de espanto.

– Eis aí, maldito traidor, o prêmio de sua perfídia!

Em seguida, pega o corpo e a cabeça do anão e lança-os para dentro do covil do dragão. Depois, arrasta o pesado corpo de Fafner até a entrada da caverna, bloqueando-a para sempre.

– Aí estarão os dois ambiciosos, presos para sempre na escuridão e na companhia abjeta de suas almas perversas!

Siegfried afasta-se do local e vai se atirar à sombra da árvore, onde estivera momentos antes de seu duelo com Fafner, exausto do esforço.

– Oh, deuses! Por que teimam em fazer que eu esteja sempre só e afastado de qualquer companhia justa e amiga?

Siegfried, embora não lamente a morte do traidor, tem motivos de sobra para lamentar a perda da única companhia, que julgava capaz de lhe demonstrar algum afeto. –

Sim, ele era detestável por todos os motivos, mas, ainda assim, minha única companhia neste mundo! – exclama Siegfried, outra vez solitário.

Então, o pássaro ressurge para lhe dizer algo muito importante:

– Siegfried, há uma pessoa que poderá substituir com infinita vantagem a companhia deste anão perverso, que agora te abandonou.

Siegfried ergue a cabeça para a ave com toda a esperança na alma:

– Vamos, pássaro benfazejo, diga-me logo de quem se trata!

– Ela se chama Brunhilde e jaz adormecida numa grande rocha, envolta por um círculo de chamas que somente um homem totalmente desprovido de medo será capaz de atravessar.

– Um homem desprovido de medo? – pergunta Siegfried, com um sorriso.

– Sim, tal é a condição que foi imposta a ela, no dia em que foi colocada neste lamentável estado: que somente um homem que não conhecesse o medo, poderia livrá-la deste castigo a que teve de se submeter, motivado por uma funesta desobediência.

O pássaro conclui as suas palavras e ergue vôo, dando a entender a Siegfried, que deve acompanhá-lo.

– Está bem, pássaro amigo, já entendi! – exclama Siegfried, feliz. – Seguirei seu vôo até o fim do mundo em busca daquela que me fará finalmente feliz!

VI – O despertar de Brunhilde


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