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O que Lovecraft aprendeu com Ovídio?

O que H.P. Lovecraft aprendeu traduzindo Ovídio?

Nos últimos vídeos, a gente viu Lovecraft criança. Ele escreveu contos, escreveu poemas e ele imitou autores que ele admirava enquanto ele escrevia suas próprias histórias. Só que aqui acontece uma coisa curiosa: pela primeira vez ele deixa de criar e ele traduz. A obra que a gente vai analisar hoje é uma tradução que Lovecraft fez quando ele tinha entre 9 e 10 anos. E analisando essa tradução, eu pensei o seguinte: se eu tivesse que escolher dois exercícios para acelerar a formação de um escritor iniciante, um deles provavelmente seria isso aqui, fazer uma tradução, ou melhor ainda, fazer uma versão sua de uma história que você já conhece. E como escritor, talvez você pense que isso aqui seja dar um passo para trás, mas neste vídeo eu vou te provar o contrário, inclusive usando como exemplo o próprio Lovecraft, que é o que a gente está fazendo nessa série aqui.

A gente está analisando conto por conto, em ordem cronológica, tudo o que o Lovecraft produziu, acompanhando essa evolução do Lovecraft como escritor e do próprio *World* que ele fez, esse universo fantástico de horror cósmico que todo mundo gosta. Se você quer entender como Lovecraft realmente virou escritor, este aqui, sem dúvida, é um passo muito importante, e você vai concordar comigo ao longo deste vídeo. E antes que você decida pular este vídeo, eu vou resumir para você a minha ideia aqui. Pensa comigo: quando um autor escreve as suas próprias histórias, nós vemos as suas ideias. Mas quando um autor traduz a história de alguém, nós vemos o que ele preserva, o que ele altera, o que chamou a sua atenção. E existe um mundo inteiro escondido pra gente discutir nessas decisões que ele tomou quando, aos 10 ou 11 anos, esse pré-adolescente resolveu traduzir *As Metamorfoses* de Ovídio, que, se você não conhece, é um dos principais textos literários que a gente tem no Ocidente e que, para traduzir, tem lá os seus problemas, porque ele é um poema épico. E é por isso que neste vídeo você vai ver mais coisas impressionantes sobre esse menininho que ainda viria a se transformar naquele Lovecraft que você conhece como pai do horror cósmico.

Bom, o meu nome é Lucas Rosalém, você está no canal Universo Antares, e nesta série nós analisamos, como eu disse, em ordem cronológica, todas as obras ficcionais do Lovecraft. A gente vai ver também muitas das suas cartas, dos textos teóricos sobre escrita e, obviamente, muita coisa da biografia do Lovecraft pra gente entender como foi essa jornada da vida dele para ele se tornar esse mestre da escrita do terror. Este aqui é o quinto vídeo da série. Os outros vídeos estarão aqui embaixo na descrição.

E antes de continuar, eu só quero fazer um resumo brevíssimo aqui do que a gente viu nos vídeos anteriores. A gente já viu muita coisa até aqui: a gente viu um conto muito inocente do Lovecraft; viu também ele tentando resumir *A Odisseia* de Homero; vimos ele matando uma criança de 2 anos de uma forma super fria numa história; vimos ele criando o seu próprio selo editorial para vender a sua primeira poesia épica por 5 centavos. Tudo isso antes dos 8 anos de idade. É claro que nos vídeos anteriores tem muito mais do que isso; a história do Lovecraft até aqui já foi realmente impressionante pra gente.

Mas a situação aqui é um pouco diferente, já que, ao invés de uma obra autoral, a gente está vendo realmente uma tradução. E não, ele não traduziu toda a obra de Ovídio; ele traduziu os 88 primeiros versos, o que é muita coisa. E veja: ele traduziu do latim pro inglês aos 10 ou 11 anos. Não tinha Google Tradutor, não tinha ChatGPT, nada dessas coisas. Será que você daria conta? O moleque era um prodígio, não tem como a gente negar isso. Agora, uma tradução do Lovecraft criança tem como ajudar a gente em alguma coisa aqui? Tem pra caramba, muito mais do que você pensa. E eu não estou falando isso só por uma empolgação aqui de quem está fazendo o vídeo. Acontece o seguinte: dependendo de como um escritor traduz um texto, você consegue ver exatamente o que é que está na cabeça dele. Você consegue ver quais aspectos da trama ou do desenvolvimento dos personagens ele quer destacar. No caso do Lovecraft, a gente vai ver isso, mas a gente vai ver algumas outras coisas interessantes também, porque o Lovecraft é muito conhecido por ter uma linguagem muito própria na narrativa. E aqui a gente vai ver o Lovecraft de 10 ou 11 anos tentando resolver alguns problemas de linguagem. Em outras palavras, a gente já está vendo aqui que tipo de escritor o Lovecraft quer ser.

Primeiro lugar, deixa eu te explicar o que é que tem nesse livro chamado *As Metamorfoses* de Ovídio. Como eu disse, é um grande poema épico. Ele foi escrito por volta do ano 8 depois de Cristo, e são 15 livros narrando transformações. Esse é o tema, digamos assim, que une todas as narrativas que estão nesses livros. É nesse livro que está a primeira referência, a referência mais antiga que a gente encontra da história de Narciso. Acontece que o Lovecraft não começa por aí; ele vai começar do começo mesmo. Só que as primeiras histórias do livro são sobre a cosmogonia, são sobre a criação do universo, e é por elas que o Lovecraft começa. E é isso que deixa a coisa interessante, porque são histórias que de alguma forma têm tudo a ver com o Lovecraft. Olha o que que ele escreve na primeira linha: "Caos era chamado uma massa bruta e inacabada, sementes mal unidas congestionadas em um só lugar". Isso aqui é Lovecraft puro. E olha só, a gente tem aqui uma massa sem forma, precisando ser ordenada. E sabe quem que vai fazer isso? O texto fala assim: "O Deus, seja lá quem ele tenha sido".

Isso aqui é um detalhe dos mais reveladores para mim nessa tradução, porque uma coisa muito típica do Lovecraft é que, ao invés de ele nomear um personagem, nomear um poder, nomear uma coisa que ele está vendo, o que ele faz é deixar a lacuna aberta, seja por hesitação, seja por falta de compreensão, seja por falta de capacidade de explicar aquilo que está diante dos olhos. E aqui a gente já tem uma lacuna aberta, tipicamente lovecraftiana, que vai saber se não foi isso que ficou na cabeça dele para sempre. Olha só: Cthulhu, ele não tem um nome de verdade; os Grandes Antigos, eles não têm uma motivação compreensível. Quando você para para analisar o universo lovecraftiano, você percebe que ele é governado por forças que a linguagem humana não consegue definir com muita precisão, não tem condições de definir. E aqui me parece que quem forneceu essas coisas pro Lovecraft foi Ovídio.

E tudo bem, a gente já tinha visto nos outros vídeos que desde pequenininho ele foi tendo influência da mitologia grega. Ele chegou a explicar em uma das suas cartas, depois de adulto, que na infância ele era quase como um religioso grego mesmo. Por outro lado, ele não gostou muito da cosmovisão cristã, talvez porque ele esperasse alguma coisa mais maluca, ou talvez só porque ele gostasse mais dessa ideia, pelo menos de um ponto de vista de escritor, de um universo que de pessoal não tem nada. E a gente encontra isso aqui também, essa ideia mais pessimista da realidade. Quer ver só? A criação do homem aqui em Ovídio, ela vem por último; ela é quase que um detalhe só. E pior ainda: o homem não é criado por um deus amoroso, como a gente conhece da narrativa bíblica, da fé cristã. O homem é formado de barro e de fragmentos divinos de Prometeu. Só que, como eu disse, isso não acontece por amor desse Deus; acontece a partir de um titã que fabrica esses homens praticamente por conveniência. Por quê? Porque ele quer preencher um espaço vazio que tem na natureza. É só isso. O homem no universo greco-romano é só um detalhe; ele é só mais um item na lista. E isso não tem tudo a ver com a sensação do universo lovecraftiano? Compara isso aqui com os contos maduros do Lovecraft, seja em *O Chamado de Cthulhu*, *Nas Montanhas da Loucura* ou *A Sombra sobre Innsmouth*. É exatamente esse o lugar da humanidade: os humanos são uma raça tardia, acidental e irrelevante na escala do que existe. O Lovecraft não inventou essa imagem, essa ideia com 30 anos; a gente está vendo aqui ele com 10 ou 11 anos encontrando isso em Ovídio.

E olha, eu não sei se você já teve essa experiência, se você já tentou escrever alguma coisa: às vezes você escreve e um mês depois você não lembra mais o que é que está lá. Quando você relê um conto antigo seu, você fica até surpreso. Por que isso? Porque escrever suas próprias histórias nem sempre exige muito esforço seu se você for criativo; às vezes a história vem pronta, você só passa pro papel. Agora, imagina o esforço de traduzir uma obra do latim pro inglês! São tantas coisas diferentes envolvidas aqui em termos de intelecto, né, que isso com certeza ficou muito tempo na cabeça do Lovecraft. Então, em termos de *wording*, em termos de assunto, a gente já está vendo que traduzir *As Metamorfoses* de Ovídio fez muita diferença para ele.

Só que isso não aconteceu só com relação ao conteúdo, aconteceu com relação à forma também, porque, como eu disse, esse trabalho de Ovídio é um poema épico. E é esse detalhe aqui que prova o meu ponto neste vídeo, porque o Lovecraft não está só traduzindo palavra por palavra, ele não está só traduzindo as frases, as expressões que ele está vendo ali, ele está realmente fazendo o esforço genuíno de um poeta aqui. Como é que a gente sabe disso? Bom, primeiro a gente tem que falar daquele poeta inglês que eu falei que ia citar, um poeta muito influente no século XVI chamado Alexander Pope, porque sem entender Pope você não vai entender o que é que o Lovecraft está fazendo aqui nessa tradução.

Vamos lá: Alexander Pope foi um poeta inglês muito conhecido, e a marca dele era o que se chama de verso heróico endecassílabo. Eu não vou tentar explicar demais isso aqui, mas a gente está falando de sempre dois versos rimados que juntos completam uma unidade só de pensamento. E Pope ficou realmente famoso por fazer esse tipo de verso grandioso e bastante equilibrado, quase matemático. Pope usou isso nas suas sátiras, usou isso na sua filosofia e usou também nas traduções que ele fez da mitologia greco-romana. A tradução que ele fez, por exemplo, da *Ilíada* de Homero foi um fenômeno tão grande cultural na época que deixou ele não só famoso, deixou ele rico também. Olha só: o cara ficou rico fazendo um estilo próprio de verso, traduzindo a *Ilíada* de Homero.

E por que que esse cara aqui é importante? Porque o Lovecraft está realmente imitando o que ele fazia. A gente sabe disso por causa dos relatos do próprio Lovecraft nas suas cartas. Foi por isso que, quando Lovecraft começou a traduzir Ovídio pro inglês, ele não fez isso usando aquele inglês mais neutro do século XX da sua época; ele traduziu Ovídio para dentro do estilo de Alexander Pope, ou seja, usando toda uma arquitetura sintática específica, inclusive muito trabalhosa, lembrando que o Lovecraft tinha entre 10 ou 11 anos aqui.

Eu estou me segurando aqui para não mostrar vários exemplos dessa tradução que Lovecraft fez, mas tem um exemplo que eu preciso mostrar. Olha essa rima que está aqui na tela:
*The food with cold.*
*The moist oppose the dry.*
*Soft things with hard sustain the animity.*

Bom, alguma coisa te chamou atenção nessa rima aqui? Ênfase na rima. Olha que doideira isso aqui: apesar de *dry* nitidamente não rimar com *animity*, visualmente elas combinam no final, porque ambas terminam com "Y". O que o Lovecraft está fazendo aqui com 10 ou 11 anos de idade é mantendo a estrutura da rima, a métrica, né, a quantidade de pés silábicos que ele precisava; ele manteve também o paralelismo, manteve a ideia de um verso duplo com uma ideia completa, um pensamento completo, mas no fim das contas isso aqui não rimou. É óbvio que ele percebeu isso.

Nesse tipo de verso que é o dístico heróico, a rima é a coisa que chama mais atenção da gente, mas foi a primeira coisa aqui que caiu, né? Então o que é que justifica isso? Por que que ele deixou aqui nesse verso? Eu achei tão esquisito ele deixar passar isso aqui sem rima, que eu procurei pra caramba até encontrar uma resposta, e eu encontrei. Olha só que doido: muitos anos depois, já adulto, Lovecraft escreveu um ensaio sobre poesias defendendo o que ele chamou de "rimas permitidas". E o que é que seriam essas rimas permitidas? Seriam pares de palavras com a grafia parecida, mas com pronúncias diferentes. Um bom exemplo seriam essas duas palavras aqui da língua inglesa. Pensa num primeiro verso que termine com essa palavra e um segundo verso que termine com essa. Mesmo sabendo que a pronúncia das duas é totalmente diferente, a grafia delas é tão parecida que você, como brasileiro, só lendo, provavelmente ia passar batido. Fala a verdade! E olha só, eu fui pesquisar mais ainda para ver se algum autor já tinha feito isso, e eu encontrei o próprio Alexander Pope rimando essas duas palavras aqui. Então, para Lovecraft, fazer esse tipo de exceção no texto era completamente aceitável; ele já tinha visto esse ídolo dele fazendo a mesma coisa, ou seja, ele não se preocupou porque ele estava dentro de uma tradição.

E eu preciso dizer uma outra coisa também: eu ainda pretendo fazer um vídeo longo sobre poesias, mas uma coisa que você talvez que tenha preconceito aí com poesias tem que saber é que a poesia clássica grega e em latim não tem rima; ela é uma poesia que funciona de outro jeito. A gente viu, inclusive, nas lives que a gente fez aqui no canal sobre a *Ilíada*, *A Odisseia*, a *Eneida*, *Os Argonautas* e outros textos poéticos que a gente viu por aqui já. Então, Lovecraft traduzindo aqui um texto em latim que não tem rima não faz tanta diferença se ele mesmo não rimar, até porque toda a rima que ele está impondo ao texto aqui é só para ele soar parecido com Alexander Pope, que algumas vezes também não rimava. Mas enfim, isso aqui era só uma curiosidade que eu achei legal de trazer.

E agora, a partir desse momento do vídeo, eu quero te passar algumas lições para escritores. A gente chegou naquele momento que mais interessa para uma parte do nosso público aqui, que é a escrita. Eu quero tentar te convencer do quão brutal pode ser esse exercício de tentar traduzir uma obra com as suas próprias palavras. E veja, eu nem tô falando necessariamente de traduzir de uma língua para outra; eu tô falando de você fazer a sua própria versão num outro estilo de uma história que você já conhece. Olha só, depois que eu gravei este vídeo, eu fiz mais dois textos para os próximos dois vídeos do Lovecraft, e eu percebi que eu tinha que voltar neste vídeo e regravar esta parte. E agora eu tenho a certeza de que traduzir uma obra de outra pessoa pode ser um exercício brutal para desenvolver a sua escrita. Eu vou provar para você isso na prática com os dois próximos vídeos do Lovecraft.

Neste vídeo aqui, eu só posso tentar te convencer a fazer esse exercício que ele também fez, não necessariamente traduzir de uma língua para outra uma obra; pode ser mais simples do que isso, pode ser você simplesmente fazer a sua própria versão com um estilo diferente de uma obra que você já conhece. Tanto traduzir quanto fazer a sua própria versão de uma outra obra vai te obrigar a lidar com a lógica interna de outro autor e resolver problemas dele com as suas ferramentas, porque quando você escreve um conto original, você também já escolhe os seus próprios problemas; você pode desviar, por exemplo, daqueles problemas que sejam muito difíceis, pode mudar de ideia, cortar uma parte. Mas se você está traduzindo, se você está fazendo a sua versão de toda aquela obra, problemas que você não escolheu já estão dados, você não tem como fugir deles, você vai ter que descobrir uma maneira sua de resolver.

E muitos problemas que Ovídio ofereceu ao Lovecraft, ele resolveu escolhendo Alexander Pope como referência. Veja que, por mais que as narrativas em si não fossem do Lovecraft, o que ele fez não foi só uma tradução; existe um projeto autoral aqui poético, que é no mínimo estilístico. O Lovecraft aqui, com 10 ou 11 anos, escolheu o modelo mais exigente que ele conhecia de verso para traduzir um universo completamente diferente daquele que ele estava acostumado a ver em Pope, que era a mitologia greco-romana de Ovídio. Então a gente percebe que, mesmo sendo só uma tradução, esse texto já estava anunciando o tipo de escritor que o Lovecraft se tornaria. Ele mostra o Lovecraft, desde muito pequeno, escolhendo com muito cuidado as suas palavras, e mostra que o horror cósmico não nasceu do nada; muito pelo contrário, nasceu de uma criança pesquisando textos importantes antigos e raciocinando em cima desses textos, fazendo a sua própria versão deles. Olhando assim, não parece que é disso que se trata o horror cósmico do Lovecraft, mesmo que ele seja muito original?

Bom, no próximo vídeo a gente vai voltar pras obras autorais do Lovecraft. Pelo menos para esses dois próximos vídeos, eu te garanto que você não está preparado para isso, você não tem a menor ideia do que eu vou te mostrar aqui. Então já se inscreve aqui no canal, ativa o sininho para receber as próximas notificações. Mas por este vídeo é isso. Te vejo no próximo. Até mais!