Enquanto a Musa urbana, em febril tom, uiva,
Sufocada pelos tempos, a cantos tétricos se ativa;
Enquanto a erudita Confusão, pesando sobre a mente,
Converte toda cabeça em pensamento incongruente;
Enquanto os bardos exaustos ocultam com sábio temor
O frêmito de alegria pelo que o pretérito teve de valor,
Vede sobre o prado rústico, sereno e brilhante,
Um deus radiante que espanta a nuvem errante!
Simplicidade! Da abençoada Natureza a primeira aliada;
Filha dos bosques balsâmicos e do céu de luz banhada;
Amiga das brisas e da chuva vernal,
E de cada flor precoce que adorna o plano areal;
Espírito benigno, que reluz em toda clareira,
E sorri consolador na folhagem sobranceira;
Irmã das Óreadas nos montes pedregosos;
Irmã das ninfas dos grottoes mananciais custosos;
Deus do vale, do matagal e da encosta, enfim,
E último terno guardião da Esperança que tem fim!
Assim canta o bardo cujo olhar com sabedoria deixa
A cena onde a triste Sofisticação se queixa;
Que esquadrinha a verdade que na calma contente brilha,
E entesoura o espanto que o homem mundano esbilha;
Ri do veneno preparado pelos feiticeiros letrados,
Nem almeja prazeres que jamais lhe foram dados.
Para ele a primavera alegre e renascente desdobra
Belezas perenes sobre a charneca que as encobra;
Só seu ouvido aprazem os viajantes penados
Com contos de mundos feéricos além dos mares distantes guardados;
Seu olho dileto em cada vento pode rastrear
Etérios espíritos de graça celestial a vagar;
E ele, incorrupto, pode como uma criança banhar-se outra vez
Sob os raios do áureo reinado de Saturno e sua altivez.
Vede aquela colina, sobre cujo dorso esmeraldino e liso
Dança a viva Maia, vestida em alvo riso;
Sua varinha verdejante o ar de perfume inunda,
Toca os ramos tépidos, pinta as colinas fecunda;
Ilumina os campos matutinos com orvalho de cristal,
E doura de novo os penhascos do poente etéreo e genial;
Sua comitiva lúdica a cada cenário confere
Magias raras, e o coração langue alphere;
Dança e canto encantam o mundo ao redor,
Até que Pan se alegra com o som que traz ardor.
Na quietude do meio-dia, quando nenhum olhar urbano
Pode gelar a blis ou macular o banho profano,
A Simplicidade discerne por toda parte o vislumbre
Da procriação antiga em seu cortejo e alume:
Eis que as Musas coroadas de louro sua arte professam,
E Baco coroado de hera agita seu tirso que em botão medram;
Eis que Vênus de murta espalha seu fogo genial,
Enquanto o áureo Febo entoa a lira festiva e real;
Eis, aqui somente, os dons pródigos derramados
Àqueles cuja imaginação permanece para sempre nos prados.
Vede aquela aldeia, abençoada pelos anos maduros,
Que aninhada no vale de carvalhos surge aos escuros;
Aqui os olhos urbanos* discernem uma vida estúpida;
E as mentes urbanas** aprendem uma secreta dúvida;
Mas a sábia Simplicidade, com olhar mais fresco, refina
Todo o conjunto, e peneira a luz que mais fascina;
Rejeita os pensamentos obtusos que entre sombras vão,
E como um quadro*** glorifica a visão:
Spiras misturadas ao verde; muros de hera adornados;
Caminhos calmos de folhas—um panorama raro e amados.
Simplicidade! Suprema dádiva do homem sofredor!
Primeira das bênçãos do plano criador!
Que teu manto alegre sempre proteja meu ser
Dos terríveis terrores da tormenta a envolver.
Contigo a meu lado, posso em paz repousar
Junto ao seio consolador da Natureza a pulsar;
Sem jamais espiar, com agudo engenho ou fulgor,
A cicuta espreitando na taça ornada de flor!
* Sinclair Lewis, Esq.
** Sherwood Anderson, Esq.
*** Schopenhauer observou que o mundo é belo como objeto.