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Um dia triste

Você começa a falar numa tarde de chuva.

Talvez porque a chuva torne tudo mais fácil.

Ela cai do lado de fora sem precisar explicar por que está caindo, e você pensa que gostaria de ser assim: alguma coisa que simplesmente pudesse existir sem precisar justificar a própria existência.

Sua mãe está sentada diante de você.

Você olha para ela durante alguns segundos antes de dizer qualquer coisa.

Existe uma vida inteira dentro daquele silêncio.

Uma vida inteira de coisas que você não contou.

Você já tentou explicar a tristeza muitas vezes, mas sempre desistiu no meio. Porque, quando alguém pergunta por que você está triste, parece que está esperando uma resposta que você não possui.

Você gostaria de poder dizer: foi por isso.

Mas não foi.

Não existe uma única ferida.

Não existe um culpado.

Não existe uma data.

Existe você.

E existe essa coisa escura que, há algum tempo, começou a ocupar espaços dentro de você que antes pertenciam a outras coisas.

Você respira.

— Mãe, eu preciso que você só me escute.

Ela não pergunta nada.

E isso faz você continuar.

— Eu não sei explicar o que está acontecendo comigo.

Você olha para a chuva.

— Acho que esse é o problema. Eu não sei explicar nem para mim.

Você sorri de maneira quase imperceptível.

— Eu sei que estou triste.

Uma pausa.

— Mas não é só isso.

Sua mãe continua em silêncio.

— Se fosse só tristeza, talvez fosse mais fácil.

Você entrelaça os dedos.

— Se alguém tivesse morrido, se alguém tivesse ido embora, se alguma coisa tivesse dado errado, eu poderia apontar para aquilo e dizer: é por causa disso. Eu poderia chorar, sofrer, esperar o tempo passar.

Você olha para ela.

— Mas eu não tenho uma coisa para culpar.

Sua voz diminui.

— Eu tenho a mim.

Você sente os olhos se encherem.

— E eu não quero que você pense que eu não amo a minha vida.

Você respira.

— Porque eu amo.

Essa frase dói.

— Eu amo pessoas. Amo histórias. Amo livros. Amo coisas pequenas. Tenho sonhos. Tenho lembranças que guardo com carinho. Tenho coisas que ainda quero fazer.

Você abaixa a cabeça.

— E mesmo assim existe uma tristeza dentro de mim que consegue alcançar tudo isso.

Você procura uma palavra melhor.

Não encontra.

— É como se eu soubesse que existe beleza, mas não conseguisse mais chegar até ela.

Sua mãe toca sua mão.

Você continua.

— Às vezes eu olho para alguma coisa bonita e penso: eu deveria estar feliz agora.

Você ri sem alegria.

— Percebe?

Você olha para ela.

— Eu penso que deveria estar feliz.

Não que esteja.

— E isso me faz sentir ainda pior.

Porque você começa a desconfiar de si mesma.

Começa a pensar que talvez seja ingrata.

Que talvez esteja exagerando.

Que talvez exista alguma coisa errada em você.

— Eu tenho medo de você pensar isso também.

Sua mãe aperta sua mão.

Você sente vontade de chorar, mas continua.

— Eu não quero que você olhe para mim e pense que eu não reconheço tudo o que tenho.

Você respira fundo.

— Eu reconheço.

— Eu só não consigo sentir.

Silêncio.

E talvez essa seja a frase mais verdadeira que você já disse.

Você não perdeu completamente a capacidade de saber o que é felicidade.

Você perdeu a facilidade de senti-la.

Você sabe que uma música é bonita.

Sabe que um abraço é carinho.

Sabe que uma pessoa ama você.

Sabe que um livro pode ser extraordinário.

Sabe que a chuva é bonita.

Sabe que a vida tem momentos que deveriam ser suficientes para aquecer alguém por dentro.

Mas existe alguma coisa entre você e tudo isso.

Uma distância que ninguém consegue enxergar.

E você fica do outro lado.

Assistindo.

Você se lembra da música do Djavan.

“Um dia triste, um bom lugar para ler um livro.”

Você diz isso para sua mãe.

Ela conhece a música.

— Eu sempre gostei dessa frase — você continua.

— Porque existe alguma coisa muito bonita na ideia de um dia triste.

Você olha pela janela.

— Um dia triste ainda é um dia.

A chuva engrossa.

— Ele começa de manhã e termina à noite. Você pode se esconder debaixo de um cobertor, ouvir música, ler um livro, esperar a chuva passar.

Você sorri de leve.

— Existe uma espécie de consolo nisso.

Você fica em silêncio.

Então diz:

— Mas ninguém fala sobre o que acontece quando o dia triste não termina.

Sua mãe olha para você.

— Quando você acorda no dia seguinte e ele continua.

Você engole em seco.

— E depois acorda de novo.

— E ele ainda está lá.

Sua voz começa a tremer.

— E chega uma hora em que você já não sabe se está atravessando um dia triste ou se está vivendo dentro dele.

Você olha para sua mãe.

— É isso que eu tenho medo de não conseguir explicar.

A música volta à sua cabeça.

Um dia triste.

Você pensa em quantos dias cabem dentro de uma tristeza.

Quantas manhãs.

Quantas noites.

Quantas vezes você pode dizer “hoje estou mal” antes que “mal” deixe de ser um estado e passe a parecer uma identidade.

— Eu tenho medo de me acostumar.

Sua mãe franze a testa.

Essa é a parte que mais dói.

Porque a tristeza ainda seria alguma coisa.

Sentir tristeza significa sentir.

O que assusta é quando você começa a olhar para as coisas e percebe que elas não conseguem mais alcançar você.

Você continua sendo capaz de rir.

Mas depois do riso existe o vazio.

Continua sendo capaz de conversar.

Mas depois da conversa existe o vazio.

Continua sendo capaz de ler.

Mas depois de fechar o livro, você continua sendo você.

E então você percebe que talvez tenha usado histórias durante muito tempo para fugir de si mesma.

E não existe nada de errado nisso.

Às vezes, um livro é uma porta.

Você entra e fica algumas horas longe de si.

O problema é quando chega a hora de voltar.

Você fecha a última página.

E está lá.

Você.

A tristeza.

O mesmo quarto.

O mesmo silêncio.

A mesma pergunta que você nunca conseguiu responder.

— Mãe…

Ela olha para você.

— Você sabe o que é mais cansativo?

Ela balança a cabeça.

— Ter que explicar que eu sei que tenho motivos para continuar.

Você abaixa os olhos.

— Eu sei.

— Sei mesmo.

Você respira.

— Mas, às vezes, saber não é suficiente para fazer o coração obedecer.

Sua mãe chora em silêncio.

Você também.

— Eu não quero que você tenha medo de mim.

Você segura a mão dela.

— Eu só quero que você entenda que existem dias em que viver parece uma coisa muito pesada.

Você faz uma pausa.

— Não necessariamente porque eu queira morrer.

A palavra fica entre vocês.

— Às vezes eu só queria descansar da obrigação de ser eu.

Você fecha os olhos.

— Descansar dos pensamentos. Das expectativas. Da necessidade de parecer bem. Da necessidade de explicar. Da necessidade de responder quando alguém pergunta o que aconteceu.

Você olha para sua mãe.

— Porque às vezes não aconteceu nada.

— E esse é o pior.

Sua voz quase desaparece.

— Nada aconteceu.

— Eu simplesmente acordei triste.

Você começa a chorar.

— E não sei como voltar.

Sua mãe se aproxima.

Você deixa.

Ela abraça você.

E, pela primeira vez, você não tenta diminuir o que está sentindo para que ela se sinta melhor.

Você não diz que vai passar.

Não diz que amanhã será diferente.

Não transforma sua própria dor numa promessa que você não sabe se consegue cumprir.

Você apenas permanece ali.

No abraço dela.

Enquanto a chuva continua.

E pensa novamente naquela música.

Um dia triste.

Um bom lugar para ler um livro.

Talvez Djavan tenha escrito sobre um dia.

Mas você está tentando explicar para sua mãe o que acontece quando a tristeza começa a ultrapassar as fronteiras do calendário.

Quando ela não termina à meia-noite.

Quando não vai embora porque amanheceu.

Quando você acorda e descobre que ela dormiu ao seu lado.

Quando você percebe que ela conhece seus caminhos.

Quando ela sabe onde encontrar você.

Você olha para sua mãe.

— Eu não preciso que você tire isso de mim.

Ela passa a mão no seu cabelo.

— Eu só preciso que você não tenha medo de olhar para mim quando eu estiver assim.

Você fecha os olhos.

— Porque eu tenho medo de que, se eu precisar fingir que estou bem o tempo inteiro, um dia ninguém mais perceba quando eu realmente não estiver.

Sua mãe segura seu rosto.

E você entende que talvez existam momentos em que ser amado não significa ser consertado.

Significa poder dizer a verdade sem precisar pedir desculpas por ela.

Então você diz:

— Hoje eu estou triste.

Não é uma frase pequena agora.

Ela carrega tudo.

Carrega as noites.

As manhãs.

Os pensamentos.

A culpa.

A solidão.

A distância entre saber e sentir.

A saudade da mulher que você era antes de precisar pensar tanto sobre como continuar sendo ela mesma.

— Hoje eu estou triste, mãe.

E sua mãe responde:

— Eu sei.

Só isso.

Eu sei.

Duas palavras.

Nenhuma solução.

Nenhuma promessa.

Mas, naquele instante, elas parecem maiores do que qualquer conselho que alguém poderia oferecer.

Porque você finalmente entende que talvez não precise encontrar uma explicação para a tristeza antes de ter o direito de senti-la.

Talvez não precise provar que sua dor é grande o suficiente.

Talvez não precise estar destruída para admitir que está cansada.

Talvez não precise esperar que a tristeza desapareça para continuar existindo.

A chuva começa a diminuir.

Você olha pela janela.

O mundo continua lá fora.

Os carros continuam passando.

As pessoas continuam vivendo.

A vida continua acontecendo com a mesma indiferença de sempre.

E você continua ali.

Ainda triste.

Ainda tentando entender.

Ainda sem respostas.

Mas agora sua mãe sabe.

E talvez seja isso que muda alguma coisa.

Não a tristeza.

Você ainda a sente.

Mas agora ela não é mais um segredo.

Você encosta a cabeça no ombro da sua mãe.

E pensa que talvez exista uma diferença entre estar sozinha e sentir-se sozinha.

Você ainda sente a tristeza.

Mas, naquela noite, não está sozinha dentro dela.

E talvez, por enquanto, isso seja suficiente.

Porque existem dias em que tudo o que você consegue fazer é sobreviver ao próprio coração.

Existem dias em que a única vitória é permanecer.

Existem dias em que não há força para grandes promessas.

Há apenas um minuto.

Depois outro.

Depois outro.

E talvez seja assim que você atravessa um dia triste.

Não esperando que a chuva pare.

Mas aprendendo, pouco a pouco, que você ainda pode existir enquanto ela cai.

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