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O intinto da sombra

Esticas as patas preguiçosamente, unhas afiadas testando a firmeza das telhas de barro frio, acomodando-as sobre o telhado enquanto o vento da madrugada sussurra pela noite. A lua cheia estampa o céu, iluminando a vastidão cinzenta da vizinhança; os teus olhos, perfeitamente treinados na escuridão mais densa, não precisam de muito esforço para rastrear o movimento furtivo de teus semelhantes sobre o telhado vizinho, sombras que cruzam em um silencioso território de caça.

Graciosamente, com uma elegância felina, levantas-te. Espreguiças a espinha em um arco perfeito, esticando cada músculo antes de iniciar a descida calculada pelas calhas. Num salto preciso, quase imperceptível ao ouvido humano, cais suavemente ao chão de cimento batido do quintal, o focinho trêmulo farejando o ar em busca de oportunidades. A missão imediata: procurar uma fresta ou janela aberta para entrar em casa e garantir o suprimento da madrugada.

Ao contornar a estrutura, notas que a sorte te sorri: por um descuido humano, deixaram a porta da cozinha escancarada, revelando a penumbra acolhedora do interior. Sem hesitar, diriges-te diretamente para dentro, marchando com passos deliberados à procura da tua tigela de comida, que religiosamente se encontra no mesmo canto de sempre, ao lado do recipiente de água fresca. Consomes tua refeição com o apetite voraz de um pequeno predador que finge domesticidade.

Depois de te alimentares devidamente, a barriga cheia pede o conforto do tapete felpudo da sala, o teu lugar favorito para as primeiras horas que seguem. Vens a ti, acomodando-te com um suspiro felino, fechando os olhos pela metade enquanto vigias o ambiente. De repente, um ranger agudo e sutil quebra o silêncio na porta semiaberta do banheiro. Não hesitas: levantas-te instantaneamente, com o cuidado de um caçador nato, o corpo colado ao chão, os músculos retesados como molas.

Sem pensar duas vezes, dás o bote, pulando certeiro e caindo com a pata direita cravada exatamente sobre aquele inseto repugnante que ousa cruzar o teu território.

Deixas a criatura se debater por instantes, observando com evidente ironia e tédio a incansável e patética atitude do pequeno ser que tenta se livrar do destino cruel que lhe impões. Ergues a pata por um segundo, soltando-o de propósito, apenas para voltar a tê-la sob teu peso logo em seguida, divertindo-te cruelmente com o desespero e o sofrimento daquele ser indefeso diante de tua superioridade implacável.

Ao cansares da breve caça, decides encerrar o destino do inseto com um golpe definitivo, voltando logo em seguida ao teu descanso interrompido. Contudo, o teu sono reparador não se prolonga por muito tempo; logo sentes o tédio da calmaria e sais à procura de diversão de verdade no teu santuário de travessuras predileto: a estante de bonecos e miniaturas que tua dona, com imenso cuidado e paciência cristã, organiza artisticamente durante o dia.

És impiedoso. Com um toque displicente, mas calculado, começas a derrubá-los um a um, ouvindo o som seco de cada peça batendo no chão, onde se espalha puro caos.

A noite continua avançando sob o ritmo de tuas ativas e incansáveis ações. Os novelos de lã colorida guardados no cesto do ateliê são tuas vítimas seguintes: atacas-os sem pensar, rolando-os, espalhando-os por toda a extensão da sala em uma teia colorida intransponível. Não satisfeito com a bagunça visual, mastigas os fios com afinco até que se partam, satisfeito com a destruição minuciosa que deixas.

Mas, antes mesmo que o sol nasça no horizonte, tua dona começa a se movimentar no quarto. É fascinante: nesta exata hora, como se possuísses um relógio interno infalível e soubesses o horário preciso em que ela desperta, já abandonas a bagunça, corres para o canto estratégico e ficas deitado, perfeitamente imóvel, fitando-a com grandes olhos brilhantes.

Acompanhas cada passo dela pela casa vestindo a mais perfeita máscara de inocência, pois quem quer que a veja não imagina os cacos e os fios de destruição que fizeste há poucos minutos. Tua dona, no entanto, não demora a entrar no cômodo e deparar-se com o cenário desolador: bonecos no chão, novelos desfeitos. Em silêncio, suspira fundo e, com a paciência infinita que só ela possui, recolhe cada peça com carinho, voltando a organizar a estante com esmero.

Com a mesma calma e suavidade, ao terminar a arrumação, ela segue para a cozinha para verificar se a tua alimentação diária está em ordem, prepara café fresco, deixando um aroma envolver o ar da casa e, antes de qualquer outra atividade, abaixa-se para pegar-te ao colo, fazendo carícias demoradas em tuas orelhas.

Tu, fingindo uma completa insensibilidade, permaneces estático em seu colo por pura conveniência, mas basta o primeiro clique metálico da chaleira para que saltes de volta ao chão, sem reclamar ou demonstrar afeto prolongado. Com tudo pronto, ela finalmente se senta à mesa para o desjejum matinal.

Aproximas-te sorrateiramente, pedindo com insistência as migalhas do alimento que sempre te é oferecido com carinho, agindo como se passasses fome, mesmo sabendo perfeitamente que a tua tigela está repleta na cozinha.

As tarefas do dia se iniciam oficialmente no jardim ensolarado. Enquanto ela rega as plantas, corres freneticamente de um lado a outro para chamar a atenção, pulando entre as flores e, sem te intimidares minimamente, desferes leves ataques de brincadeira às pernas dela enquanto ela tenta caminhar de volta para dentro de casa para dar prosseguimento aos afazeres domésticos.

O dia segue seu curso natural, e tu ages imediatamente ao menor ruído metálico vindo das panelas, sinal claro de que o almoço está sendo preparado. Em completo silêncio felino, aproximas-te e permaneces imóvel ao lado do fogão, observando cada movimento com olhos semicerrados. Quando ela se senta para almoçar, voltas a cercá-la com miados sutis, exigindo tua fatia de atenção e de comida.

A tarde se inicia preguiçosa, e o teu merecido sono vespertino é subitamente interrompido pela voz preocupada de tua dona que, ao notar-te excessivamente quieto em um canto qualquer, sobressalta-se, achando que algo aconteceu. Ela se aproxima, retirando-te do teu precioso descanso para checar se estás bem. Tu, mal-agradecido e avesso a excessos de zelo, corres imediatamente para debaixo dos móveis da sala, fugindo habilmente de seus cuidados maternais.

Insensível! Essa é a palavra que passa na cabeça da humana, até saber, por seu filho, que, nas raras vezes que se ausenta, o felino não cansa de miar enquanto procura sua presença.

Ao cair da tarde, quando ela finalmente entra em seu ateliê para retomar a confecção de suas peças, não te compadeces em deixá-la em paz por um segundo sequer. Pulas diretamente em seu colo com a nítida intenção de atrapalhar, enroscando teu corpo fofo, insistente, na linha com que ela tenta tecer mais um de seus bonecos artesanais.

Com uma paciência que desafia as leis humanas, ela te ergue delicadamente e te coloca no chão. Porém, impaciente com a rejeição momentânea, voltas a atacar o fio de lã solto, mordendo e puxando com tanta força que tornas o trabalho dela absolutamente impossível.

Sabendo de tua índole travessa, ela te prepara inúmeros brinquedos — bolinhas de borracha, ratinhos de pelúcia e bonecos de crochê —, nutrindo a esperança vã de que te distraias sozinho por algumas horas. Em vão, ignoras cada um dos artefatos caros, voltando a saltar em seu colo e retirando-lhe a paz de espírito novamente, num ciclo infinito de insistência.

Após gastar longas horas nessa dinâmica de guerrilha mútua, cansas-te da brincadeira interna e segues, mais uma vez, em direção ao jardim à procura de insetos, divertindo-te soberanamente por horas a fio.

Já tarde da noite, com o silêncio reinando absoluto na vizinhança, tua dona dirige-se finalmente ao quarto, exausta, entregando-se ao sono profundo.

Enquanto ela descansa, tu dás meia-volta e retornas altivo à rotina milenar que sempre se inicia lá no alto, no topo frio e iluminado do tel Umhado. E ali, sob o vigiar da lua, tudo se refaz.

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