Fábio bateu a porta da cozinha com tanta força que os vidros da janela tremeram. Eu estava no corredor, atrás da parede, segurando a barra da minha camisola e tentando fazer o minímo de barulho possível. Minha mãe, Fátima, estava diante da pia, lavando a louça, e naquele momento eu já sabia que alguma coisa estava errada, porque ele havia ficado muito quieta. Quando meu pai chegava daquele jeito, qualquer palavra podia ser suficiente para começar uma discussão. Eu tinha apenas oito anos e não entendia exatamente porque ele mudava tanto quando estava nervoso, mas já havia aprendido que, quando Fábio levantava a voz, eu precisava desaparecer.
– Estou falando com você, Fátima.
Minha mãe continuou olhando para a pia alguns segundos antes de responder. O prato que estava em suas mãos escorregou e bateu contra a borda, fazendo um barulho seco, mas não chegou a cair.
– Eu ouvi.
– Então por que não responde?
Ela se virou devagar e enxugou as mãos no pano de prato. Havia um pequeno roxo perto do olho esquerdo, quase escondido pela sombra da cozinha, e eu fiquei olhando para aquela marca enquanto meu pai continuava falando. Eu já tinha visto outras marcas antes, embora naquela idade ainda invetasse explicações para elas. Uma porta, um armário, uma queda no banheiro. Minha mãe sempre tinha uma resposta pronta e eu acreditava, porque era muito mais fácil acreditar nela do que imaginar que alguém que dizia amar uma pessoa poderia ser justamente quem a machucava.
– Não quero brigar, Fábio.
Ele soltou uma risada curta e passou a mão pelo rosto.
– Você nunca quer brigar. Engraçado porque toda vez que eu chego em casa tem alguma coisa errada.
Minha mãe abaixou os olhos e ficou em silêncio. Eu já conhecia aquele silêncio. Era o momento em que ela tentava fazer a discussão terminar antes que piorasse. Às vezes funcionava, naquela noite não funcionou.
Fábio caminhou até a mesa e puxou uma das cadeiras. Ele arrastou pelo chão e bateu de leve na parede. Era a cadeira que a minha mãe mais gostava, uma cadeira velha de madeira escura que já havia pertencido a minha avó. Fátima nunca permitia que ninguém a jogasse fora, mesmo depois que uma das pernas começou a ficar frouxa. Ela dizia que a madeira era boa e que ainda aguentava muitos anos. Eu gostava de sentar nela quando minha mãe estava na cozinha, porque ficava perto da janela e recebia o sol da manhã.
– Eu já falei para você se livrar dessa porcaria – disse Fábio.
– Ela era da minha mãe.
– E daí?
– Eu gosto dela.
Ele olhou para a cadeira e depois para Fátima.
– Você gosta de tudo que não presta.
Minha mãe não respondeu. Apenas se aproximou da mesa e tentou pegar a cadeira, talvez para coloco-lá de volta no lugar. Fabio segurou o encosto antes que ela conseguisse.
– Deixa isso.
– Fábio, por favor.
Foi quando ele a empurrou.
Não foi a primeira vez que vi meu pai enconstar a mão na minha mãe, mas foi a primeira vez que entendi que aquilo podia terminar de uma maneira diferente. Fátima perdeu o equilíbrio e bateu contra a mesa. A cadeira caiu junto, e uma das pernas traseiras se soltou com um estalo. Por alguns segundos, ninguém se mexeu. Fiquei olhando para aquela perna no chão, separada do restante da cadeira e lembro de pensar que a minha mãe ficaria triste porque finalmente a cadeira tinha quebrado.
Hoje sei que foi o último pensamento infantil que tive naquela casa.
Fátima olhou para o corredor e me viu.
Eu gostaria de dizer que ela não meu viu, porque seria mais fácil carregar essa lembrança. Mas ela viu. Seus olhos encontraram os meus e, naquele instante, eu soube que ela queria que eu fosse embora. Não porque não quisesse minha ajuda, mas porque uma criança não deveria assistir o que estava preste a acontecer. Eu não saí. Fiquei parada, com o coração batendo tão forte que parecia fazer barulho dentro do meu peito.
Fábio também percebeu que eu estava ali. Ele olhou para mim por alguns segundos e depois voltou os olhos para a minha mãe. A perna da cadeira estava no chão, próxima a seu pé. Ele se abaixou e pegou.
Minha mãe deu um passo para trás.
– Fábio, não.
Eu ainda consigo ouvir a voz dela. Não era alta, Não havia raixa. Havia medo.
Ele avançou.
Eu fechei os olhos.
O barulho veio logo depois.
Um único som ,seco, que apareceu atravessar a cozinha inteira.
Quando abri os olhos, Fátima estava no chão.
Eu não gritei. Não corri até ela. Não fiz absolutamente nada. Fiquei parada, fiquei parada olhando para a minha mãe, enquanto Fábio respirava ofegante e segurava a perna da cadeira. Até hoje não sei quanto tempo fiquei ali. Talvez tenha sido alguns segundos. Talvez uma eternidade. Algumas lembranças não respeitam o tempo.
No dia seguinte, Fábio disse que Fátima havia caído.
Disse que os dois tinham discutido, que ela estava nervosa e ele tentou ajudá-la. Disse que tudo tinha acontecido muito rápido e não sabia explicar exatamente como. Quando um policial perguntou se eu tinha visto alguma coisa, Fábio estava atrás de mim. Eu conseguia sentir a presença dele mesmo sem olhar.
– Eu estava acordada – respondi.
O policial se abaixou para ficar na altura dos meus olhos.
– Você viu o que aconteceu?
Olhei para o chão, depois para a cozinha.
– Meu pai pegou a perna da cadeira e bateu na minha mãe.
O silêncio que veio depois foi diferente de todos os outros que eu conhecia. Fábio tentou dizer alguma coisa, mas eu continuei falando, como se, depois de começar, não conseguisse mais parar.
– Ele estava brigando com ela. Minha mãe pediu para ele parar. Ela caiu e ele pegou a perna da cadeira. Depois bateu nela.
O policial olhou para Fábio.
Eu também.
Naquele momento, eu não sabia o que aconteceria com o meu pai. Não sabia se ele seria preso, se alguém acreditava em mim, ou se minha mãe poderia voltar para casa. Eu só sabia que aquela era a verdade.
Naquela noite, Fábio perdeu o controle da história – porque eu estava acordada.
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