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MIL CORAÇÕES

Existe um tipo perigosíssimo de soldado: o apaixonado. Ele é confuso e imprevisível. Se uma carta enviada volta sem resposta, ele perde o gosto pela vida. Mas se a resposta é quente como o interior das coxas de sua amada, ele acredita ser o próprio senhor da guerra e se joga, mijando em qualquer estratégia.

Yannu vivia uma situação singular: era comprometido, ou, pelo menos, queria acreditar que continuava a ser. Um solar atrás, quando os soldados marcharam, deixou sua esposa furiosa. Só não sabia o quanto. Ele não conseguia afirmar ao certo qual teria sido a reação de sua senhora ao descobrir que ele tinha uma filha com outra mulher.

A carta que deixou dizia:

“Ela nasceu antes de nos conhecermos. Resolvi manter segredo pois temia que você não quisesse se casar se soubesse e duvido muito que seu pai permitiria. Mas, agora, se eu não voltar, quero que saiba que uma parte da minha pensão militar será destinada para ela.”

E lá estavam eles, marchando de volta, com o soldado Yannu suando frio e cagando mole. Ele teve uma ideia que lhe pareceu brilhante: enviar uma outra carta. O problema é que se ela estivesse mesmo tomada de raiva, rasgaria antes mesmo de ler.

O sargento Vertrus, atento às necessidades de seus comandados, aconselhou:

— Por que não manda um mensageiro menestrel? Isso mostra que você se importa e ela não poderá deixar de ouvir o que você tem a dizer.

A ideia animou tanto Yannu, que ele passava longas horas elaborando a mensagem ao menestrel, o que resultou em uma caganeira retumbante. Foi necessário comissionar um batedor a procurar medicação adequada na vila mais próxima.

Era manhã do primeiro dia do lunar quando trombetas soaram.

O som brilhante e estridente vindo do pátio chamou a atenção de tanta gente quanto pretendia, mas de mais gente do que deveria. Acontece que Itava não tinha uma boa noite de sono há tempos. O motivo era o bebê que, diante daquela barulheira harmônica, chorou dissonantemente.

Por isso, ela foi logo ver quem ousava perturbar seu sono, quiçá, de toda a vizinhança. Como uma mãe de primeira viagem, estava desesperada por qualquer migalha de descanso decente.

Quando a avistaram, na janela do segundo andar, os trombetistas guardaram os instrumentos, substituindo-os por violinos e alaúdes. O menestrel empostou a voz e anunciou:

— Mensagem da parte de Yannu de Dalmeare, soldado da infantaria do décimo quarto pelotão de Mizzavel. Ele manda anunciar seu retorno, nos seguintes termos:

E então, entoou uma pequena canção:

Se ainda me amas, traça um coração

Com o meu nome

e fixe-o junto ao portão

Se ainda me amas.

Repetiu os versos mais uma vez e deixou as notas dos instrumentos soarem melancólicas. Depois disso, os músicos guardaram os instrumentos e, tanto eles quanto o menestrel, recolheram-se do pátio da vila. O recado foi entregue à sombra de muitas testemunhas.

A chegada em Mizzavel seguiu a tradição. No Portão da Marcha, uma multidão recebeu os soldados, formando um corredor de curiosos, admiradores e familiares.

Yannu não sabia o que esperar (ou se alguém esperaria por ele).

Não a viu em lugar nenhum e começou a se perguntar se a ausência tinha significado. Quando as solenidades acabaram, Yannu correu para casa em busca de uma resposta.

Não havia nada no portão, exceto por corrente e cadeado. Pulou a pequena mureta e encontrou um lar vazio. A cama estava feita, nenhuma louça suja e não havia poeira em qualquer canto. Contudo, não restavam dúvidas: ela se foi. E levou roupa, retratos, sapatos ou qualquer coisa que fosse dela.

Toc toc toc.

Yannu não correu para atender. Não aguardava ninguém e torceu para que a visita percebesse isso. As batidas continuaram, progredindo em força e frequência. Decidiu atender e despachar o incômodo. Tratava-se de um daqueles vizinhos idosos que sempre estiveram por ali.

— Senhor Ribel, boa tarde. — Yannu forçou-se a sorrir, ainda com a mão na maçaneta, esperando que a conversa não durasse muito.

— Tenho certeza que sim. — não fez questão de devolver a gentileza, como era de se esperar. Yannu não se lembrava de tê-lo visto sorrir nem uma vez na vida.

Por sobre os ombros do velho, viu que o portão estava aberto e notou o cadeado e corrente nas mãos dele.

— Senhor, não é uma boa hora. Estou cansado e faminto. Preciso arrumar as coisas por aqui. A casa está uma bagunça e…

— Duvido muito, muito — o senhor Ribel esticou o pescoço como se quisesse conferir dentro da casa.

— Perdão?!

— Duvido que precise arrumar a casa. Duvido, duvido — senhor Ribel caminhou em direção ao portão, como se quisesse ir embora. Antes de sair, virou-se e continuou a falar — Eu a vejo vir aqui toda semana. E não tem ninguém para bagunçar, não, não, não. Eu estive de olho, como a Itaya pediu. Além dela, não veio ninguém.

De alguma forma, aquilo parecia uma boa notícia: Itaya continuava cuidando da casa. Questionou-se se era por carinho ou zelo. Respondeu, enfim:

— É verdade, senhor Ribel — o soldado desarmou os ombros. — Eu só quero descansar. Qualquer coisa que o senhor precise, agora, vai ter que esperar.

Yannu começou a fechar a porta quando Ribel respondeu, com uma pitada de rispidez:

— Não, não, não. Esperar mais, não! Não aguento mais vê-la esperar.

— Ah, vai esperar s… espera, o que disse? Vê-la? Quem? — tornou a abrir a porta e saiu da casa.

— Sua esposa, soldado! Ela está no Cinzal dos Bravos — e deu de ombros. — É tudo que eu sei. Não sou eu quem mora lá dentro.

Yannu não precisava saber mais nada. Nem sequer voltou para fechar a porta. Era um soldado, estava de prontidão. Sempre. E correu. Correu sem parar. Atravessou todo o setor como se sua vida dependesse disso.

Seu destino estava atrás de um muro alto e um portão de ferro. Quando chegou lá, o corpo já encharcado de suor e o coração batendo na garganta, foi barrado, pois tinha esquecido sua insígnia distintiva.

— Escute aqui, seu recruta arrogante — vociferou, apontando o dedo para o jovem soldado enquanto se aproximava, — você não me conhecer é um problema seu, não meu. Vá buscar alguém que saiba quem sou eu e não me faça esperar muito.

Os dois guardas se entreolharam, assustados. Um deles recuou um passo enquanto o outro apertou a lança e engoliu seco. Yannu ordenou aos berros:

— Agora, recruta!

Um deles correu portal adentro. De fato, não demorou muito até que um rosto conhecido voltasse e abrisse um sorriso ao ver Yannu, recebendo-o com um abraço apertado.

— Soldado de Infantaria, hein — disse o sargento por trás do bigode espesso que lhe cobria a boca, dando-lhe tapinhas no ombro. — Quem diria? Apostei uma moeda de ouro que você voltaria.

— O senhor me superestima, sargento Sorben. — Yannu queria continuar essa conversa uma outra hora. — Senhor, eu esqueci minha insígnia, sabe? Será que eu poderia…

— Se você poderia…? — gargalhou, segurando o barrigão protuberante, adorno de militar reformado. — Você vê alguma farda ou insígnia em mim, garoto? Esse é o lar dos veteranos, Yannu. Até onde me consta, você é um soldado, e, agora que retornou, é um veterano.

— Obrigado, senhor — disse e bateu continência.

O sargento devolveu o gesto e lhe perguntou:

— Você veio para vê-los? — Sorbel acenou com a cabeça para trás.

— Eu vim para ver minha mulher. — Yannu franziu o cenho.

— Ah… — o sargento desviou o olhar — então você não sabe?

— Do quê, senhor?

— Acho melhor você mesmo descobrir.

O homenzarrão deu um passo para o lado e esticou o braço com a palma apontando para dentro da vila.

— Sabe onde ela está? — o tom de Yannu denunciava uma urgência quase desrespeitosa.

— Claro. Rua Êne, última casa do lado esquerdo. Casa 14. — Sorben disparou o endereço sem precisar pensar.

E voltou a correr, pensando no que o Sargento Sorben queria dizer. Imaginou que ela estive nos braços de outro homem e tentou afastar o pensamento. De qualquer forma, tinha que ver. Queria olhar nos olhos dela e dizer palavras ensaiadas, na tentativa de fazê-la refletir e, quem sabe, desfazer-se desse novo amor. A ideia soava desesperada, mas ele não viu isso como um problema. Estava, de fato, desnorteado.

Todas as suas duvidas foram esclarecidas assim que chegou na pequena praça arborizada, cercada de casinhas elegantes. Viu de longe algo que o fez chorar. A surpresa era tão grande que não podia acreditar nos seus olhos. Na parede externa da casa de dois andares havia mil corações e dentro do maior deles o seu nome.

Num banco de pedra encostado no muro, Itaya descansava, ninando o bebê. Ela o viu e imediatamente ficou de pé enquanto ele correu até ela com a vista embaçada.

Um beijo salgado e úmido, regado de certezas e saudades.

Ela se afastou o bastante para encará-lo.

— Eu li sua carta — disse com gentileza. — Chorei por um dia inteiro, mas não pela menina. Foi por você. Por ter guardado isso sozinho esse tempo todo.

Yannu abriu a boca, mas não sabia o que falar. Itaya continuou:

— Ela vai gostar de ter um irmão — A mulher sorriu enquanto enxugava os olhos com as costas da mão que estava livre. E então olhou para baixo, ainda mostrando os dentes:

— Soldado, eis sua nova missão.

Yannu baixou os olhos para o pequeno embrulho nos braços dela, no momento em que um punho minúsculo escapou da manta que o envolvia. Esqueceu-se das palavras, estendeu as mãos trêmulas e o segurou.

Os batimentos acelerados do pequeno ser contra seu coração. Yannu deu uma risada misturada com choro e perguntou com a voz embargada:

— Como ele se chama?

— Eu ainda não decidi. É direito do pai escolher. Estava esperando você chegar — respondeu, sorrindo entre as lágrimas.

Eles se sentaram no banco de pedra. Itaya apoiou a cabeça no ombro do marido. Os três ficaram ali, parados na praça, acalentados pela sombra macia e, pela primeira vez, em muito tempo, descansaram.

— Ernes — disse Yannu, como alguém que acabou de concluir o óbvio. — O nome dele é Ernes.

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