Adriano chegou em seu escritório naquela tarde, ansioso para ler a revista recém-entregue que tanto aguardava há um mês. Fechou a porta e, no silêncio do cômodo, dirigiu-se à sua mesa, sentou-se em sua cadeira preferida e acomodou-se para a instigante leitura.
Percebeu que faltava a xícara de café, preparou-a rapidamente e voltou à posição anterior.
Após folhear várias páginas, uma manchete lhe chamou a atenção: a queda de um avião causada por uma falha técnica do sistema de bordo. Ele se debruçou sobre a mesa a fim de observar os detalhes.
Incomodado com a posição, recostou-se na cadeira, equilibrando-se nas duas pernas traseiras, inclinadas para trás, segurando a revista nas mãos enquanto se balançava ritmicamente. Foi de repente que, sem perceber, fez um movimento mais brusco para trás.
Com o peso, a perna esquerda traseira da cadeira não suportou a pressão e quebrou, derrubando Adriano e causando uma queda fatal.
Thays entrou no escritório, após as 14h, com a papelada pronta para colher a assinatura de Adriano, mas viu uma cena que a deixou perplexa.
— Não! Isso não!
Paralisada no centro da sala, entendeu que precisava chamar a polícia. Rapidamente, voltou à sua mesa e quase deixou o telefone cair, pois suas mãos tremiam. Ao ouvir a voz da atendente, disse:
— Preciso de ajuda. Encontrei meu patrão morto no escritório. O que faço?
Puxou a cadeira para se sentar, já que sentia suas pernas falharem.
— Fique calma! Preciso da sua localização para enviar uma viatura.
Após alguns minutos, o local foi invadido por agentes que isolaram a área, dando início à investigação.
O agente Fábio, acompanhado de Carlos, seu parceiro, e da perita Katharine, entrou observando a cena com cuidado, enquanto os policiais faziam o trabalho de varredura pelo local. Sobre a mesa, havia papéis espalhados e uma revista caída ao canto. Adriano jazia sobre uma poça de sangue, com parte do corpo apoiada em uma cadeira de perna traseira quebrada. A cena denunciava um acidente fatal: ele aparentava ter batido a cabeça na quina da mesa logo atrás, onde livros caídos e sujos de sangue confirmavam o impacto.
Enquanto Fábio calçava as luvas, passou um olhar minucioso pela sala e deu instruções claras aos policiais para catalogar cada objeto.
— Tudo deve ser levado: os papéis, a revista, as canetas e até a xícara com café sobre a mesa. Um pente-fino deve ser passado aqui — disse, enquanto checava alguns pontos que considerava importantes.
Katharine, por sua vez, dirigiu-se ao corpo, abaixando-se para ter uma visão melhor em sua análise. Adriano parecia ter tido uma morte rápida e provavelmente bateu a cabeça em uma região sensível, o que causou o corte e espalhou o sangue rapidamente.
De repente, o olhar da perita parou na perna quebrada. Ela se aproximou um pouco mais, com a intenção de notar algo que pudesse lhe explicar o verdadeiro motivo da ruptura. A perna da cadeira era de madeira bem trabalhada, com um fino trato, e estava rompida exatamente no encaixe do assento. Ela retirou a peça com cuidado, colocando-a em uma embalagem plástica para ser analisada em laboratório. Percebeu que o restante da cadeira não havia quebrado, embora houvesse certas avarias distribuídas na estrutura.
Viu Fábio sair em direção à recepção, onde Thays, sentada no sofá, ainda não conseguia compreender como alguém tão querido e jovem teve a vida ceifada daquela maneira. Ela repetia baixo:
— Não era pra ele morrer.
Ela podia ouvir as vozes dos agentes ao longe, até que percebeu um homem alto à sua frente, que a trouxe à realidade tocando seu ombro:
— Você precisa de um calmante. Vou pedir que lhe tragam um comprimido — disse Fábio, sentando-se à sua frente, pois precisava de respostas enquanto digitava no celular. — Como foi o dia de hoje? Houve algum imprevisto?
— Não, o dia foi normal, sem nada de novo. Adriano saiu e, ao voltar do almoço, eu lhe entreguei a revista que ele havia pedido há um mês. Ele era colecionador, e esse exemplar foi difícil de encontrar — respondeu Thays, já enchendo os olhos d’água. — Sabe, era uma pessoa correta, divertida, sonhadora… Não deveria ter acontecido isso. Não era pra ele morrer.
Ela levou as mãos ao rosto e, chorando de forma descontrolada, não conseguiu falar mais. Fábio retirou um lenço de uma caixa sobre a prateleira ao lado e lhe entregou. O parceiro de Fábio apareceu na recepção com um copo d’água e um comprimido, após receber uma mensagem no celular.
— Aqui, beba isso, e logo se sentirá melhor — disse, já se afastando para dar espaço ao colega e cuidar dos últimos preparativos antes de seguir para a delegacia.
Mais tarde, no laboratório da perícia, Katharine catalogava cada item com precisão. Digitais coletadas e outras pistas foram enviadas para os exames periciais, restando apenas a cadeira e a perna esquerda, das quais cuidaria pessoalmente.
Viu quando os agentes Fábio e Carlos entraram, esperando obter uma pré-análise:
— Boa noite, perita.
— Boa noite — respondeu ela, sem tirar o olhar fixo na peça.
— Já tem algum parecer? — perguntou Carlos, antecipando-se a Fábio.
— Bem, aqui temos que ver por partes. Para mim, parece um acidente infeliz, uma verdadeira ironia do destino, mas precisamos ter certeza. Já enviei todo o material para análise e teremos os resultados em breve — disse ela, enquanto mostrava a tela de seu computador.
— Certo! Vamos aguardar os resultados. Nos informe qualquer novidade — Fábio encerrou o assunto.
Os agentes se retiraram, deixando-a concentrada nas pesquisas. Aquela noite foi longa, repleta de hipóteses que surgiam em sua mente:
O que causou a queda?
Como apenas uma perna quebrou?
O que ele estava fazendo?
A cadeira não era frágil. A peça exibia a conservação de um móvel novo, com cerca de dois meses de uso, o que deixava claro tratar-se de um objeto resistente.
Mais uma xícara de café para espantar o sono. A espera pelos exames se alongava, mas o tempo corria normalmente para todos, menos para Katharine, que se debruçava sobre o caso de forma dedicada. A peça foi submetida a vários testes.
Nas primeiras horas da manhã, o laudo da autópsia chegou e, sem esperar, ela o abriu.
“Morte acidental” — dizia em negrito — “impacto direto com móvel localizado ao lado da parede; ferimento condiz com exatidão ao impacto com a quina do móvel em questão, onde se originou o corte fatal à vítima.”
Ficou pensativa por alguns segundos; precisava de todos os resultados em mãos para fechar seu relatório.
Assim que o corpo foi liberado, a família de Adriano permaneceu desconsolada. A perda súbita abalou a todos, e o velório foi realizado na capela do cemitério. Sua noiva chorava de maneira descontrolada sobre o caixão, insistindo em permanecer ali, por mais que tentassem afastá-la para descansar.
A cena era observada pelos olhos faiscantes de Thays que, encostada na parede, remoía a ira de que Adriano nunca lhe deu a chance de demonstrar o amor ao qual ela dedicou boa parte de sua vida. O pedido de noivado foi demais para ela; aquela mulher que surgiu do nada e que, em poucos meses, exibiu uma aliança, havia destruído seus planos. Para Thays, ver a dor da noiva era, no mínimo, irritante. Em seu íntimo, um ódio crescia.
Todos passavam por ela em silêncio, como se sua presença fosse invisível, enquanto tinham um cuidado excessivo com a noiva. Viu a mãe de seu patrão se aproximando, dizendo:
— Minha filha, muito obrigada por ter vindo. Você faz parte dessa família, não nos deixe. Adriano gostava muito de você e, com certeza, queria você perto de nós.
— Meus pêsames! Não vou sumir, não — Thays abraçou a mãe de Adriano sem desviar o olhar da noiva.
Após o abraço, a mãe seguiu cumprimentando os demais presentes, pois já era hora de levar o caixão. O cortejo seguiu, e o fechamento da cova foi doloroso; a noiva precisou ser carregada e levada para atendimento médico após desmaiar. Thays permaneceu a uma distância considerável, analisando os presentes friamente.
Naquele fim de tarde, a chuva caía tímida, como se quisesse consolar a todos. No laboratório, porém, os exames haviam sido concluídos, e Katharine iniciou seu laudo final. Ao chegar no meio da digitação, seus dedos paralisaram. Algo a incomodava.
Levantou-se e, mais uma vez, pôs-se a analisar a peça de madeira que lhe deixara uma interrogação. Havia algo que não se encaixava. Caminhou de um lado para o outro da sala, segurando o fragmento, imaginando se teria esquecido algum teste. Dirigiu-se ao microscópio para verificar uma última vez o local do rompimento.
De repente, notou algo estranho: um sinal quase imperceptível de um instrumento cortante no encaixe da perna com o assento. Achou que estava vendo coisas. Voltou ao assento e, munida de uma lupa, percebeu outra marca que se encaixava perfeitamente com o movimento de um objeto cortante utilizado de propósito na perna esquerda e na estrutura da cadeira. Aquilo causaria, inevitavelmente, uma falha estrutural que desabaria ao menor movimento brusco de quem estivesse sentado.
Katharine não podia acreditar. Não se tratava de um acidente, mas de um crime premeditado. Mas quem faria aquilo e por quê?
Com uma nova perspectiva, começou a revisar os resultados e levou suas descobertas aos agentes.
Ela fez uma demonstração, apresentando que a perna foi serrada antes de Adriano se sentar, o que ampliou imediatamente a investigação.
Fábio fez um levantamento de quem possuía acesso ao escritório, onde foi descoberto que a cadeira estava intacta ao ser entregue à secretaria.
Após a descoberta da perita, em uma tarde, o sol se punha no horizonte enquanto Thays aguardava o ônibus na plataforma da rodoviária. Seu destino era o interior do país, sem saber ao certo o que faria dali em diante.
Ouviu uma voz suave lhe dizer ao pé do ouvido:
— Olá, Thays.
Ao se virar, ficou pasma ao reconhecer a loira alta de olhar brincalhão e sorriso maroto. Em seguida, viu os detetives se aproximarem, dando-lhe voz de prisão e algemando-a.
— Você está presa pelo assassinato de Adriano Santos.
Percebendo que havia sido descoberta, gritou descontrolada:
— Fui eu, fui eu mesma! Se ele não podia ser meu, não podia ser de ninguém mais! Eu serrei aquela cadeira, sabia que ia derrubá-lo, já que ele sempre empurrava para trás. Mas era para ele ficar debilitado, não morto! Ele tinha que entender que só eu era capaz de cuidar dele.
A confusão foi rapidamente contornada pelos seguranças do local. Katharine respirou fundo ao ver a porta da viatura se fechar com a moça de olhar faiscante sendo levada, sentindo-se orgulhosa de ter cumprido seu dever com maestria.
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