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Por que o livro de Benjamin Button é muito mais perturbador

Por que o livro de Benjamin Button é muito mais perturbador

Benjamin Button não só nasceu velho, ele nasceu com a constituição total de um velho. Ele tem as expressões de um velho, a linguagem de um velho, o gosto de velho e os comportamentos de um velho. E ele já sabe falar, velho. Ele sabe falar e é irônico com o pai dele. Quando ele chega lá nos berços, ele fala: "Você que é meu pai? Você que é meu pai." E é um velho barbudaço assim, com um barbão. O que é mais extraordinário: o cara nascer velho com a constituição total de um velho, falando e tudo mais, ou o pai dele virar e falar: "O que é que as pessoas vão pensar?" A primeira coisa que ele pensa.

Isso é parecido para caramba com *A Metamorfose*. No livro de Kafka, a reação é: "Não podemos tirar ele daqui, temos que escondê-lo do mundo." E aí, se é para proteger a família do mundo ou se é para proteger ele do mundo, ou ambos, isso já é outra história. Agora, no conto de Fitzgerald, não é ambíguo; é realmente sobre o que as pessoas vão dizer. Como eu vou me ferrar se isso acontecer? Eu estou pensando mais no sentido de que a família não fica impressionada, não fica maluca a ponto de dizer: "Que diabo é isso?" ou "Que droga aconteceu?". Eles ficam mais irritados do que impressionados. Sim, ficam mais irritados do que impressionados. É verdade. Eles até ficam um pouquinho impressionados, mas digerem isso rápido.

As primeiras impressões quem tem é o médico, um médico da família há 40 anos, que diz: "Não vou fazer mais nada com vocês, não atendo mais nenhum de vocês. Isso vai sujar minha carreira", que é justamente o que as pessoas vão dizer: foi você que trouxe esse monstro ao mundo. O médico também está pensando na reputação dele; são pessoas bem autocentradas. Fico imaginando esse cara nascendo, o médico puxando ele pela cabeça e o bebê já falando alguma coisa.

A mãe de Benjamin Button é mencionada e de fato é uma mãe real, ela existe, mas não aparece em nenhuma cena. Ela simplesmente some. Quer dizer, ela teve o bebê e é levada para o hospital. Mas nem se fala muito dela, só dizem que ela teve o filho, Mrs. Button, e a mãe do cara desaparece. Ela vive lá com ele no começo, mas só depois você vai ver isso, porque no começo só falam de um adulto com o pé para fora do berço falando com as enfermeiras, e não falam nada da mãe. Eu achei que ela tivesse morrido, porque eu já vi que a história era diferente do filme. No filme não é assim, ele nasce pequenininho. Eu pus até no chat GPT para ver o que acontecia com a mãe do Benjamin Button, e ele disse que ela morre no parto. Depois, mais para frente, vi que o ChatGPT estava mentindo, pois não tem como um homem de 1,65 m nascer e a mãe sobreviver. Essa mulher é muito guerreira. O mais triste disso tudo é que o Roger Button deve ter tentado fazer cócegas na mulher, mas nunca conseguiu dar um gostinho. Não tem como.

Voltando ao livro, tem uma coisa interessante que eu não estava esperando. Eu já conhecia mais ou menos a história, mas não nos detalhes. Há um momento em que o avô dele tenta repreendê-lo e diz: "Não vou mais ver nada disso aqui", mas, passa tipo três ou quatro parágrafos, e o avô e ele estão fumando juntos, conversando sobre a lentidão das coisas, jogando conversa fora de velho. Eu falei: "Caraca, que maneiro".

A gente vai percebendo que… eu dei um nome para isso, porque se vocês procurarem, não vão encontrar esse termo. Nos manuais de literatura, eles dão o termo de "realismo mágico". Só que o realismo mágico não tem nada a ver com Benjamin Button, talvez tenha com *A Metamorfose*, mas não, porque no realismo mágico você tem um mundo como o nosso, só que ele está carregado de magia, e essa magia está em harmonia com o mundo, ela faz parte desse mundo como um fenômeno atmosférico ou silvestre; as coisas são normais.

Eu sempre uso o exemplo de *Cem Anos de Solidão*, de Gabriel García Márquez, a grande obra do realismo mágico, onde logo no início do livro há crianças brincando num tapete voador e a mãe diz: "Cuidado para não cair". Ela não acha absurdo que os filhos estejam voando no ar; para ela é normal ter um tapete que voa e os filhos sobre ele. Ou as borboletas amarelas, que são presságios de que tempos bons estão vindo. Existe uma certa normalidade, uma naturalidade, mesmo com uma certa beleza. As pessoas não olham para aquilo e dizem que é outro mundo; para elas, aquilo é o mundo delas.

Isso não acontece nem em *A Metamorfose* e muito menos em *Benjamin Button*. O termo que achei apropriado para isso, embora vá um pouco na contramão dessa normalidade, é o de "naturalismo mágico". A diferença é que não é meramente um naturalismo com harmonia entre a magia e o mundo, a natureza. Não é isso. É naturalismo mágico porque Benjamin Button e todas as pessoas do conto — todas as que têm alguma substância maior, que não são meramente figurantes — são determinadas pelo seu meio, pela sua condição física, pelo seu gene, pelo seu sexo. Determinadas mesmo.

Inclusive o Benjamin Button. Ele gosta do avô dele por ser velho; velho com velho, deu certo. Ele se dá bem com o pai dele quando o pai está com 50 anos de fato e Benjamin está com a aparência de 50 anos — considerando que ele conta a idade de 70 para trás. Então, ele está com 20 anos de existência e 50 anos de condicionamento físico, e o pai dele está com 50 anos de resistência e condicionamento físico. Nessa época, os dois se dão muito bem e têm gostos parecidos, embora haja diferenças. O pai dele é um cara inteiramente voltado para o lado prosaico da vida, para o trabalho e para os empreendimentos. Benjamin Button, quando está na faixa dos 20 anos de condicionamento físico, assume os negócios do pai e faz a empresa triplicar a fortuna.

Diferentemente do pai — que já é casado e tem os hormônios à flor da pele, pois até os 50 o homem ainda tem algum gás —, quando Benjamin está lá pelos 40 ou 30 anos, ele já está mais interessado em atividades de pessoas dessa idade: vai bastante às pistas de dança com moças jovens, conversa com caras da idade dele, entra para os militares e faz muitas amizades. Depois, próximo do que seria a sua vintena de condicionamento físico — mas que para ele já são 50 anos —, ele vai para a faculdade em Harvard, joga no time de futebol e se dá bem com todo mundo.

Aí começa o problema: quando está com 15 anos de condicionamento, ele começa a se dar bem com meninos de 15 e 14 anos. Quando está com 10 anos, ele se dá bem com o neto dele, que também tem 10 anos. Com 5 anos, ele vai para o maternal, e depois fica sendo cuidado por uma babá até morrer. O afeto que ele tem pelas outras pessoas é determinado pela idade dele.

Ele e a mulher dele passam um pouco mais de 15 anos casados. Os primeiros 15 anos de casamento foram bons, indo do seu condicionamento de 50 até os 35 anos, enquanto ela foi dos 20 aos 35 anos. Quando chegou a esse ponto exato, ele já não gostava mais dela e passou a procurar outras pessoas.

Quanto à classe social, a mulher dele, o pai e o filho — que são as pessoas com quem ele mais interage — ocupam a mesma classe social e têm o mesmo olhar sobre ele, os mesmos problemas com ele. É como se fossem diversas cabeças de uma mesma hidra, diversos fantoches de um mesmo titereiro, uma mesma pessoa controlando. Isso entra muito no naturalismo, tanto na questão do determinismo genético quanto do social, algo bem abordado nos romances de Émile Zola.

E a questão da magia vem justamente dele nascer retroativamente. É uma magia engraçada porque esses três personagens principais — o pai (Roger Button), a esposa (Hildgard, algo assim) e o filho (Roscoe Button) —, embora saibam o que está acontecendo e saibam que é algo extraordinário, tentam disfarçar, e conseguem. Isso é bizarro. Eles tentam disfarçar quando ele é pequeno e quando ele está velho.

Os primeiros 15 anos da vida dele e os últimos 15 anos são ruins justamente por causa desse disfarce e da camuflagem. Nos primeiros 15 anos, você tem o pai dele tratando-o como se ele estivesse escolhendo agir daquela maneira: "Por que você tem que parar com isso? Isso não é uma coisa que se faz." Como se ele pudesse controlar como funciona a sua idade. No fim da vida, nos últimos 15 anos, o filho dele, Roscoe Button — que já está com 30 anos, enquanto Benjamin tem 15 de idade —, diz: "Para com essa brincadeira, isso já deu." Durante os anos intermediários, a mulher dele dizia: "Você é muito cabeça dura, você não muda, podia parar com isso quando quisesse."

Eles o tratam como se ele tivesse controle total da sua evolução ou regressão fisiológica. Esses três personagens parecem entrar na própria mentira. Eles fingem tanto que não há nada de estranho ou escandaloso acontecendo, que isso vira uma espécie de segunda natureza.