O Anel dos Nibelungos (Ato 1 – 3/4)

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III – O elmo de Tarn

O país dos Nibelungos é diferente de todos os outros: a começar, pelo fato de estar situado debaixo da terra. É um país evidentemente sombrio, onde a luz do sol jamais penetra. Suas casas, ruas e estradas são iluminadas apenas por tochas, muitas tochas, que se espalham por todos os lugares onde seus habitantes penetram, espalhando pelo chão e pelas paredes as suas minúsculas e desencontradas sombras. “Penetrar” não é um termo nem um pouco inadequado para usar, quando se leva em conta que, em muitos trechos daquele país, o espaço de que os anões dispõem para se movimentar são apenas fendas – uma miríade de lendas, um pouco mais estreitas do que as nossas, já que quem tem de atravessá-las são seres diminutos. Mas dizer, por isso, que eles vivem espremidos como uma legião de esquilos em uma pequena toca, seria incorrer em grave exagero e dar provas de que se desconhece, completamente, o caráter destas estranhas criaturas. Na verdade, nenhum outro povo sobre (ou sob) a face da terra tem mais o gosto da amplidão e dos grandes espaços quanto a raça inquieta dos nibelungos.

E, já que falamos de amplidão, o céu do seu país não pode ser outro, senão o teto rochoso das paredes azul-ferretes, que sobem a alturas incomensuráveis, uma vez que eles, anões, descem também a profundidades incríveis, expandindo, assim, seus territórios para baixo, como eficientíssimas marmotas. Sim, porque apesar de serem um povo minúsculo, eles não são nada preguiçosos, passando a maior parte do tempo a escavar túneis e a erigir verdadeiros palácios e galerias por dentro das rochas, nos quais o vento assobia de maneira intermitente.

Mas, que não se imagine que pelo fato de não poderem desfrutar do mesmo céu azulado que recobre as cabeças dos “descobertos” – denominação que explicam aos habitantes da superfície (Asgard, a morada dos deuses; ou Midgard, “Terra-Média”, lar dos mortais) -, estão os nibelungos privados de gozar das delícias de uma boa chuva, por exemplo. Sim, chove também no país dos Nibelungos – e abundantemente. Das fendas que se abrem nos imensos maciços acima de suas cabeças, não raro, brotam inesperados veios de água cristalina que minam por grandes extensões, transformando-se em verdadeiras tempestades que, às vezes, duram por séculos – e até milênios, sem dúvida! -, fazendo com que certas regiões mais úmidas sejam chamadas, por isso de Províncias Chuvosas. Ali, o comércio dos guarda-chuvas por certo prospera e um eficiente mecanismo de escoamento está projetado, desde tempos imemoriais, para dar vazão a toda aquela água que, às vezes, decai para apenas uma fina garoa, quando a seca se instala nas terras que o sol banha, generosamente, acima de suas pequenas cabeças. Ao contrário, quando a enchente se instala lá em cima, eles se vêem também em apuros muito semelhantes, com grandes inundações que, não raro, provocam desastres e muitas mortes.

Descrever, entretanto, toda a geografia do país dos Nibelungos seria tarefa tão inglória quanto pretender conhecer todas as galerias e desvãos tortuosos do maior de todos os formigueiros existentes. Basta, então, que voltemos nossos olhos para um dos milhões de habitantes deste país, mais precisamente, aquele que detém um pequeno e precioso objeto – sem dúvida, muito precioso…!

Desde algum tempo, o nome Alberich (antes o mais obscuro dentre os nibelungos) tornou-se sinônimo de medo e opressão. Rumores, que circulam entre a massa de anões-escravos, dão conta que ele detém a propriedade de algo que lhe confere um imenso poder. Um poder de vida e de morte.

Mas mesmo estas conversas, cochichadas na penumbra entre os anões de picareta em punho (obrigados a extrair das paredes todo ouro possível) são extremamente perigosas e, por isto mesmo, muito raras. E a razão disto está no fato de que, entre tantos poderes que o tirano Alberich possuiria – todos, por certo, maléficos -, estaria também incluído o de se fazer invisível como o ar.

“O Elmo de Tarn!” Eis um sussurro que se ouve sempre, à meia voz, por entre o ruído intermitente das picaretas. “Cuidado com o elmo da invisibilidade!”

Sob este signo maléfico, prossegue, pois, a vida no país dos Nibelungos -terra que, há muito tempo, deixou de ser morada de anões livres e operosos para se tornar lugar de tormento e da mais negra escravidão.

Wotan e Loki já estão descendo desde o início do dia, por penhascos e falésias, para tentar chegar ao país dos anões.

– Falta muito, ainda, guia infernal? – pergunta Wotan. – Seu fôlego já está no limite, pois descer penhascos, seguramente, não é tarefa mais fácil do que subi-los. Mesmo para um deus.

– Já estamos quase no palácio de Alberich. É só mais um pouco.

Loki, reunindo todas as informações, conseguira abrir caminho até a fortaleza do soberano. Mas mesmo ele, o mais bem informado dos deuses, ainda parece meio perdido.

– As coisas mudaram muito por aqui nos últimos tempos – diz Loki, observando as construções inacabadas e as escoras de madeira, que estão por toda parte. – Nunca vi os anões se entregarem com tanto empenho à mineração como agora. Dizem que é Alberich, tornado todo-poderoso por estas bandas, quem colocou o povo inteiro para extrair todo o ouro possível para ele. Isto aqui está virando um imenso queijo repleto de furos.

– Mas como este anão tornou-se todo-poderoso de um dia para o outro?

– Ninguém sabe; circulam apenas rumores. O mais forte deles diz, no entanto, que ele se apropriou de um objeto maligno que lhe dá um imenso poder. Ou então, que forjou algo de muito sinistro dentro de alguma destas milhares de minas que lhe deu a supremacia sobre todos os demais da sua espécie.

Wotan e Loki aproximam-se da fortaleza de Alberich. Ao centro, percebe-se um magnífico palácio, escavado inteiro na própria rocha e revestido com lâminas de ouro puríssimo. Os olhos dos dois intrusos faíscam e Wotan não pode conter um assobio de espanto e admiração.

– Para um pobre nibelungo das profundezas, não está nada mal!

Os dois cruzam por uma multidão de anões que passam apressados com seus instrumentos à mão. A entrada do palácio, segurando grandes lanças, estão postados quatro dos maiores anões do país – tão altos, na verdade, que chegam quase à cintura de Wotan! Eles são o último obstáculo antes da magnífica porta de ouro maciço que dá acesso ao impressionante castelo.

Antes de entrar, no entanto, Wotan e Loki se detêm um pouco para admirar os entalhes que enfeitam as duas gigantescas portas. Uma espécie de engaste (talvez, leito de lápis-lazúli ou uma variação desconhecida de ouro negro) faz as vezes de tinta, desenhando sobre o faiscante ouro algumas cenas verdadeiramente magníficas: anões de imensos capacetes, com suas cotas ricamente trabalhadas e de espada em punho (ou ainda, portando resplandecentes machados de dois gumes) aparecem metidos em heróicas batalhas, em desenhos soberbos que fazem todo o contorno das duas portas.

Misturadas a estas cenas (que fazem referencia aos mais variados episódios da história bélica dos Nibelungos), estão ainda muitas outras com motivos diversos, estando a tônica, agora, no trabalho da extração do ouro. Centenas de anões aparecem, assim, pendurados em imensos paredões com suas picaretas e baldes, extraindo da rocha bruta o valioso metal com tanto realismo, que parecem estar todos vivos a extrair da própria porta o ouro de que tanto necessitam.

– Queremos falar com Alberich! – diz, finalmente, o deus supremo, desviando o olhar daquelas cenas e pondo toda a sua autoridade na voz.

Os soldados postam-se de lado, erguendo as pontas douradas de suas lanças, reconhecendo com isto a majestade daquele que chega.

– Sua Elevada Alteza, Alberich I e Único irá recebê-los em seguida! – diz um dos soldados, com uma entonação ao mesmo tempo de medo e orgulho.

– “Alberich I e Único!” – diz Loki baixinho, tentando conter o riso.

Wotan dá-lhe um cutucão. Ambos adentram pelas imensas portas do castelo.

***

Quando Wotan e Loki chegaram ao grande salão de Alberich – após terem atravessado um labirinto de corredores iluminados por archotes suficientes para clarear uma cidade inteira -, encontraram-no vazio. Ou quase. A um canto da imensa peça, havia um anão agachado. Da parede de pedra, ligada a um gancho, escorria uma grossa cadeia de ferro que se estendia até envolver o seu tornozelo. Havia um prisioneiro, portanto, dentro da peça principal do imenso palácio. Quantos outros não haveria em locais muito mais obscuros e tétricos, espalhados por todo o castelo?

– Quem é você? – disse Wotan, tão logo pôs o olho sobre o desgraçado.

– Me chamo Mime – disse a pobre criatura, com um fio de voz. Seu aspecto era lamentável: as faces encovadas e as roupas em trapos davam bem a medida dos maus tratos a que, desde longo tempo, estava submetido.

– O que faz um prisioneiro aqui dentro do salão de Alberich?

– Sou o irmão dele… – disse o anão, acabrunhado.

– Você… irmão de Alberich I e Único?! – exclamou Loki, divertido.

– Sim… ele me reduziu a isto! – disse o anão, erguendo os pulsos algemados e cobertos de chagas. – Reduziu todos nós a isto!

Mime contou aos deuses todos os passos da meteórica ascensão de Alberich.

Desde a visita às ninfas do Reno que o outrora pacífico anão retornara outro, com um brilho maléfico no olhar. Antes apaixonado, a partir daquele dia proibira qualquer menção a elas. Alberich tornara-se o mais frio e desumano dos seres, dono de um invencível e pérfido magnetismo.

– Não, Alberich não é mais o mesmo! – disse Mime, desolado. – Agora ele está a serviço de algo terrível, imensamente terrível!…

– Diga-me, pobre infeliz – disse Loki, afetando uma piedade que não sentia em absoluto. – Que história é esta de que Alberich detém o poder sobre algo imensamente forte?

Mime tergiversou, dizendo que nada sabia a este respeito. Mas Loki percebeu que aquele era um segredo muito importante que só debaixo de torturas inenarráveis o anão iria revelar, pois isso implicaria sua morte imediata.

– E a história do Elmo de Tarn? – perguntou ainda Loki, sem muita esperança de obter resposta melhor. – Desta vez, no entanto, o anão foi mais explícito.

– Bem… trata-se de um elmo mágico… – disse Mime, olhando para Wotan como se esperasse encontrar alguma defesa.

– Vamos, fale de uma vez! – disse Wotan, encorajando-o. – Alberich nenhum ousará enfrentar-me diretamente, mesmo em seus domínios.

– Ele ordenou que eu confeccionasse um elmo para ele, o mais belo de todos que já existiram, inteiramente forjado a ouro!…

– Ora, nanico, já deu para ver que ouro é o que há de mais trivial por aqui! – disse Loki, impacientando-se. – Adiante, conte o resto de uma vez!

– Este elmo, ele o dotou de uma propriedade mágica – disse Mime, franzindo as costuras dos olhos, parecendo mesmo que queria enxergar algo por dentro do ar. –

Graças a algo que ele possui, conseguiu imantar o Elmo de Tarn com o dom da invisibilidade!

– Então é verdade…! – disse Loki, alisando os cabelos escarlates.

Neste momento, ouviu-se um grande ruído do lado de fora. Uma massa escura de anões avançava, tropeçando e chacoalhando suas correntes – pois eles também estavam encadeados, só que ligados uns aos outros. Era um exército miserável de escravos.

Alberich, senhor supremo dos Nibelungos, conduzia-os, auxiliado por algumas dezenas de feitores que faziam estalar seus chicotes com toda a força nas costas despidas dos anões, lira uma nova turma de sapadores que caminhava para uma das milhares de minas que Alberich fizera abrir por todo o reino.

Desvencilhando-se logo da turba miserável, Alberich I e Único – ou “Alberico, o Rico”, como também apreciava ser chamado – ultrapassou o fosso e adentrou pelas portas de ouro maciço que davam acesso ao seu esplêndido palácio talhado na pedra bruta.

– Ora, quanta honra! – disse o anão, tão logo enxergou diante de si a figura de Wotan, deus supremo. “Será possível que o próprio senhor do universo vem até mim para me prestar vassalagem?”, pensou Alberich, num delírio de poder. Na verdade, mais um de seus delírios, pois desde que confeccionara o seu Anel de Poder, Alberich era acometido diuturnamente por estes espasmos de orgulho. Antes de qualquer coisa, porém, tratou de fazer com que retirassem Mime da peça.

– Leve-o com os demais para as minas! – disse ele a um lacaio. – Basta de descansos por aqui!…

Depois que o irmão havia sido retirado, restituiu a atenção aos visitantes.

– Mas a que devo a honra de sua visita? – disse o anão, dando uma olhadela ligeira para Loki, o filho da pérfida raça dos Gigantes.

– Alberich, não temos muito tempo para cerimoniais – foi logo dizendo Wotan. Ele sabia que, se quisesse pegar o tesouro do anão, teria que ser rápido e não dar tempo a ele para raciocinar. – Pelo que estou vendo, chegaste a um estado verdadeiramente invejável!

Invejável!… Wotan, senhor de Asgard e do Valhalla, demonstrava-lhe inveja!… Oh, isto era perfeitamente a glória!, pensava o anão, regozijando-se todo por dentro.

– Sim, é verdade: sim ou não, é fruto de muito trabalho… e de muito talento… e de muita capacidade… – foi dizendo o nibelungo e estaria até agora acumulando os adjetivos laudatórios, se Wotan não lhe tivesse atalhado o curso da frase.

– Que magnífico elmo é este que aí está em suas mãos?

O único olho de Wotan luzia de admiração. Ninguém, na verdade, seria capaz de dizer o quanto havia de sincero naquela sua admiração e o quanto de cálculo; o fato é que Alberich, tomado de surpresa, ergueu-o instintivamente.

– Oh, o elmo…! – disse ele, sem saber exatamente o que falar.

– Sem dúvida, trata-se do elmo mais lindo que já vi em minha vida! – exclamou Wotan.

– Ora, também não vamos exagerar…! – disse Loki, entrando na conversa. – Chegara a hora do embuste e sentia que a tática do deus não era a mais adequada para aquele momento. Não, ele não iria permitir que, mesmo Wotan, com Ioda a sua propalada sabedoria, pusesse tudo a perder.

Alberich abraçou-se ao elmo, irritado com o comentário depreciativo de Loki, como se abraçasse um filho vilipendiado por um mendigo – tal como Loki, na verdade, esperava que ele fizesse. Wotan, entretanto, fez uma careta de ira para o companheiro, que tratou logo de tranqüilizar com um de seus olhares significativos.

– Vamos, Wotan, não seja bobo!… Você tem pelo menos uma dúzia de elmos tão ou mais bonitos do que este! – disse o esperto filho dos gigantes.

– Bem, talvez seja verdade… – anuiu o deus, entendendo a jogada de Loki.

– Diga-me, Alberich I e Único – disse Loki, enfatizando o título e retornando à carga: –

Por que razão corre por todo o país dos Nibelungos o boato falsíssimo de que você possui um elmo mágico, se nem extraordinariamente belo ele é?

Alberico, o Rico, sentiu uma nuvem de cólera cobrir-lhe as vistas.

– Maldito, atrevido! – exclamou o anão, sapateando o mármore do chão. – Como ousa desfazer do meu maravilhoso elmo dentro de meu próprio palácio?

– O que é, é; o que não é, não é – disse, simplesmente, o embusteiro. – Se quiser, posso lhe trazer aqui qualquer um dos meus próprios elmos, que nada ficará a dever a este seu. Entretanto, se este aí tivesse mesmo uma propriedade mágica, como se afirma por aí, então estaria disposto a mudar de opinião…

– E o que diria, rato de silo enferrujado, se eu lhe dissesse que, com ele, posso simplesmente desaparecer?

Loki fingiu um espanto desmedido.

– E, além disso, ainda surgir, de repente, num outro lugar a milhares de quilômetros daqui? Hein, o que diz, senhor dos elmos de araque?

Loki afagou o queixo como quem reflete.

– Só isto…? – disse Loki, querendo arrancar mais alguma coisa.

– Não chega, falastrão? Então, veja isto também!

Alberich entornou o elmo sobre a cabeça e gritou com todas as suas forças:

“Serpente gigante, sinuosa e enrodilhada!” No mesmo instante, uma nuvem encobriu-o da cabeça aos pés. Dali a pouco, dos rolos de fumaça desfeitos, surgiu uma imensa e terrível serpente de presas ameaçadoras e gotejantes de veneno.

Até mesmo Wotan assustou-se desta vez. Loki deu dois passos para trás, porém, fingidamente receoso. De repente, contudo, a serpente desapareceu em novo rolo de fumaça para reaparecer em seu lugar o anão, segurando o elmo. A sua empáfia, entretanto, era tamanha, que parecia haver crescido alguns centímetros depois da espantosa metamorfose.

– Isto foi suficientemente espantoso para você? – disse Alberich, balançando-se na ponta dos pequeninos pés.

– Bem, eu não diria o suficiente – disse Loki, como quem reluta em aceitar uma evidência incontestável. – Crescer até algo imensamente poderoso é um belo feito, não resta dúvida; mas e decrescer até um ser frágil e indefeso? Algum mágico de araque já foi capaz de fazer tal coisa? Não, nem você com seus truquezinhos baratos realmente poderia alcançar isso!

Alberich, desafiado outra vez, empunha o elmo e o coloca com toda a força sobre a cabeça, exclamando: “Sapo nojento, cinza e deformado!” No mesmo instante, está reduzido à frágil criatura. Num jato, Loki arremessa-se e toma o elmo da cabeça do indefeso sapo. O feitiço, imediatamente, quebra-se e Alberich volta à sua forma normal.

– Meu elmo, oh! meu elmo! – brada o anão, avançando para Loki. -Devolva-me já, maldito embusteiro!

Mas Wotan o derruba com uma rasteira e aprisiona seus bracinhos entre os seus, infinitamente mais fortes.

– Chega de bazófias, sapo-rei! – diz Wotan, com um riso escarninho. -Agora, você vem conosco: temos um negociozinho muito importante para resolver!

IV – A maldição do anel


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