À ILUSTRE IDA COCHRAN HAUGHTON, VISCONDESSA WOODBY ——
MINHA SENHORA:——
Eu não passaria de um Falsário, e indigno da Arte poética, se não vos acknowledgasse por esta Dedicatória o Débito que para convosco conservo. Pois é manifesto que poderei arrogar-me tão-somente um Crédito parcial por um Retrato que, sem tão ilustre Modelo, jamais teria sido traçado com qualquer Sorte de Fidelidade. Na verdade, o Satírico que deseja demonstrar certos Traços de Espírito estaria em maus lençóis, se não tivesse diante de si alguma Sorte de Exemplo vivo; e vejo-me com Cando foro compelido a conceder que, das Qualidades que aqui busco retratar, nenhum Ser humano poderia exibir tão grande e florescente Abundância quanto Vossa Mercê. Sempre contarei isto como uma Peça da maior boa Fortuna, caso a minha Satura prossiga, que o vosso Ódio por mim vos tenha movido a slanderar-me e vilipendiar-me pelas costas; pois, à míngua de tal Provocação, eu não teria tido nem a Temeridade de expor as vossas Falhas, nem possuído tão completo Fundo de Mentiras e Calúnias de onde extrair um Retrato de tal Veneno qual jamais pensei antes existir sobre a Terra.
Consciente, portanto, do meu Débito, comendo este esforço despretensioso à vossa bem conhecida Graciosidade, e rogo licença para subscrever-me.
MINHA SENHORA,
De Vossa Senhoria o mais obediente,
mais devotado, humilde servo.
THEOBALDUS SENECTISSIMUS, ARMIGER.
Encharcada em seu veneno nocivo, estufada de fel,
Como um sapo gordo, vede a embotada MEDUSA a estatelar-se;
Imunda por seu baço, repugnante à vista,
Ela chora tacanha em meio à noite eterna.
Do engenho e do senso pelo cérebro indolente banida,
E com as correntes da idade e do amargor marcada,
Sua vida semiviva um único desejo odioso revela:
Dar aos outros toda a dor que ela sente!
Não instruída na juventude, não castigada pelos anos,
Grotesca de ignorância, absurda de temores;
Evitada por seu rosto feio e mente irrequieta,
Ela rasteja sozinha, em guerra com toda a humanidade.
Em seu coração negro não habita amor ou bondade,
Senão ódio que choca e malícia que repele;
Seus pensamentos estreitos mostram uma igual vilania,
Pois ali só crescem a inveja e a suspeição.
Cega para a verdade, atiçada pela paixão ciumenta,
Ela calunia tudo o que não pode compreender,
E com língua solta o pecador e o santo
Igualmente conspurca em uma mácula inclusiva.
Lenta para ver a bondade, rápida para cheirar uma falta,
Ela varre a terra em busca de vítimas para assaltar;
Com que palavras forçadas ela verte o seu louvor tardio!
Com que força alegre o seu ódio instantâneo flameja!
Lenta de espírito, sua massa repulsiva atesta
Uma única centelha — uma fúria que jamais descansa!
Mas não contente em ser uma tola aberta,
Ou uma cínica cândida, ela busca trapacear por regra;
Sua falta de senso em rifões citados ela oculta,
E com chavnéns trilados um duplo riso provoca,
Enquanto toda a sua crueldade deve parecer candura,
Embora duplamente maligna pelo estratagema.
Assim espreita a MEDUSA, azorrague de todos ao redor,
Com ódio, baço, vaidade e estupidez atada.
Ansioso o desgraçado que corteja o seu sorriso tardio,
E infeliz aquele que conhece seus trejeitos e astúcia;
Pois já que sua inveja esfoliá todas as mentes maiores,
Em cada vivente ela encontra um inimigo —
Salvo por um pequeno bando de casta semelhante,
Na torpeza potentes, mas na sabedoria exíguos.
Vazia de todo humor, senão a careta solerte,
Ela enxerga um desafio em cada rosto sorridente,
E espalha com dupla zeal sua rede maligna,
Para que como inocência ofendida possa reluzir.
De tal peste que resgate poderemos obter?
Que feitiço poderá esmagar sua estirpe hipócrita?
Sua forma humana (porventura foi humana um dia)
Proíbe-nos de sufocar a abjeta estúpida;
Além do mais, hesitamos em sufocar semelhante
Criatura reptílica, repelente ao tato.
Uma bala de mosquete pouco mal faria
Onde não há cérebro ou coração por onde trovejar,
De modo que o monstro ainda arfá, estufa e rola,
A desdentada despedaçadora de mil almas!
Assim ela deve fumegar, insaciável, azeda e selvagem;
Surda, estúpida, remelenta; por toda língua vilipendiada:
Assim devemos esperar, até que o Céu revogue a maldição,
E a cobra inchada sufoque no próprio veneno!