Neste trecho de sua análise sobre a Ilíada de Homero, Lucas Rosalem examina como o texto épico utiliza símbolos, a legitimidade divina dos reis e a natureza humana dos deuses para construir sua narrativa de forma fluida.
Em um dos vídeos, quando Agamenon faz um discurso e exibe seu cetro feito por Zeus, isso denota que o cargo que ele ocupa possui um caráter divino e lhe foi entregue pelos deuses. Assim, ele está em uma posição intermediária entre os mortais e as divindades, exercendo sua realeza por causa disso. Podemos implicar esse tipo de coisa, e essa noção era muito viva na Grécia antiga, assim como em todas as outras civilizações daquela época, onde o rei era visto como uma figura semi-divina. Os aspectos do texto de Homero gritam isso para nós de um jeito muito fluido, sem ser forçado. Não é preciso explicar extensivamente por que o cetro o torna o comandante de tudo ali, apesar de existirem outros textos que tentam compor a história de fundo e explicar a coalizão.
Curiosamente, Menelau era o Rei de Esparta, e bem pertinho ficavam Micenas e Argos, nomes que são citados na obra. Em conversa com o Panda, perguntei em algum momento por que aqueles líderes todos estavam tão unidos com Agamenon e como ele havia feito aquelas coalizões, pois eu estava me esquecendo completamente da história do juramento de Helena, que o Panda me lembrou. Depois disso, minha saga foi tentar descobrir onde é que isso estava no texto, mas não está. Homero vai dando algumas dicas sem colocar essas explicações diretamente na história, e eu acho que foi muito a partir dessas pistas que autores posteriores acabaram exagerando ou usando aquilo como ponto de partida para escrever outros livros.
Por exemplo, a relação de Paris com Afrodite já parece suficiente para nos fazer imaginar o que teria acontecido antes. Se você conhece Afrodite como a deusa do amor, da sedução e de coisas afins, e tem Paris como um homem bonitão associado a ela — embora não seja filho da deusa, há uma parceria de algum tipo —, e descobre que ele se casou com Helena, a mulher mais bonita de todas, você se pergunta como ele conseguiu isso. Depois que alguém explica a história anterior do pomo da discórdia, tudo faz sentido, e você percebe que talvez não inventasse uma história tão complexa, mas conseguiria bolar algo parecido.
Até porque a relação que os deuses têm com os humanos na própria *Ilíada* é mais ou menos desse tipo. Os deuses são quase todos representados daquela forma; Afrodite destoa um pouco, mas Áres, o deus da guerra, não faz grande coisa ali, enquanto Apolo é o deus das flechas que envia epidemias. O único que realmente destoa de todos os outros é Zeus, que faz quase tudo o que quiser e diante de quem os outros têm medo. Em geral, no entanto, as divindades são como humanos, com os mesmos problemas: têm brigas internas, sentem medo e sofrem, inclusive fisicamente.
A relação que eles mantêm com os humanos não se restringe à qualificação dada a cada um — como Apolo sendo o deus de tal coisa e Áres o deus de outra. Não é assim que eles interagem. A interação revela mais sobre os personagens humanos que buscam os deuses do que sobre as próprias divindades. O deus tem um nome, mas aquilo fala mais sobre o personagem que o invoca.
Quando você observa a relação de Paris com Afrodite, consegue supor muitas coisas. Como eu disse, talvez você não acertasse a história exata que inventaram depois, mas teria bons palpites, em parte porque Homero consegue, através do simbolismo, construir essas nuances para nós. Às vezes você nem percebe que mergulhou no texto dele, mesmo sendo uma obra tão antiga, porque as dinâmicas humanas retratadas são muito parecidas com as de hoje. Eu cheguei a rascunhar algumas ideias para escrever sobre isso, mas acho que demoraria demais durante a live, então vou produzir um vídeo separado sobre o assunto depois.