Na obra clássica de Homero, os elementos mitológicos e políticos funcionam como camadas profundas de significado que moldam a narrativa. A construção dos personagens e a relação entre mortais e divindades revelam verdades psicológicas e sociais que ultrapassam a simples aventura épica.
É interessante notar o que acontece quando Agamenon faz um discurso para o pessoal e demonstra que possui um cetro feito por Zeus. Isso denota que o cargo que ele ocupa tem um caráter divino; o cetro foi entregue a ele pelos deuses, colocando-o em uma posição mais próxima das divindades do que os demais mortais. Ele exerce seu cargo de rei por causa disso. Essa noção era muito viva na Grécia antiga e em todas as outras civilizações daquela época, onde o rei era visto como uma figura semi-divina. Os aspectos do texto de Homero gritam isso para nós de um jeito muito fluido, sem parecer forçado. Não é preciso explicar que ele recebeu o cetro e que é por isso que está comandando tudo, embora mais tarde tenham surgido outros textos para compor a história de fundo e explicar a coalizão.
Por exemplo, Menelau era o rei de Esparta, e bem pertinho ficavam Micenas e Argos, nomes citados na obra. Fiquei pensando e perguntei ao Panda para ele explicar por que aqueles líderes todos estavam unidos com Agamenon e como ele havia feito aquelas coalizões, pois eu estava esquecendo a história do juramento de Helena. Foi o Panda quem me lembrou, e depois minha busca foi tentar descobrir onde isso estava no texto, já que não é explicitado ali. Homero não explica essas coisas na narrativa principal; ele vai apenas dando dicas. Acredito que foi justamente a partir dessas pistas que escritores posteriores acabaram expandindo e exagerando, usando-as como ponto de partida para escrever novos livros.
A própria relação de Paris com Afrodite, por exemplo, já é suficiente para nos fazer imaginar o que teria acontecido antes. Se alguém te apresenta Afrodite como a deusa do amor, da sedução e dessas esferas, e te apresenta Paris como um homem bonitão associado a ela — embora não seja filho da deusa, há uma parceria de algum tipo entre eles —, você entende como ele acabou se casando com Helena, a mulher mais bonita de todas. Depois que alguém te explica a história anterior do pomo da discórdia, tudo faz sentido, e você percebe que talvez não inventasse uma história tão complexa, mas conseguiria bolar algo semelhante.
Isso acontece porque a relação que os deuses têm com os humanos na própria *Ilíada* é construída nessa mesma linha. Vemos que os deuses são quase uma projeção das forças humanas. Afrodite destoa um pouco deles, mas Áres, o deus da guerra, não faz grandes feitos; Apolo, o deus das flechas, envia as epidemias. O único que realmente faz quase tudo o que quer é Zeus, diante de quem os outros têm medo. Em geral, contudo, os deuses agem como humanos, com os mesmos problemas: têm brigas internas, sentem medo e sofrem, inclusive fisicamente.
A relação que eles mantêm com os humanos não se resume aos títulos dados a cada um — como Apolo deus disso ou Áres deus daquilo. A interação revela muito mais sobre os personagens que buscam os deuses do que sobre os próprios deuses. Se você ler a *Ilíada* por essa ótica, percebe que a dinâmica fala mais sobre o mortal que busca a divindade do que sobre a divindade em si. O deus tem um nome, mas a cena revela a psicologia do personagem.
Quando você observa a relação de Paris com Afrodite, consegue supor muitas coisas. Como eu disse, talvez você não acertasse a história exata que inventaram depois, mas teria bons palpites, em parte porque Homero consegue construir esses elementos com maestria através do simbolismo. Às vezes você nem percebe que mergulhou em um texto tão antigo, porque as coisas narradas continuam muito parecidas com as de hoje. Eu até rascunhei algumas ideias para escrever sobre isso, mas levaria tempo demais para desenvolver durante a live, então vou preparar um vídeo separado para aprofundar o assunto.