Nesta análise da Ilíada sob a ótica da teoria mimética de René Girard, examinam-se as dinâmicas da violência, a escalada dos conflitos e o famoso episódio da trégua entre Ájax e Heitor.
Pode falar do Canto VII do livro, quando, no finalzinho, você diz que não entendeu a trégua que houve entre Ájax e Heitor. Quem é que luta com Heitor? Ah, é o Ájax, o grandão. E aí chega lá e parece que vai acontecer algo, que os dois vão se matar, mas não: eles se abraçam, se beijam, trocam carícias e presentes, e fica por isso mesmo. Vai cada um para o seu exército. Mas olha só: existe uma análise mimética disso aí. Inclusive, acho que nesse mesmo canto, ou no seguinte — não sei, acho que é nesse mesmo —, você chegou a comentar que há uma proposta de trégua, mas os gregos não aceitam. Eles nem querem saber mais de Helena, só querem destruir Troia inteira. Agora é tudo ou nada, eles dão all-in na guerra.
Olha só o que acontece. Eu acho que realmente Homero é genial, e aí posso estar fazendo uma análise anacrônica, mas acho que ele teve um vislumbre de verdade. Já estão numa guerra há nove anos, já houve matança dos dois lados, e provavelmente esse tipo de duelo já aconteceu: "Ah, chama o seu principal ali, eu chamo o meu aqui e vamos resolver isso daí", e não deu em nada. Inclusive, cantos antes, acontece a mesma coisa, e na hora em que Paris está para morrer lá, a deusa aparece do nada e o tira. Ou seja, muito provavelmente esse tipo de coisa já era recorrente. Eles sabem que aquilo ali não vai dar em nada, porque você mata um cara, aí eles falam: "Não, a gente não vai entregar ninguém, vamos nos vingar", vão lá e matam outro cara, e os outros respondem: "Agora é a nossa vez de nos vingarmos".
Esse é o tipo de dinâmica que acontece em todo tipo de guerra, em todo tipo de conflito. Na verdade, você quer uma coisa que a outra pessoa tem e que você não pode ter, aí você começa a brigar com ela. Chega um ponto, porém, em que a violência é tamanha que o motivo principal que causou aquela violência já não importa mais; o que importa é a aniquilação do seu rival. É a esse ponto que eles chegam, e esse ponto é escancarado na hora em que os guerreiros entendem que não adianta mais lutar. Eles fazem uma trégua entre si ali porque compreendem que ambos são favorecidos por Zeus; sabem que, se um matar o outro, Zeus vai ficar magoado e lançará uma maldição sobre o outro campo. O mais provável é que os dois acabem mortos ali juntos, o que resultaria em um empate que não resolveria a guerra.
Só que eles também são apenas guerreiros, não são os principais envolvidos naquilo ali, e não podem fazer nada. O que podem fazer é simplesmente desistir, e essa é a única forma de resolver um conflito: desistindo, deixando para lá o nosso ego, a nossa virilidade, por assim dizer. É isso que acontece. Na hora em que eles entendem isso, vem a trégua, mas o objeto já não importa mais; agora é só violência pura, destruição total e desenfreada dos troianos.
Isso é genial. Não tem nada de *hybris* ali, não senhor. Isso é puro conflito mimético, pura realidade, o puro sumo da realidade. René Girard assume isso: a violência começa num estado onde eu desejo algo que eu não posso ter e que a outra pessoa tem; para ter essa coisa, eu tenho que eliminar a outra pessoa, cometer um ato de violência. A violência começa a ir por esse caminho, mas chega um momento em que aquele objeto inicial some e sobra apenas destruição, raiva e tal.
E qual é a solução? Aquela que nos deu a resposta, Lucas: o grande JC, o Rei dos Reis, que é dar a outra face, entendeu? Você não vai rebater, você vai dar a outra face. Ainda bem que não aconteceu isso nessa história, nessa parte aí. Como assim, dar a outra face? Os caras eram tudo pagão, não tinha como! Imagina se Heitor dá a outra face para o Ájax? Ah, já era, ele arranca a cabeça dele! Se Heitor faz isso, Zeus lança mil raios e trovões em cima dos gregos.