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ILÍADA: A moral, a honra e a glória ••• Lucas Rosalem

ILÍADA: A moral, a honra e a glória ••• Lucas Rosalem

A obra *Ilíada* carrega em sua essência uma tese central, que podemos definir como a mensagem principal ou a grande impressão que o autor deseja transmitir. Diferente de uma literatura engajada, a mensagem que se sobressai na *Ilíada* é a preocupação gritante com a glória do herói, um elemento muito forte que não se repete da mesma forma na *Odisseia*.

Enquanto no Ocidente, influenciados pelo judaicocristianismo, temos uma forte noção de moral, e no Oriente povos como os japoneses possuem uma cultura profundamente baseada na honra — como se vê na tradição dos samurais —, os gregos da época homérica operavam sob outra lógica. Embora tivessem uma moral diluída e noções de honra, o que realmente grita na *Ilíada* é a busca pela glória.

Essa centralidade da glória estabeleceu-se de maneira definitiva na *paideia* grega. Como já foi apontado sobre o uso dos textos homéricos, ainda que pudessem já ser empregados de forma didática em sua época, posteriormente ninguém duvidava de seu papel formativo. Ao estudar história, pedagogia e outras áreas, deparamo-nos sempre com esse uso civilizatório do material homérico. Ele não servia para uma doutrinação religiosa estrita, mas para civilizar as crianças e os adultos, que se espelhavam naqueles exemplos.

Assim, enquanto nós temos a moral e os japoneses têm a honra, os gregos antigos eram movidos pela glória. Mas por que isso acontecia? Minha leitura sobre o assunto é que os deuses gregos são filhos do cosmo. Ao analisar a mitologia e a história deles, percebe-se que figuras como Aquiles realizaram feitos extraordinários, gerando a impressão de que a distância entre deuses e mortais era tão tênue que se confundia.

Parece-me que havia, no horizonte deles, a crença de que era possível alcançar o patamar dos deuses e conquistar essa imortalidade. A motivação, portanto, não residia apenas na guerra em si, nem tampouco se limitava à visão dos povos nórdicos de morrer bravamente em batalha para entrar em Valhala. Tratava-se, antes, de realizar o ato heróico a ponto de quase poder se igualar a um deus. Eu pessoalmente penso que a mentalidade deles caminhava por aí.