Frequentemente acusam Aristóteles de pecar na *Poética* por falta de profundidade em alguns assuntos, ignorando certas orientações para uma boa poética — como quando ele ressalta o recurso do *deus ex machina*. Alguém poderia argumentar que criticar o *deus ex machina* é o mais óbvio do mundo e que o mínimo esperado seria apontar isso, mas que ele teria ignorado todos os outros atalhos. Afinal, existem outras falhas que ele aponta na obra? Vamos lá.
Primeiramente, o conceito de *deus ex machina* aparece pela primeira vez na história justamente no texto da *Poética*. Podem pensar: "Ah, mas depois que ele diz, fica muito fácil". Sim, mas ele também pega muito pesado com outras situações. Vamos pegar uma citação do Capítulo 16. A segunda espécie de reconhecimento — sendo o reconhecimento a descoberta, como descobrir que a pessoa que você quer matar é a sua mãe (ou Édipo descobrindo que matou o pai, ou Medeia descobrindo que Jasão quer casar com outra e abandoná-la) — é a dos reconhecimentos forjados pelo poeta e, por isso mesmo, sem arte. Aqui ele está categorizando os erros; essa segunda espécie de erro é aquela forçada pelos poetas, ou seja, sem arte, sem esforço real.
Um exemplo disso ocorre numa peça específica que não é a *Ifigênia em Áulis* de Eurípides que chegou até nós, mas uma outra semelhante escrita por outro autor que ele cita. Nela, Ifigênia escreve uma carta dizendo que quer enviar notícias ao irmão porque está com muita saudade. Ela está há muito tempo na ilha de Táuride servindo à deusa, desde a época da Guerra de Troia. Ela precisa sacrificar os dois forasteiros que acabaram de chegar (que são Orestes e seu amigo, embora ela não saiba quem eles são). Ela então diz que vai libertar um deles, mas apenas se ele levar a carta consigo. Os prisioneiros relutam, dizendo que não podem levar uma carta que contém mentiras e que o destinatário pode matá-los.
Ifigênia lê a carta em voz alta, e Orestes, ao ouvi-la, percebe: "Opa, você é minha irmã!". Mas Ifigênia inicialmente recusa: "Não, você não é Orestes, é um estranho que nunca vi na vida, meu irmão não é assim". Como já passou uma década desde que se viram pela última vez, é normal que tenham mudado radicalmente a aparência. O dramaturgo dessa peça específica faz com que Orestes convença a irmã de que é realmente o irmão dele através de um detalhe que ele inventa do nada: Orestes diz que guardou no quarto dela uma espada que tomou de alguém quando era pequeno. Esse detalhe não é mencionado na peça anterior, nem na mitologia, em lugar nenhum. O autor tira isso do nada, e ela conclui: "Ah, então você é meu irmão!". Essa é a descoberta mais chata que existe.
Aristóteles vai falar que o melhor tipo de reconhecimento é aquele que decorre logo depois de uma reviravolta (*peripécia*). Ou seja, o personagem toma uma atitude e, a partir disso, a descoberta acontece.
Para ilustrar, podemos usar o exemplo de *Édipo Rei* — e não tem como fugir dele, é o exemplo clássico. Édipo manda chamar um pastor de ovelhas para entender o que aconteceu. Mas, antes disso, um pastor chega para dar uma notícia e diz: "Ó, Édipo, você estava preocupado com o rei de Corinto? Pois é, o rei e a rainha de Corinto morreram". Édipo respira aliviado: "Graças a Deus, então não vou matar meu pai nem dormir com minha mãe!". O mensageiro então responde: "Pois é, mas eles não eram seus pais biológicos". Édipo pergunta: "Como assim?". E o homem revela: "Fui eu que te levei para eles quando você era pequeno; você é adotado". Édipo estava investigando uma profecia que recebera de Tirésias (não do Oráculo de Delfos, mas o oráculo de Cadmo, a cidade que ele governa) para saber se ela era verdadeira. Ele toma uma ação para investigar, e essa ação resulta em uma descoberta inesperada: estava buscando uma coisa e descobre outra completamente diferente. Esse é o melhor tipo de reconhecimento.
O segundo melhor tipo é através do pensamento, que acontece por meio do raciocínio lógico, conectando as coisas de forma semelhante a um diálogo socrático. Isso também ocorre em *Édipo Rei*, mais para o final, quando fica muito claro para o público como ele chega a esse raciocínio — embora o público já soubesse o desfecho.
Portanto, Aristóteles não denuncia apenas o *deus ex machina*. Ele também condena quando o autor inventa soluções tiradas do próprio bolso, mesmo que não envolvam deuses descendo para salvar alguém do perigo. Pense, por exemplo, na trilogia *Se Beber, Não Case!* — filmes de comédia americana bem fracos. Em todos os três filmes, há um momento em que um personagem específico, o cara de óculos, tem uma epifania do nada. Ele saca tudo e resolve o problema instantaneamente, sem que houvesse indícios prévios de que aquilo poderia acontecer. É exatamente isso que Aristóteles critica.
Pense numa versão menos escrachada disso: o personagem está sem saber o que fazer, ouve alguém pronunciar uma palavra qualquer por acaso, e isso lhe dá o estalo que precisava para resolver a situação. Para Aristóteles, isso é bem menos pior. Por quê? Porque houve um gatilho, um indício que ele conectou com o resto, fazendo sentido dentro da trama. O problema é quando o autor inventa um fato do nada, que não estava no enredo, só porque não sabia como resolver a situação da forma correta. Ninguém compra essa ideia, porque é uma trapaça, exatamente como o *deus ex machina*. Mas acho que já gastamos tempo demais respondendo a essa pergunta.