No quarto episódio do Oráculo de Anthares, o apresentador reflete sobre sua trajetória com a literatura e a poesia, oferecendo um panorama analítico sobre seus autores favoritos em língua francesa, além de responder a dúvidas de espectadores sobre escrita, leitura e cultura pop.
A relação do apresentador com a poesia começou na França, em 2016, impulsionada pelo tédio e pelo contato inicial com a literatura francesa. Seu primeiro poema, escrito aos dezesseis anos e de forma intuitiva, coincidiu com a visão de mundo de Espinosa, na qual Deus se confunde com a própria natureza e criação. Meses depois, em uma sala de aula em Dijon, um exercício sobre Gaspar de la Nuit, de Aloysius Bertrand, levou-o a compor seu primeiro texto em francês. O poema, que misturava reclamações cotidianas sobre os cinco sentidos, o tédio escolar e os cochichos dos colegas, surpreendeu o professor e o introduziu em um grupo de poesia que declamava versos em praças, museus e cafeterias locais.
Apesar dessa imersão precoce, a leitura densa de poesia só se consolidou anos mais tarde, no Brasil, em 2021. Após um período focado em romances e na prosa de fantasia, como *O Nome do Vento* de Patrick Rothfuss, ele percebeu que buscava na poesia a musicalidade e a cadência que faltavam em outros formatos narrativos. Para ele, a poesia funciona como uma versão a capela e arcaica da música, exigindo do leitor não uma obsessão imediata pela compreensão racional, mas sim a entrega ao ritmo e à experiência estética global de uma antologia ou coletânea.
Entre os poetas de língua francesa, destacam-se figuras centrais como Charles Baudelaire, Victor Hugo, Tristan Corbière, Jean Racine e Paul Valéry. Victor Hugo é apontado como um dos maiores expoentes literários da língua, cuja vastidão e força retórica em obras como *As Contemplações* alcançam um patamar sublime. Já a poesia de Valéry, marcada por um hermetismo artificial e caleidoscópico, aposta no inefável e na beleza extralinguística. Para leitores iniciantes que desejam ingressar na poesia francesa, as recomendações fundamentais recaem sobre as fábulas de La Fontaine e a poesia acessível e tocante de Victor Hugo.
A discussão também envereda por reflexões de cultura pop, abordando a adaptação cinematográfica de *Duna*. O autor analisa a transformação cognitiva e a expansão de perspectiva do protagonista Paul Atreides, argumentando que sua jornada no deserto não o anula como indivíduo, mas amplia sua consciência a ponto de reconfigurar totalmente suas prioridades diante da vastidão do cosmos.
Respondendo a perguntas sobre o ofício da escrita, o apresentador diferencia os caminhos para quem deseja comercializar sua arte daqueles que escrevem por puro impulso expressivo. Para quem almeja o mercado editorial, a recomendação é pragmática: estudar a fundo áreas extraliterárias por meio de leituras densas (acumulando milhares de páginas sobre temas específicos, como história ou antropologia), ler amplamente os *bestsellers* consolidados e os clássicos, e treinar a escrita copiando estruturas narrativas de sucesso para absorver os mecanismos que funcionam comercialmente. Em contrapartida, para a poesia e a literatura de expressão íntima, o segredo reside na leitura desimpedida dos clássicos e no estudo rigoroso da poética, da versificação e das gramáticas metódicas, priorizando a constância da leitura sobre o sufocamento interpretativo.
Por fim, o oráculo desaconselha o erro comum de travar diante de um único poema incompreensível, defendendo que a compreensão literária é um processo orgânico, cumulativo e intuitivo que se desenvolve com o tempo, a repetição e a familiaridade com o ritmo dos textos.
💡 Sugestões e Dicas
- Leia poesia sem a obsessão imediata de tentar entender tudo logo no início; priorize o fluxo da leitura e deixe a compreensão brotar com o tempo.
- Leia coletâneas e livros de poemas inteiros (recolhas) do início ao fim, em vez de textos soltos, para ampliar as chances de encontrar passagens e poemas marcantes.
- Insira a leitura de poesia e literatura em momentos mais amenos e de tédio na rotina, evitando associá-la exclusivamente a estados de profunda tristeza ou de compromissos acadêmicos urgentes.
- Para quem deseja começar a ler poesia francesa, utilize as fábulas de La Fontaine e a poesia de Victor Hugo como portas de entrada acessíveis e eloquentes.
- Se o objetivo for se tornar um autor publicado de sucesso comercial, estude autores best-sellers consolidados — inclusive aqueles de que não gosta —, copiando trechos e estruturas narrativas por exercício para assimilar o que funciona no mercado editorial.
- Dedique milhares de páginas de leitura aprofundada a um ou mais assuntos extraliterários (como história, economia ou antropologia) para construir repertório consistente para suas próprias narrativas.
- Para quem busca dominar a escrita clássica ou poética, estude gramáticas metódicas, tratados de pontuação e manuais avançados de versificação, metrificação e rima.
- Não trave em um único poema difícil a ponto de passar meses tentando decifrá-lo; avance na leitura e retorne ao texto tempos depois para perceber como a percepção evoluiu.