Embora Aristóteles dê preferência à tragédia como a construção poética ideal na Poética, é um equívoco pensar que ele ignorava os aspectos superiores da epopeia. Essa impressão surge porque ele comenta brevemente a epopeia no início da obra, a utiliza em alguns exemplos e só retoma o assunto de forma aprofundada nos capítulos finais, especificamente no capítulo 24. Nesse trecho, ele reconhece que a epopeia possui uma característica particular muito importante para aumentar a extensão: enquanto a tragédia se restringe à representação em cena pelos atores e não pode imitar muitas partes da ação ocorrendo simultaneamente, a epopeia, por ser uma narração, pode apresentar várias ações realizadas ao mesmo tempo.
Esse privilégio contribui para dar grandiosidade ao poema, proporcionar mudanças ao ouvinte e introduzir variedade com episódios diversos, combatendo a monotonia que rapidamente sacia o público e faz as tragédias fracassarem. Na tragédia, por ser mais concisa e ter um enredo direto sem muitos episódios, o dinamismo é menor e tudo precisa acontecer em um período muito curto de tempo. Isso torna certas cenas de tensão complicadas, pois o leitor ou o auditório no teatro pode pensar em mil desdobramentos e soluções diferentes para a situação, gerando frustração caso o personagem faça algo simplista ou idiota.
Na epopeia, por outro lado, é possível alternar o foco narrativo com facilidade. Na *Ilíada*, por exemplo, há uma constante alternância entre os acontecimentos do mundo humano — como a disputa entre Agamemnon e Aquiles no primeiro canto — e o mundo dos divinos, como quando Aquiles pede à mãe, Tétis, que interceda junto a Zeus para castigar o exército grego, levando os cantos seguintes a mostrarem as deliberações no Olimpo e o ciúme de Hera. Essa troca dinâmica entre as ações dos homens e a vontade dos deuses mantém o interesse vivo a cada momento.
Na *Odisseia*, algo semelhante acontece por meio da alternância de múltiplos pontos de vista. Há os momentos focados nos deuses, os trechos voltados a Ítaca — muitas vezes chamados de "romance de Ítaca" —, onde Penélope precisa lidar com os pretendentes abusivos que desrespeitam a lei divina da hospitalidade, gerando um dilema terrível já que Zeus é o patrono dessa virtude. Além disso, há a telemia, que acompanha o filho de Odisseu, Telêmaco, em sua busca por notícias do pai guiado pela deusa Atena disfarçada de mentor.
Esses três ou quatro pontos de vista que se alternam na *Odisseia* evitam que a obra se torne cansativa. Apesar de sua extensão, a leitura flui porque o foco muda constantemente, funcionando como várias tragédias encadeadas. Com isso, fica evidente que Aristóteles de maneira alguma ignorava as grandezas e os méritos superiores da epopeia em relação à tragédia.