Se eu tivesse um ano inteiro à toa,
Com verba livre e sem restrição,
Eu traçaria um plano que coroa
O mais louco livro de evasão.
Nos guias de navio eu beberia,
Em mapas de trem buscando o saber —
América em primeiro, que servia
Para o anúncio local satisfazer.
Por Inglaterra e continente além,
Traçaria um rumo a pasmar sábios,
Em cada vila catedral também
Colhendo a cor dos séculos nos lábios.
Mas a Europa é um tanto banal,
E eu não pouparia estudo e afinco
Pra ver o Oriente em voo casual,
Onde a areia e o xeique ardem num brinco.
Roma e Paris eu não omitiria;
Sem o Reno o plano estaria oco,
Pois tal jornada assim devia
Ser um Grande Tour à moda do antigo roco!
Pesquisaria barcos no Nilo e o valor
Do ônibus pra Meca, além do poço;
E mandaria examinar com fervor
A água de Rebeca, sem ter alvoroço.
A rota de toda barca no Tigre
Notaria, e o preço cobrado no trajeto;
Hotéis em Bagdá onde o hóspede migra,
E os táxis amarelos em Damasco e seu afeto.
E eu teria à mão, sem vacilar,
Os folhetos daquela imensa excursão,
A Estrada de Ouro a Samarcanda alcançar,
Por bosques persas e jardins de Bahai então.
Além, veria as tarifas do trem
Para Yokohama e Kiao-chan de roldão,
Passagem pelo Tibete buscando também
Brincar com o Dalai Lama em contemplação.
Em ilhas tropicais ficaria a vagar
Até o tédio cansar as canções do mar do Sul,
E pro Polo Norte um dia ir marcar,
Onde só Peary esteve sob o teto azul.
Assim planejaria — até que por fim
O ano se escoasse sem ser notado,
Meu dinheiro a salvo, guardado pra mim,
E o passeio louco nem tão necessário, afinal, de lado!