Em meio ao ar fétido do salão,
Onde nuvens de fumaça as velas sufocam,
Diz-se que o mais seleto engenho reluz,
E a arte despe sua capa cotidiana.
Aqui almas livres esquecem a rotina
Da hora atarefada e da multidão aflita,
E, brilhando intensamente de mente a mente,
Exibem em voz alta seus sonhos mais íntimos.
Os reservados camarotes tecem inspiração,
As luzes suaves difundem um encanto,
Até que no quarto escuro e encapado
Acesa brilha — dizem — a Musa imortal.
Cada canto fecundo ecoa fortemente
Com uma hilaridade de origem incerta,
Enquanto, prolongando-se sobre o café,
Vagam cortes de faces ocas.
Os lugares-comuns de ontem
A multidão repete entre tossidos,
Ou, saciada com o jogo mental,
Cada um recosta-se apático em seu assento.
E assim fumam, bebem e meditam
Com rostos vazios ou saturninos;
Estudos de vazio e melancolia,
Estes moldes de um mundo divino.
Em meio a eles sento-me com olhos ardidos pela fumaça,
Atento para não perder nenhum lampejo de engenho;
Banhando-me sob alegres céus boêmios,
E grato por um santuário como este!