Você sabia que H. P. Lovecraft sofreu um acidente de trem quando tinha 10 anos? Pois é, eu sei disso porque ele transformou o ocorrido numa história, mas não se tratava de uma narrativa sobre medo ou trauma, e sim de um poema cômico. Você esperava por essa? Essa escolha aparentemente estranha é uma aula sobre como transformar uma experiência pessoal em literatura. Eu já tenho um vídeo sobre isso lá no meu outro canal — o link vai estar aqui na descrição —, mas aqui nós temos um exemplo prático de ninguém menos que Lovecraft.
Você certamente já passou por aquele dia péssimo em que pensou: "Caramba, isso aqui daria um conto bom". Mas estamos falando de Lovecraft com apenas 10 anos de idade. A forma como ele escreveu sobre aquele dia ruim neste vídeo vai te ensinar muito sobre a escrita do próprio autor e também sobre a sua, caso queira escrever alguma coisa. No vídeo anterior, eu disse que mostraria algo surpreendente. Depois do esforço intelectual de uma criança de 10 ou 11 anos em traduzir uma obra do latim para o inglês num estilo poético muito específico e super difícil — usando a métrica de Alexander Pope —, Lovecraft, provavelmente com a mesma idade, abandona a escala titânica dos eventos para escrever sobre a precariedade da estrutura da cidade de Providence, onde morava.
Assim como no vídeo anterior, depois de aprender tanto e de escrever várias coisas, parecia que ele estava dando um passo atrás ao traduzir uma obra de terceiros. Poderíamos pensar que isso seria um *downgrade* na escrita, pois ele abandonava a escala de eventos gigantescos típica de suas obras maduras para focar no cotidiano. Consegue imaginar o motivo? É simples: aqui ele finalmente escreve sobre suas experiências pessoais, transformando-as em história. Trata-se do relato dramatizado de uma viagem de trem que dá inteiramente errado.
Embora simples, isso é crucial para entender a busca de Lovecraft por uma voz autoral. Para alcançá-la, ele precisou passar pela experiência de escrever sobre o que vivenciou. A maior prova disso está no próximo vídeo. Tive que interromper a gravação devido a sintomas que pareciam um AVC; saí correndo para o hospital passando mal. Mas já está tudo bem. Fiquei três horas fora e agora vou continuar como se nada tivesse acontecido.
Se não me engano, eu dizia que escrever um conto do zero é muito diferente do que Lovecraft fez aqui, que foi compor uma narrativa com base em algo que ele passou. Será que eu devo escrever uma história com base no que vivi hoje? Acho que não, não é suficiente. Bom, eu pretendia fazer uma referência ao vídeo seguinte, pois, em vez de um único vídeo, resolvi estudar três obras de Lovecraft para preparar os roteiros de uma vez. Estudei a primeira obra e fiz o roteiro; depois, ao estudar a segunda, percebi que precisaria voltar e arrumar o primeiro roteiro; por fim, fiz o terceiro roteiro e notei que teria de alterar tudo de novo. Por coincidência, essas duas obras adicionais provavam o meu ponto do vídeo anterior, onde discutimos uma tradução feita por Lovecraft e a importância de refazer uma obra conhecida imprimindo o seu próprio estilo.
Neste vídeo, falo do oposto: um autor escrevendo uma história a partir de uma experiência pessoal. No próximo vídeo, mostrarei a prova cabal da diferença entre escrever com base em vivências próprias e exercitar a reescrita da obra alheia. Mas isso é apenas introdução. Quero colocar outro ponto. Preste atenção: há uma pergunta que todo escritor deveria fazer antes de narrar qualquer experiência pessoal. A pergunta é: "Eu quero que o leitor sinta o que eu senti, ou quero que ele veja o que eu vi?". Pare um pouco, pause o vídeo e raciocine sobre a diferença entre essas duas abordagens.
Nesse caso, o jovem Lovecraft escolhe a segunda opção: ele quer que o leitor veja o que ele viu. Isso significa que ele não se importa com os sentimentos do leitor? Claro que não. O conteúdo dessa aventura pessoal foi transformado em uma obra com um título horrivelmente longo: *A tentativa de viagem de Lovecraft entre Providence e Fall River na ferrovia* (New York, New Haven and Hartford).
A narrativa começa com o narrador dizendo que apresentará rimas precárias para relatar uma viagem feita dias atrás. Ele exagera um pouco, dizendo que foi num tempo pré-histórico. Ele precisava ir a Fall River num dia muito frio, entra no trem, se acomoda e adormece, mas é acordado bruscamente por um barulhão: o estrondo trovejante do trem saindo dos trilhos. Imagine só: ele tem entre 10 e 11 anos, viaja sozinho e, de repente, o vagão sai dos trilhos. Ele não sabe o motivo, apenas que tiveram de esperar caramba até arrumarem o "vagão destronado" — uma expressão que eu achei muito legal.
Mais à frente, a estrada de ferro faz uma bifurcação e cada pedaço do trem vai para um lado. O veículo quase tomba e precisa parar de novo. O condutor aproveita a situação para cobrar as passagens dos "sobreviventes", como ele chama os passageiros. Um deles protesta: "Você pode até cobrar, mas vou processar vocês, pegar todo o meu dinheiro de volta e mais um pouco".
Saindo dali, o trem tenta vencer uma colina. Enquanto os motores rangem, o vagão de trás se desengata, mas não foi nada demais: segundo a narrativa, o vagão queria conhecer novos lugares e tinha outros planos. Ele é rebocado por um carro de bois que parecia uma carruagem da Idade Média. A carroça gemia, e os passageiros gemiam de medo, de ansiedade e com os ossos doendo, pois aquele monstruoso carro ameaçava despedaçar seus corpos.
Como era de se esperar, a situação piora: há uma curva com um ângulo tão reto e brusco que eles precisam parar para trocar uma das rodas, que não conseguia fazer a curva. Depois disso, passam por várias estações, narrando a reação das pessoas ao verem o vagão passar. De repente, o trem para porque acaba a energia (afinal, era um bonde elétrico). Aparece uma locomotiva comum para tentar puxá-lo, momento em que o jovem Lovecraft desiste, desce do trem, paga o motorista de uma carroça para levá-lo a um hotel e, no dia seguinte, volta para casa de barco.
Mais tarde, ele descobre que aquele trem finalmente voltou a funcionar. Termina com o som estridente do apito triunfante e jubiloso de um antigo fazendeiro ouvindo o carro elétrico entrar em Bristol. Ou seja, a grande vitória do trem foi chegar a Bristol, um lugar aleatório e muito distante do destino original, mas foi o que deu.
O texto de Lovecraft é muito bem escrito, cheio de humor e com um estilo sofisticado, mantendo o padrão da poesia do vídeo anterior. A primeira coisa a comentar é a versatilidade temática do autor. Além de transitar entre conteúdos diferentes, ele transita entre formas diferentes. Pense nisso: com 10 ou 11 anos, fazer uma viagem sozinho que dá tudo errado e transformar isso numa narrativa irônica em versos heroicos não é para qualquer um. Ele estava muito confiante e tratou essa aventura casual com a mesma seriedade dispensada à tradução de Ovídio.
É difícil opinar sobre a evolução exata de sua escrita porque há pelo menos três obras perdidas nesse intervalo, cujo conteúdo desconhecemos. De qualquer forma, a obra mostra que, tendo absorvido a tradição clássica (Homero, Ovídio e Alexander Pope), ele passa a usar essa bagagem para descrever as coisas mais corriqueiras ao seu redor. Ele não estava preocupado em expurgar traumas, mas sim em praticar o que havia aprendido. Parecia um desafio de escrita: relatar uma experiência própria em versos altamente complexos. Ou ele estava muito seguro, ou estava treinando.
Essa escolha por um tema casual e cotidiano deu a Lovecraft mais controle sobre a narrativa. Este é o ponto central: para amadurecer como escritor e desenvolver uma voz narrativa ou autoral, é preciso, antes de tudo, ter domínio sobre a história que se constrói. É como andar de bicicleta: se os freios estão ruins, você precisa se preocupar com várias coisas ao mesmo tempo e não consegue treinar suas habilidades. Com tudo regulado e sob controle, você pode treinar uma coisa de cada vez, como a voz autoral.
Neste texto, isso o ajudou muito. Ao contrário da frieza jornalística ou do tom ingênuo de suas primeiras produções, aqui vemos um narrador muito mais maduro, mesmo com 10 ou 11 anos — um salto gigantesco. Jogue no Google e leia você mesmo: encontrará um narrador cínico, marca de um escritor autoconsciente. Nos contos anteriores, os personagens pareciam bonecos manipulados, sem motivação ou ação própria. Aqui, o protagonista/narrador, embora seja vítima das circunstâncias, participa ativamente das cenas, conferindo ao texto uma voz mais própria e menos mecânica.
Se nos contos infantis a estrutura de aventura era subvertida para gerar horror, aqui ela é subvertida para gerar comédia. Há um tom irônico e sarcástico, narrando os acidentes com certa distância. Isso se conecta à técnica que chamei de "depuração dramática" (você pode pesquisar aqui no YouTube).
Para terminar, veja como as influências dos primeiros contos de Lovecraft ainda geram efeitos. Não temos a jornada do herói típica de sua versão da *Odisseia*, mas a estrutura permanece. Ele satiriza o arquétipo do herói ao colocar seu personagem passando por uma "mini odisseia" com obstáculos ridículos num trem. Ele escreveu sobre um problema pessoal usando a estrutura de sua pequena odisseia, a métrica de Alexander Pope e um gênero inédito em sua obra até então.
Não dá mais para chamar esse pré-adolescente de mero amador, pois ele demonstra muita maturidade. Foi por isso que me surpreendi tanto ao ler a próxima obra em ordem cronológica, que também ensinará algo valioso. Mas você terá de esperar o próximo vídeo. Inscreva-se no canal, ative as notificações e até a próxima.