Outra coisa engraçada também é o pai dele, que ele começa a achar que, por ansiedade ou alguma coisa assim, está fumando demais. Não, o velho gosta de fumar, né? E aí o Benjamin Button lá, com os primeiros 15 anos da vida dele, esconde o maço de cigarro, fica fumando, fuma com o avô dele. É muito bom, muito legal, cara. Uma parada de que nunca falam no livro e que eu acho interessante é: sabe quando é que a vida dele começa a ficar boa mesmo? Isso é muito bonito, velho. Essa foi a parte mais bonita que eu achei do livro, que cara, é sublime, sublime, sublime, que é quando ele encontra a esposa dele. Cara, tudo nisso é lindo. Do nada, o Fitzgerald começa a fazer descrições que, não que o Zola faça — são inscrições mais de um realista mesmo, mas enfim, está ali nos meados, né? Não é nem realismo nem naturalismo, mas é com a mesma precisão, um pouquinho dos dois assim —, que ele fala que é à noite, o pai dele no carro, e os dois têm por volta de 50 anos de idade e de condicionamento físico. E ele, o Benjamin Button, tem 20 anos de idade e 50 de condicionamento físico. Então eles estão quase como irmãos ali em termos de aparência e condicionamento.
E eles vão passando por campos de trigo amarelos, amarelados, só que está de noite. Aí tem a lua com o seu brilho prateado, seu brilho lunar, que está como que manchando os campos de trigo de prata, e está aquele amarelo, só que com o prateado em cima. Ele pinta essa vista pra gente. E aí o narrador fala que é uma vista tão bonita que é quase impossível de ignorar. Quase. E aí mostra embaixo pra gente o pai do Benjamin Button ignorando aquilo, falando sobre negócios, falando sobre nada, sobre coisa nenhuma. E a gente já entende que o próprio Benjamin Button tem uma certa sensibilidade para essas coisas.
E aí, um pouquinho mais pra frente, tipo, vira uma, duas páginas, você tem a chegada da… cara, eu tenho que lembrar o nome dela, não tô lembrando o nome da mulher. Hildegarde Moncrief, ela mesma, Hildegarde. E ele vê a Hildegarde. Ela tem 20 anos de idade como ele, só que ela tem 20 anos de condicionamento físico, uma pessoa normal como todo mundo. E ela é loira. E aí o cabelo dela… o brilho da noite bate de um lado e fica prateado, só que a lâmpada amarela fica reforçando o amarelo do loiro dela. Aí fica como os campos de trigo banhados pela luz prateada, saca?
E isso é interessante porque é o seguinte: eu não sei se o Fitzgerald pensou nisso, tá? Mas tô dizendo que a conexão ali funciona, funciona bem, a gente consegue estabelecer que é a natureza, o sublime da natureza encarnado numa pessoa, né? Então, ele já vendo os campos de trigo banhados pela luz da lua, acha aquilo muito bonito. Ele vê uma mulher que é isso, cara. A mulher, o cabelo dela é literalmente como se fossem uns campos de trigo banhados pela luz da lua. E aí ele fica com vergonha, ele pede para o pai dele falar com ela e vai com o pai dele lá, pede uma dança, e eles dançam duas vezes.
E aí ela fala uma coisa interessante: "Pô, os jovens da minha idade só gostam de falar de bebida, de usar o carro que compraram, de quanto dinheiro eles têm na conta. Eu gosto de pessoas da sua idade, entendeu? Porque assim, nos 60 a gente já está muito próximo dos 70, e antes dos 50 a gente ainda é muito novo. 50 anos é a idade em que o homem pode ser romântico, que o homem pode amar. É uma idade em que o homem vai estar… Eu quero um homem que viva comigo, e não só com a idade comigo."
E é engraçado que eu pensei: cara, eu já conheci um monte de cara cinquentão que estava procurando amor. Os caras… não é a idade mesmo, os caras cinquentão assim, tipo, perdeu a esposa faz uns 15 anos ou se divorciou faz uns 20, algo assim, e o cara fala: "Eu tô de volta para o amor, velho." E é apaixonadaço, sabe? Cara, você não encontra casa mais apaixonada do que nos 20 e nos 50. Isso eu achei impressionante. Eu falei: "Caraca, é isso mesmo, né? É a moça de 20 anos apaixonadaça e um cara de 50 anos apaixonadaço." Muito bom, muito bom.
E é legal porque é o seguinte: ela também está presa numa imagem. Por quê? Porque ela vê isso nele e quer todo esse romance, mas ela é uma jovem do seu tempo, ela é que nem aqueles jovens. Porque fala que tem um momento ali em que ela ficava arrastando ele pras festas — está até entre parênteses —, ou seja, ela era tão fútil quanto aqueles jovens com quem ela não queria se envolver, e ele tinha que ficar aguentando essa parada, tinha que ficar se empurrando com isso. E quando ela está numa idade de mais vagaridade, idade mais de contemplação, ele já está querendo correr para lá e para cá, quer ir pra festa. E aí muda a relação, muda essa dinâmica.
E uma coisa interessantíssima dos dois, que eu gostei muito, é que eu fui até ver no original: porque aqui no francês está dizendo que ela é bonita como o diabo, mas no original está dizendo que ela é *beautiful as a sin*, linda como o pecado, seduz como o próprio pecado. E eu também fui conferir… linda como o diabo ou linda como o pecado? Como pecado eu acho melhor, mas enfim, ou como o diabo… Mas é porque na expressão francesa falar que a mulher é linda como o diabo não é como o diabo, mas é linda para diabo, muito, entendeu? É uma expressão comum francesa, mas *beautiful as sin* é bem mais original, a gente entende a mesma coisa e pô, é realmente uma sacada do Fitzgerald isso aí. Nunca vi em outro lugar, mas enfim.
E ele é tratado nesses mesmos capítulos, nesses três, quatro capítulos ali em que ele está com ela, pelos jornais como um diabo. Dizem até que ele tinha chifres debaixo do chapéu, que ele usava e tinha chifres escondidos. Então tem esses dois diabos, né? Ele, que é um diabo para a mídia, e ela, que para ele é a diabinha dele, que também vai atormentar a vida dele um pouquinho, porque aqueles primeiros 15 anos de casamento são ótimos, mas o resto… e eles passam, sei lá, pelo menos 40 anos casados, é uma desgraça. 15 para 40 nem é a metade. Imagina, é horrível. A mulher fica tratando mal, ele se sente nojado de estar com ela, é terrível. A cor do pecado são duas: a luz da lua com o amarelo dos campos de trigo. É muito bonito, velho.