Tem uma coisa que eu deixei para trás que tinha duas coisas que eu achei forçadas. A primeira era ele ler enciclopédia e a segunda é toda a galera do colégio parar tudo para ir atrás do velho. Todo mundo vai atrás do velho assim, viram uma movimentação, vai todo mundo para trás só para fazer bullying com o velho. Foi muito forçado. Isso aí é escalafabético mesmo. Mas ele quer ser do jeito que todo mundo é, ele quer ser normal. Aí que está. Isso é diferente, porque o discurso geral é "eu quero ser diferente, mas quero ser tratado normal". O dele é "eu quero ser normal e tratado normal", entendeu? Ele não é uma mera vítima; ele é uma vítima da condição dele no mundo em que ele está. Porque se o mundo fosse assim para todo mundo, tudo bem. Se todo mundo nasce velho e morre bebezinho, está OK. Mas é a condição dele nesse mundo que é como o nosso. E, de fato, ele é uma vítima disso, mas não exatamente das pessoas. As pessoas de quem ele é vítima são essas três: o pai dele, o filho dele e a mulher dele. Esses três aí que fingem mesmo. No máximo, parcialmente, o doutor, as enfermeiras, os soldados no final, o general lá; no máximo isso. Mas assim, é bem coadjuvante, entendeu? Eles não fazem nem por curiosidade, só crueldade, porque a pessoa te tratar de um jeito que você não quer ser tratado já é o suficiente.
Eu acho interessante que tem um momento lá no livro em que o narrador fala com todas as letras que o pai dele fazer aquilo — uma coisa que ele fazia lá, não lembro qual que era a questão específica — era parte de um plano dele para fingir que o filho dele era normal. Ele chega a citar isso. Sim, sim. Mas é justamente tingir o cabelo de preto, cortar um pouquinho, ele se convenceu dessa coisa. Então, e pessoalmente ele tratava o filho dele como se fosse criança mesmo no começo, mas ele se convenceu de verdade. Foi o que eu falei, ele ficou doido mesmo. Ele realmente se convenceu, velho. Ao mesmo tempo, ele tinha o plano, ele estava consciente do plano dele. Sim, mas aí é só quando o plano falhava um pouquinho. Você entende que é o duplo pensar de Orwell, pô? É literalmente isso. Ele tem duas ideias opostas que não podem sobreviver no mesmo espaço e elas sobrevivem.
O duplo pensar é mais ou menos o que o Brasil fez com o pessoal do bigodudo lá da Alemanha dos anos 30 e 40 que matou um monte de gente. No sul do Brasil, onde mais tem a concentração de pessoas que são das tribos de Israel e pessoas que não gostam dessas pessoas… Como o algoritmo do YouTube joga tudo para baixo e o canal já é pequeno, estou falando de forma censurada, mas vocês entenderam o que eu estou falando, né? No sul do Brasil você tem esses dois grupos de pessoas que eu não sei explicar como, de alguma maneira, o povo do sul do Brasil conseguiu fazer com que esses dois grupos coexistissem perfeitamente. Não sei como isso aconteceu, mas aconteceu.
Algo parecido ocorre na cabeça de alguém que está com o duplo pensar, e é o que acontece com o pai dele. Só que parece ter uma substituição, entendeu? Pelo menos com a Hildegarde total, essa substituição aparece, mas com o pai dele ela vai acontecendo e, mais no finalzinho, fica isso mesmo. E com o filho dele também; o filho dele tem um processo de até ficar doido, mas ele está ficando meio doido. Você falou dele tentar se esforçar, e é isso mesmo. Essa é a substituição da realidade por uma imagem, a substituição do real pelo fantasmagórico. Isso é interessante, cara.
Uma parada interessante no livro: o pai dele é sinistro, velho, porque ele passa na frente de um negócio de venda de escravos — a gente está falando do sul dos Estados Unidos no século XIX, tá, gente? Ainda tem escravo lá, talvez bem menos, mas enfim. E ele passa lá, vê um negócio de venda e compra de escravo, e ele tem o pensamento mais cruel que eu já vi, velho: ele vira e fala que desejou por um momento que o filho dele fosse negro. Falei: "Caraca, velho!". É no começo aí, né? É no começo, logo na saída do hospital, ele nem comprou a roupa ainda, pô. Falei: "Caraca". E lá para a frente, quando os jornais vão falar mal dele, falando mal do casamento do Benjamin Button com a Hildegarde, falam tipo assim que ele é só um judeu, uma parada assim, entendeu? O xingamento dos caras é falar que o cara é judeu, velho. E aí eu acho sinistro, velho, porque no filme eles quiseram, tipo, não sei se exagerar, mas eles quiseram: e se o pai do Benjamin Button tivesse doado o filho dele para negros? Irmão, é outro personagem, velho. É outro personagem, pô. Porque a ideia do cara era vender ele como um velho negro, como escravo, para que pessoas brancas comprassem e cuidassem dele ali, entendeu? O que eles fizeram no filme foi tipo: "Ah, eu vou doar ele aqui para uma casa de negros". É muito mais soft, é muito mais tranquilo, pô. Muito mais tranquilo. Tem uns assuntos assim no *O Grande Gatsby* também, cara. Gatsby. Tem uns assuntos assim bem puxados lá. Ah, mas é sinistro. Queria saber qual é a do cara, viu? Ele puxa esses assuntos assim de vez em quando. Ele era católico, né? Eu queria saber o que ele queria falar.
Pelo que eu vi dos dados biográficos dele — vi pouca coisa —, meu irmão me deu uma ideia sensacional para o final, um final novo para a história do Benjamin. Ah, fala aí. Ele está lá todo serelepe, criancinha lá, tal, aí pau, atropelado por um carro. Morre atropelado por um carro. Caraca, do nada! Se ele nasceu velho, por que não morrer de outro jeito, né, cara? Por que tem que ser voltando pequenininho? Poxa, o cara teve uma vida tranquila, hein, bicho? O cara não ficou doente, já nasceu velho, nasceu bom. Nossa, tranquilão. Nasceu um velho, mas não tinha Alzheimer, Parkinson, dente feio. Tinha dente feio. Tinha dente feio, fumava de boa, falava de boa, lendo enciclopédia, ligado? Arrumou uma mulher novinha rapidinho, aí vai para o exército, faz tudo o que ele quer lá, aí morre sem saber, tá ligado? Morre… é a mesma coisa que morrer dormindo. Foi muito de boa essa vida do cara, meu. Nossa, velho. Foi isso que eu falei. Foi uma vida tranquila.
E é interessante porque, se a gente for fazer a comparação com o negócio do Kafka, a gente está vendo os últimos seis meses da vida do Gregor Samsa, né? É um período da vida dele ali, é um momento só. O do Benjamin Button é a vida inteira. E é doido porque assim, tudo bem que virar um inseto é um negócio muito extraordinário, mas você crescer ao contrário também. É engraçado porque o cara fica defendendo o crescer ao contrário. Não, mas ele cresce… Ele está com 1,65m… Nasceu ao contrário dela ainda. Não, nasceu ao contrário. É esquisito, saiu aqui pela boca, velho: "ao contrário". Não dá também. Nasceu ao contrário não dá não, hein? Ao contrário dá não. Isso deve doer muito. Eu não sei em quem dói mais: no cara que nasce ou na pessoa que faz nascer.