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ODISSEIA: O peso esmagador de ser filho de um mito

Odisseia: O Peso de Ser Filho de um Mito

É possível olhar a história através de outra estrutura, que são os temas, e como o conflito nos temas faz com que a trama avance. Uma das coisas que aparece bastante nesse aspecto temático aqui, a identidade, são os disfarces dos deuses, que ocorrem o tempo todo com muito mais abundância do que na Ilíada. Na Ilíada, até aparece bastante dos deuses se camuflando, se transfigurando em alguém, mas aqui isso acontece muito mais e é muito mais importante do que lá. Os disfarces dos deuses e a identidade deles entram nessa brincadeira, porque a identidade é o tema talvez principal aqui, principalmente a identidade do Telêmaco, que está em jogo desde o começo, e a identidade de Ulisses.

Há também o lance do disfarce do próprio Odisseu, por isso temos que relacionar uma coisa com a outra. A identidade é o tema principal aqui, e um elemento muito interessante é o disfarce de Odisseu, brincando com essa questão da identidade, o que vai aparecer nos deuses também. O tema da identidade aparece no primeiro canto em torno de Telêmaco, filho de Odisseu. Isso é muito importante porque ele simplesmente não sabe quem ele é; Telêmaco não sabe quem é, e está em uma jornada de autoconhecimento, ou melhor, de descoberta de si mesmo.

Na Ilíada, vimos quão importante é essa questão da linhagem do herói. Não é à toa que, toda vez que ia ter uma batalha importante, os caras paravam tudo, com as lanças apontadas um para a cara do outro, e começavam a falar quem eles eram a partir dos seus ancestrais, contando uma historinha e tal. Agora, imagine o seguinte: Telêmaco nasceu e o pai dele foi embora para a Guerra de Troia, ficando dez anos lá, e um monte de histórias chegam sobre o grande Ulisses, sobre os seus ardis, o herói que ajudou a derrotar Troia, o cavalo de Troia e tudo mais.

Essas histórias todas chegam a Ítaca, e o pessoal provavelmente ficou orgulhoso disso, imaginando o Telêmaco. Só que ele não sabe quem é o pai dele. Ele pode até falar "a minha linhagem é essa aqui", mas ele não sabe quem ele é; ele não foi criado pelo pai, ele nunca viu o pai. Quando Ulisses viaja para a guerra, ele deixa Telêmaco recém-nascido com Penélope. Lembrando que já se passaram vinte anos: quando o livro começa, Telêmaco tem dezenigove anos e pouco. Então, o cara já é um adulto, o herdeiro, o único herdeiro de Ulisses. Tem toda essa questão de ele precisar assumir o legado do pai, que é um baita legado, e ele é um adolescentão criado com a mãe, sem saber o que fazer. Por isso, muita atitude dele é de moleque, muita atitude de criança.