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ODISSEIA: Hospitalidade é Coisa de Humano!

ODISSEIA: Hospitalidade é Coisa de Humano!


Neste trecho de uma discussão aprofundada sobre a obra clássica de Homero, examina-se como o conceito de hospitalidade na Odisseia vai muito além de uma simples recepção, funcionando como um reflexo das relações humanas e dos valores daquela sociedade.

Ainda sobre a hospitalidade, dificilmente gostaríamos de ler a *Odisseia* pensando em crítica social, mas o jeito que Homero retrata a hospitalidade na época dele também não seria uma maneira de denunciar práticas sociais já meio decadentes? Eu não consigo ver outra coisa a não ser isso, de tanto que ele insiste e vai dando exemplos. No caso aqui, por exemplo, temos a hipocrisia e a falta de cordialidade dos pretendentes. Eles estão usufruindo ali, mas é só para eles; quando chega um cara diferente, eles não querem nem saber. É curioso que todo mundo que chega é mais um concorrente para eles.

Mas não são só os humanos que têm relação com a hospitalidade — ou melhor, na verdade, são só os humanos que a praticam de fato, porque com os outros seres a coisa acontece de uma forma bem maluca. Como já vimos nos exemplos, a Circe frauda essa questão: ela oferece comida e transforma todo mundo em porco. A outra ninfa, que aprisiona Odisseu depois — a Calipso —, também tenta aprisionar em vez de ser hospitaleira. É quase um cativeiro. Ela segura o Ulisses na ilha dela por sete ou oito anos; a maior parte do período da *Odisseia* é lá, enquanto as outras passagens são mais rápidas, embora ele também passe um tempo com a Circe.

Outro caso em que falta a hospitalidade é com o Polifemo. Quando eles chegam à caverna e o ciclope descobre que estão comendo as coisas dele, já fica bravo e quer ir para cima. Os homens tentam remediar apelando para a hospitalidade, mas o Polifemo chega a falar que isso é coisa de humano, de gente que teme os deuses. Os ciclopes não temem os deuses, não ligam para eles, até porque são filhos de Poseidon e se acham superiores às divindades, como ele diz no Canto IX.

Portanto, cada criatura que vai aparecendo age de forma diferente. Não são só os deuses — no caso, citei duas ninfas, que são deusas de subnível —, mas também o ciclope e até os próprios deuses principais. Poseidon, por exemplo, muitas vezes simplesmente não recebe os homens em suas águas. É justamente daí que surge a necessidade da hospitalidade: como a Grécia era formada por um monte de ilhas e quase tudo funcionava em torno de viagens marítimas, os navegadores sofriam muito nos mares. Para amenizar esse sofrimento, socorria-se os forasteiros com a hospitalidade. Só que Poseidon não estava nem aí para isso, assim como as deusas menores, o ciclope e o deus dos ventos. Este último até ajuda Odisseu na primeira vez, meio que por uma rixa com Poseidon, mas quando Odisseu retorna para pedir ajuda de novo — após o problema com o saco de ventos —, ele o expulsa e vira praticamente seu inimigo. Realmente, a hospitalidade é uma instituição estritamente humana; ninguém mais liga para isso.