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A história que, segundo uma certa atriz, é datada e demanda alteração é a história da Disney. Porém, aquela, assim como tantas outras, são produto de uma interpretação também. O conto da Branca de Neve é dos irmãos Grimm, esses dois alemães que compilaram uma série de lendas e folclores. Diz respeito a uma rainha que, tricotando, feriu o dedo e deixou três gotas de sangue cair na neve. Sentada em uma janela cuja madeira era negra como ébano, a rainha achou aquele contraste tão lindo que desejou uma filha daquele jeito: branca como a neve, lábios vermelhos como o sangue e cabelo negro como ébano. Branca de Neve nasceu e a rainha morreu. O rei viúvo se casou e a história não conta mais nada a respeito dele.
A nova rainha vaidosa tinha um espelho mágico que lhe respondia a clássica pergunta: "Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?" "Não, minha rainha, sois de todas a mais bela". E o espelho era sincero. Mas quando Branca de Neve já era criança com 7 anos, o espelho mudou a resposta e dizia: "Ó, minha rainha, sois muito bela ainda, mas Branca de Neve é mil vezes mais linda". Foi o suficiente para a mulher se envaidecer toda e invejar a menina. E isso foi se acumulando com o tempo, até que decidiu que a garotinha tinha que morrer.
Por isso, ela contratou um caçador e ordenou que ele a matasse na floresta e trouxesse os pulmões e o fígado da menina para testemunhar o feito. E, de fato, o caçador quis matá-la quando a levou para a floresta. Mas, quando preparou o golpe, a menina suplicou e ele teve pena. Então a deixou partir, mesmo porque ela certamente morreria na floresta — teria cumprido o seu papel e não teria sido o algoz. Levou os órgãos de um javali. A rainha mandou o cozinheiro prepará-los e comeu.
Branca de Neve ficou perdida na floresta, mas as feras não a mataram. Quando a luz já deixava o céu, ela encontrou uma cabaninha. Sim, tem sete anões aqui também. E, diferente da adaptação da Disney, ela não arrumou a casa, nem cantou a princípio. Ela só estava faminta e cansada, então quis comer e descansar. E comeu um pouco de cada um dos anões para não pegar tudo de um só, e foi dormir em uma das caminhas, mas só uma lhe coube.
Algo interessante e que de fato merece grande reconhecimento é a personalidade trazida aos anões. Não é mencionado nome ou personalidade de nenhum deles nessa história original; eram diferentes, é claro, uma cama era larga, outra estreita, por exemplo, mas nada além disso. Ponto para a animação do Walt Disney.
Os sete encontraram Branca de Neve adormecida e resolveram não acordá-la. Eles admiraram a beleza da menina. Mas, ao amanhecer, Branca de Neve acorda assustada ao vê-los todos ali. Eles a acalmam e ela conta por que foi parar ali. Decidem que, se ela fizesse as tarefas domésticas, poderia morar ali com eles. E ela topa. Antes de irem trabalhar minerando, eles advertem: "Muito cuidado com sua madrasta. Ela vai descobrir logo que você está aqui. Não deixe ninguém entrar nunca."
E eles estavam certos. O espelho fofo, digo, eh, mágico, contou que Branca de Neve ainda vivia e deu detalhes de onde morava. Espelho, ela só perguntava se era mais bonita. Bastava falar: "Não, a Branca de Neve é mais bonita ainda. Senhora Rainha, tu és a mais linda que está aqui. Mas Branca de Neve, que já foi-se embora com os sete anões, na montanha onde mora, é mil vezes mais linda que todas as lindas que há por aí."
A rainha então meteu uma maquiagem para ficar irreconhecível e foi atrás da menina como uma vendedora ambulante. Encontrou a casa e apresentou-se como a tal vendedora. Branca de Neve, inocente, aceitou comprar um corpete colorido que a vendedora gentilmente ofereceu-se para apertar, mas apertou tanto que a sufocou. E a rainha disfarçada teve seu triunfo, deixando o lugar com a menina morta. Pelo menos é o que ela achou.
Os anões encontraram-na daquele jeito, cortaram o corpete e ela voltou a respirar. Ela contou o que aconteceu e eles reforçam a advertência contra a rainha. E a rainha, de volta ao castelo, foi conferir com o espelho se precisava matar mais alguém. E o espelho fofocou que Branca de Neve continuava a mais linda de todas. A rainha ficou mais pistola que o Craque Neto. "Eu sou… Eu é que sou culpada."
Dessa vez, envenenou um pente, disfarçou-se e foi atrás da menina de novo. Branca de Neve mandou a velha vendedora embora, pois não podia deixar ninguém entrar. A velha, ligeira, pergunta: "Mas você pode olhar, não pode?" É, funcionou. Quando a menina viu o pente, gostou tanto que quis usá-lo; a vendedora, também gentil, dispôs-se a penteá-la. A menina caiu mortinha e a rainha saiu correndo de volta para o castelo.
Essa parte do conto original parece muito besta e difícil de acreditar, mas temos que ter em mente que trata-se de uma criança, e todas as crianças são um pouco burrinhas. Todas. Elas são enganadas e gente perversa aproveita disso. Agora, rainha, rainha, para quem queria comer os órgãos da menina, não custava nada dar uma facadinha ali, só para garantir, né? Talvez vacilar na primeira vez, ok, possível, mas dessa segunda vez é difícil de engolir, viu? Você tem que me ajudar a te ajudar.
Mas enfim, Branca de Neve está viva e o espelho confirmou para a rainha, que já alcançou o nível de fúria ao borogodó. Os anões reforçam: "Menina, não deixa ninguém entrar! Escuta, Branca de Neve!"
Aí então faz a famigerada maçã envenenada e leva pra menina. Mesma ladainha. A menina recusa a deixar uma velha entrar na casa dela, mas a velha diz que está tudo bem, vai dar uma maçã pra menina e, para provar que não está envenenada, dá uma mordida. Só que a maçã era branca e vermelha e só a parte vermelha estava envenenada. A bruxa, é claro, mordeu a parte branca. Aí não teve jeito. Branca de Neve morreu.
Os anões nada puderam fazer e o espelho confirmou que a rainha voltou a ser a mais bela. Choraram por três dias e decidiram que enterrá-la seria muito cruel. Então construíram um caixão transparente, escreveram "Branca de Neve" com letras de ouro e deixaram no topo de uma montanha, sempre vigiando. E muito tempo se passou. Ela não se decompôs para salvar a moral do conto e algum bom senso. Eu imagino que, embora não tenha se decomposto, cresceu, não era mais a menina de 7 anos, porque senão é bizarro demais.
Eis que entra a figura do príncipe. Um dia ele passava pela floresta e decidiu pedir para pernoitar. Quando subiu à montanha para encontrar os donos do lugar, viu Branca de Neve e apaixonou-se. E quando passou a noite na casa dos anões, disse que queria comprar a qualquer preço e que cuidaria e honraria daquele caixão, deixando-o no castelo. Eles responderam que não venderiam por nenhum preço. Então ele pediu como presente e os anões deram. Ele mandou vir seus servos, que a levaram.
No caminho, um dos servos tropeçou em um arbusto e o solavanco desprendeu a maçã envenenada da garganta de Branca de Neve, que voltou a viver. Rapaz… bom, o beijo de despertar também não faz tanto sentido, mas a maçã envenenada tava travada na garganta. Por qual razão essa maçã não se decompôs? Enfim, ela acorda, o príncipe se declara, diz que quer casar com ela, ela aceita e eles decidem fazer um festão e chamar todo mundo, inclusive a rainha.
Mas por vingança? Se a animação da Disney para por aqui, o conto vai além e é a parte mais sinistra de todas. A rainha, antes de ir para a festa de casamento do príncipe, pergunta ao espelho se há alguma mulher mais bela do que ela. O espelho dessa vez deu uma fofoca pela metade — capaz de ele estar cansado da incompetência da mulher em matar uma criança. Ele só fala que ela é bela, mas a jovem rainha é mais bela ainda. Ou seja, ela ainda estava viva. A rainha, curiosa, vai lá conferir.
No final, passaram-se muitos anos e, chegando lá, elas se reconheceram assim que se viram. A rainha ficou aterrorizada, não conseguiu se mover e agora entra a parte macabra: os anões obrigaram a rainha a dançar com sapatos de ferro aquecidos na brasa, e ela dançou até morrer. Fatality. [Música]