O Anel dos Nibelungos (Ato 4 – 3/7)

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III – A traição a Brunhilde

No alto da montanha, Brunhilde está entregue também aos seus pensamentos, porém, muito diferentes daqueles que envenenam a mente ambiciosa do filho de Alberich.

Dentro de sua caverna, relembra os bons momentos que ela e Siegfried tiveram; seu dedo acaricia, inconscientemente, o anel que ele lhe deixara em sinal de amor, na esperança de que logo ele reapareça.

– Oh, Siegfried, quando voltará para os meus braços? – murmura ela, sem poder dizer ou pensar outra coisa desde que começou o seu longo e cruel exílio.

Siegfried partira há muito tempo, alegando que precisava “conhecer o mundo”. E, de fato, para um jovem como ele, seria impossível exigir-se outra coisa. Ele tinha a força de um deus em seus músculos e a mesma impetuosidade de seu avô. Tal como Wotan que, seguidas vezes, disfarçava-se de andarilho para percorrer o mundo e ver o estado no qual ele se encontrava, Siegfried também sentia este desejo. De resto, comum a qualquer jovem da sua idade. Só que ele ambicionava mais: queria sentir também o gosto da vitória, que já experimentara, pela primeira vez, ao derrotar o dragão. Este gosto e esta sensação, com efeito, não lhe saíam da memória desde então. Mas de que lhe adiantavam tais triunfos, pensava ele, se não havia ninguém para aplaudi-los? Siegfried esquecia-se, entretanto, de que já havia alguém para lhe aplaudir e admirar e que, para ele, esta deveria ser presença muito mais importante do que qualquer platéia mundana: a de sua amada Brunhilde, aquela que salvara a vida de sua mãe e a sua própria e cedera, tão gentilmente, aos seus apelos, quando ele a despertara de seu sono eterno.

Mas Brunhilde, por seu lado, era sábia o bastante para perceber que nem mesmo ela teria a força e o poder para impedi-lo de seguir o seu caminho; conhecer coisas novas e vencer novos desafios: coisa que ele jamais conseguiria, ali ao seu lado, levando uma vida paradisíaca, é certo, mas que, cedo ou tarde, acabaria se convertendo em fonte de atrito e frustração para as ambições de seu amado.

Brunhilde pensa em tudo isto quando, de repente, escuta o ruído de trovões.

Assustada, ela se ergue e vê, no alto, uma grande nuvem negra que se aproxima, velozmente, do topo da montanha onde está.

“Quem será que ruma para cá com tamanho estrépito?”, pergunta-se ela, já do lado de fora da gruta, com a mão em pala sobre os olhos.

Aos poucos, percebe que se trata de uma de suas irmãs, que cavalga pelas nuvens com a rapidez do vento até vir pousar onde ela está.

– Oh, é você, Waltraute!… – exclama Brunhilde, com a felicidade desenhada em seu rosto. – Que boa mensagem me traz? Trará, por acaso, o perdão de meu pai? Serei, outra vez, reintegrada à condição de valquíria?

Brunhilde não pode conter suas palavras, pois aspira isso desde o dia em que, por causa de sua desobediência, incorreu na cólera de Wotan.

– Infelizmente, minha querida irmã, as notícias que lhe trago são as piores possíveis!

– exclama Waltraute, com o semblante carregado.

– Como assim, o que houve?

– Nosso pai, Wotan, está prestes a mergulhar todos os deuses no caos e na ruína, e somente você poderá impedi-lo de cometer este ato insano!

Brunhilde fica atônita com a notícia a ponto de as cores fugirem de seu rosto.

– Mas por que está mergulhado neste desespero?

– Wotan abandonou o Valhalla há muito tempo e se tornou, desde então, um andarilho. Por muito tempo, esteve ausente, vagando sem rumo por muitos lugares até que um dia retornou ao Valhalla com sua lança quebrada!

– Sua lança Gungnir… partida?

– Exatamente!

Brunhilde não sabe ainda que fora Siegfried quem a quebrara no duelo que travou na floresta contra Wotan.

– Um herói a partiu, minha irmã! – diz Waltraute, inconsolada. – Desde então, Wotan entregou-se a um tal estado de prostração, que ordenou a seus guerreiros que destruíssem Yggdrasil, o freixo gigante, e empilhassem sua madeira diante dos portões do Valhalla. Loki aguarda apenas um sinal de Wotan para que faça suas labaredas arderem sobre o lenho empilhado, pondo um fim definitivo aos deuses e ao próprio mundo!

– Oh, Waltraute, isto é terrível!… Mas, o que posso fazer para impedi-lo de cometer esta loucura, se estou sob o peso de sua maldição? Que espécie de ajuda poderia prestar, se ele me exilou para sempre do seu convívio?

Waltraute a observa com um olhar agoniado e, ao mesmo tempo, carregado de esperança.

– Brunhilde, você tem o anel em seu poder! – exclama ela, ao olhar para o dedo da irmã. – Nosso pai disse-me que se as ninfas do Reno receberem devolta o anel, a maldição de Alberich estará encerrada e os deuses poderão voltar a viver em paz junto com os homens.

– Não…! o anel é meu!… – exclama Brunhilde, escondendo a sua mão. -Foi um presente que recebi de Siegfried e só eu e ele sabemos o quanto lhe custou para arrebatá-lo ao terrível Fafner! Por isto, jamais o devolverei.

– Brunhilde, ele é muito importante para Wotan!

– Ele é mais importante para mim! – exclama Brunhilde, escondendo o anel entre os seus dedos. – Ele representa o amor que Siegfried me devotou, valendo, portanto, muito mais do que o orgulho de Wotan e do Valhalla inteiro! Por causa do amor que dediquei aos pais de Siegfried, e depois a ele próprio, é que estou aqui encerrada; foi por ele que enfrentei a ira e o orgulho desmedidos de meu pai! Agora, ele deve esperar que seu orgulho salve o seu próprio mundo, pois este é um mundo do qual, há muito tempo, fui excluída violentamente!

Waltraute tenta argumentar de todas as maneiras, mas, agora, é a vez de Brunhilde mostrar-se irredutível: ela não devolverá jamais o anel que Siegfried lhe deu. A valquíria parte, então, amargurada, com a certeza de que tudo, em breve, vai se acabar numa gigantesca hecatombe de dor e fogo.

Brunhilde fica, outra vez, entregue a si mesma; diante da notícia de que o mundo está prestes a ruir, renova-se com maior força a saudade de Siegfried. Durante o resto do dia, ela permanece em seus devaneios amorosos, até que, como se fosse uma resposta, as chamas que cercam a montanha aumentam de intensidade.

– As chamas estão aumentando de intensidade! – grita ela, sem poder conter sua alegria. – É Siegfried quem retorna!

Um homem, de fato, acaba de transpor as chamas, mas ele não tem a aparência do amante, que ela ansiosamente aguarda. Caminhando firmemente, ele avança em direção a Brunhilde.

– Quem é você? – diz ela, assustada. – Você não é Siegfried.

O estranho não se identifica; em vez disso, diz, simplesmente:

– Vim aqui, Brunhilde, para tomá-la como minha legítima esposa!

O homem tem a mesma aparência de Gunther (embora não seja ele, mas Siegfried disfarçado, que vem cumprir a sua parte no acordo que fizera com o rei) e parece determinado a tudo para cumprir o que suas palavras prometem.

“É Wotan que o manda aqui para me punir!”, pensa Brunhilde, desacorçoada

– Não, fique longe de mim! – grita ela.

Mas o estranho aproxima-se cada vez mais e, num gesto abrupto, agarra um de seus braços.

– Não resista, bela mulher! – diz ele, numa voz disfarçada que, no entanto, soa vagamente familiar aos ouvidos da valquíria. – Se resistir, será pior para você!…

Brunhilde desvencilha-se com rapidez e corre até a entrada da gruta. Lembrando, então, do anel, ela retira-o do dedo e diz, num último fio de esperança:

– Afaste-se, maldito! Este anel é mágico e me protegerá!

Mas ela não sabe que um anel maléfico não tem o dom de proteger ninguém: sua única virtude é a de destruir.

Gunther (na verdade, Siegfried disfarçado) toma-lhe o anel da mão e diz:

– Esta jóia, agora, também me pertence, pois, a partir deste instante, eu, Gunther, da nobre casa dos Gibichungs, sou seu legítimo esposo!…

Depois de colocar o anel em seu próprio dedo, ele lhe dá um ultimato:

– Vamos, chega de resistência! Não me obrigue a violá-la!

Brunhilde, sem outro meio de defesa, vê-se na obrigação de seguir o rude homem até o interior da caverna. Siegfried, entretanto, traz consigo sua espada Notung. Antes de entrar na gruta com Brunhilde, ele ergue a sua espada e lhe diz, como se falasse a uma velha amiga e companheira:

– Notung, agora, você ficará entre mim e a noiva de Gunther para que eu não rompa meu acordo e o desonre, mantendo relações com sua noiva.

A noite já está descendo sobre a montanha. Brunhilde, sem saber, tem, finalmente ao seu lado, aquele pelo qual tanto tempo esperara.

IV- O engano é desfeito


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