No que diz respeito à qualidade do domínio e ao equilíbrio em situações difíceis, acredito que ela decorre mais de considerações hereditárias do que ambientais. Sua posse não pode ser adquirida através da cultura do indivíduo, embora a cultura sistemática de uma certa classe durante muitas gerações indubitavelmente tenda a fazer emergir tal força a um grau que fará com que essa classe produza uma média mais alta de indivíduos dominantes do que uma classe não cultivada de igual magnitude numérica.
Duvido que seja possível criar qualquer classe forte o suficiente para subjugar permanentemente um vasto corpo de inferiores, daí perceber a impraticabilidade do nietzschianismo e a instabilidade essencial até mesmo dos governos mais fortes. Não existe tal coisa — jamais existirá tal coisa — como um governo bom e permanente entre a corja rastejante e miserável chamada seres humanos. A aristocracia e a monarquia são as mais eficientes no desenvolvimento das melhores qualidades da humanidade, conforme expressas nas realizações do gosto e do intelecto; mas conduzem a uma arrogância ilimitada. Essa arrogância, por sua vez, leva inevitavelmente ao seu declínio e à sua derrocada. Por outro lado, a democracia e a ocrocracia conduzem com igual certeza ao declínio e ao colapso através da ausência de qualquer estímulo à realização individual. Podem talvez durar mais tempo, mas isso ocorre porque estão mais próximas do estado animal primal ou selvagem do qual o homem civilizado supostamente evoluiu em parte.
O comunismo é uma característica de muitas tribos selvagens; ao passo que a anarquia absoluta é a regra entre a maioria dos animais silvestres.
O cérebro do animal humano branco avançou a tal estágio que a igualdade incolor dos animais inferiores lhe é dolorosa e insuportável; ele exige uma luta individual por condições e sensações complexas que só podem ser alcançadas por poucos às custas de muitos. Essa exigência sempre existirá, e jamais será satisfeita porque divide a humanidade em grupos hostiles que lutam constantemente pela supremacia, ganhando-a e perdendo-a sucessivamente.
Quando há uma autocracia, podemos ter certeza de que as massas a derrubarão algum dia; e quando há uma democracia ou ocrocracia, podemos ter certeza de que algum grupo de indivíduos superior mental e fisicamente a derrubará algum dia, estabelecendo uma supremacia mais ou menos duradoura (mas nunca totalmente permanente), seja através do discernimento em colocar os homens uns contra os outros, seja através da paciência e da habilidade em concentrar o poder tirando proveito da indolência da maioria. Em suma, a organização social da humanidade encontra-se em um estado de equilíbrio perpétua e incuravelmente instável. A própria noção de coisas como perfeição, justiça e aperfeiçoamento é uma ilusão baseada em esperanças vãs e analogias exageradas.
Deve-se lembrar que não há razão real para esperar algo em particular da humanidade; o bem e o mal são expedientes locais — ou a falta deles — e de modo algum verdades ou leis cósmicas. Chamamos uma coisa de “boa” porque ela promove certas condições humanas fúteis de que por acaso gostamos — ao passo que é tão sensato presumir que toda a humanidade é uma praga nociva que deveria ser erradicada como ratos ou mosquitos para o bem do planeta ou do universo. Não há valores absolutos em toda a tragédia cega da natureza mecanicista — nada é bom ou mau exceto quando julgado a partir de um ponto de vista absurdamente limitado.
A única realidade cósmica é o destino sem mente e indeviável: a inevitabilidade automática, amoral e incalculável.
Como seres humanos, nossa única escala sensata de valores é aquela baseada na diminuição da agonia da existência. É mais digno de louvor o plano que mais habilmente fomenta a criação dos objetos e condições mais bem adaptados para diminuir a dor de viver daqueles mais sensíveis às suas devastações deprimentes.
Esperar ajuste perfeito e felicidade é absurdamente anticientífico e antifilosófico. Podemos buscar apenas uma mitigação mais ou menos trivial do sofrimento.
Acredito na aristocracia, porque a considero a única agência para a criação daqueles refinamentos que tornam a vida tolerável para o animal humano de alta organização.
Uma vez que o único motivo humano é um anseio por supremacia, nada podemos esperar em termos de realização a menos que a realização seja recompensada pela supremacia.
Não podemos esperar justiça — a justiça é um fantasma zombeteiro — e sabemos que a aristocracia tem muitos traços indesejáveis. Mas sabemos também — por mais triste que seja — que jamais poderemos abolir os males sem abolir tudo o que há de valioso para o homem civilizado.
Numa aristocracia, algumas pessoas têm muito pelo que viver. Numa democracia, a maioria das pessoas tem pouco pelo que viver. Numa ocrocracia, ninguém tem nada pelo que viver.
A aristocracia é a única capaz de criar pensamentos e objetos de valor. Todos, imagino, admitirão que tal estado deve preceder a democracia ou a ocrocracia para construir a cultura original. Menos pessoas estão dispostas a admitir a verdade correlata de que as democracias e ocrocracias meramente subsistem parasitariamente sobre as aristocracias que derrubam, esgotando gradualmente os recursos estéticos e intelectuais que a autocracia lhes legado e que jamais poderiam ter criado por si mesmas. A taxa de desperdício depende da completeza do afastamento da aristocracia. Onde o velho espírito persiste, o processo de deterioração pode ser muito lento de fato — com certas adições tardias compensando o declínio. Mas onde a chusma ganha pleno domínio, o gosto certamente desaparece, e a obtusidade reina escuramente triunfante sobre as ruínas da cultura.
Riqueza e luxo são essenciais tanto para a criação quanto para a plena apreciação da beleza e da verdade. De fato, é a existência da riqueza e do luxo, e dos padrões que eles estabelecem, que proporciona a maior parte do prazer sentido pelos não-ricos e não-luxuosos. As massas roubaram a si mesmas ao cortarem a verdadeira fonte daquele leve desfrute que obtêm, por assim dizer, por reflexo.
Quando, no entanto, louvo a autocracia, de modo algum me refiro a monarquias absolutas como a Rússia czarista ou a Alemanha kaiserista. A moderação é essencial em todas as coisas, e a autocracia política sobrecarregada produz uma infinidade de travas estúpidas à arte e ao intelecto. Um grau tolerável de liberdade política é absolutamente essencial para o livre desenvolvimento da mente; de modo que, ao falar das virtudes de um sistema aristocrático, o filósofo tem em vista menos um despotismo governamental do que um arranjo de classes sociais tradicionais bem definidas, como as da Inglaterra e da França.
A aristocracia governamental não precisa ir além de salvaguardar uma classe aristocrática em sua opulência e dignidade, para que ela possa ser deixada livre para criar os ornamentos da vida e atrair a ambição de outros que buscam ascender a ela.
A aristocracia mais saudável é a mais elástica — disposta a acenar e receber como acessões todos os homens, de quaisquer antecedentes, que provem estar estética e intelectualmente aptos para a filiação. Ela ganha, além disso, se seus membros puderem possuir aquela nobreza natural que se contenta com o reconhecimento de seu próprio valor e que demonstra sua superioridade em obras e comportamentos superiores, em vez de em discursos e atitudes snobs e arrogantes.
O verdadeiro aristocrata é sempre razoável, bondoso e afável para com as massas — é o novus homo incompletamente culto que faz ostentação de seu poder e posição. Contudo, em última análise, é fútil julgar qualquer tipo de ordem social, visto que todas não passam do resultado cego de um destino incontrolável e estão absolutamente além do poder de qualquer estadista ou reformador para alterar ou emendar.
Toda a vida humana é enfadonha, incompleta, insatisfatória e sadiamente sem propósito. Sempre foi e sempre será; de modo que aquele que busca um paraíso é meramente um joguete de mitos ou de sua própria imaginação.
A vontade e a emoção do homem anseiam por condições que não existem e jamais existirão, de modo que o homem sábio é aquele que mata a vontade e a emoção a um grau que lhe permita desprezar a vida e escarnecer de suas ilusões pueris e metas substanciais. O homem sábio é um cínico risonho; ele não leva nada a sério, ridiculariza a seriedade e o zelo, e não quer nada porque sabe que o cosmos não guarda nada que valha a pena desejar. E ainda assim, sendo sábio, ele não é nem um décimo tão feliz quanto o cão ou o camponês que não conhece vida ou aspiração acima do plano animal mais simples.
É bom ser cínico — é melhor ser um gato contente — e o melhor de tudo é não existir de jeito nenhum.
O suicídio universal é a coisa mais lógica do mundo — nós o rejeitamos apenas por causa de nossa cobardia primitiva e medo infantil do escuro. Se fôssemos sensatos, buscaríamos a morte — o mesmo vácuo afortunado que desfrutávamos antes de existirmos.
Não importa o que aconteça à raça — no cosmos, a existência ou inexistência da terra e de seus habitantes miseráveis é algo da mais completa indiferença. Arcturo brilharia de forma igualmente alegre se todo o sistema solar fosse varrido do mapa.
A indesejabilidade de qualquer sistema de governo não temperado com a qualidade da bondade é óbvia; pois a “bondade” é uma coleção complexa de vários impulsos, reações e percepções altamente necessários para a suave adaptação de criaturas remendadas e monstruosas como a maioria dos seres humanos. É uma fraqueza no fundo — ou, em alguns casos, uma ostentação de superioridade segura —, mas seu efeito líquido é desejável; portanto, é, no todo, louvável.
Uma vez que todos os motivos no fundo são egoístas e ignóbeis, podemos julgar atos e qualidades apenas por seus efeitos.
O pessimismo produz bondade. O filósofo desiludido é ainda mais tolerante do que o burguês idealista afetado, com suas noções sentimentais e extravagantes de dignidade e destino humanos.
“A convicção de que o mundo e o homem são algo que seria preferível que não tivessem sido”, diz Schopenhauer, “é de molde a encher-nos de indulgência uns para com os outros. Ela nos recorda aquilo que é, afinal de contas, a coisa mais necessária na vida — a tolerância, a paciência, a consideração e o amor ao próximo, de que todos necessitam e que, por conseguinte, cada homem deve ao seu semelhante.”