A Defesa Reabre!
Jan. de 1921
Ao responder às críticas desfavoráveis ao meu conto fantástico “Dagon”, devo começar admitindo que toda obra desse tipo é necessariamente direcionada a uma parcela muito limitada do público. A ficção divide-se geralmente em três grandes vertentes: romântica, realista e imaginativa. A primeira destina-se àqueles que valorizam a ação e a emoção por si mesmas; que se interessam por eventos marcantes que se conformam a um padrão artificial preconcebido. Esses leitores aceitam improbabilidades e inverdades psicológicas, e até mesmo acontecimentos objetivos altamente distorcidos, mas exigem um pano de fundo de literalismo. Os românticos são pessoas que, por um lado, desprezam o realista que diz que o luar é apenas o movimento de ondas refletido no éter; mas que, por outro lado, sentam-se estáticas e comovidas quando um *fantaisiste* lhes diz que a lua é um olho de pesadelo hediondo — a vigiar… sempre a vigiar… Dirão ao realista que ele se esquece da influência emocional do luar; mas serão incapazes de acompanhar subjetivamente uma concepção fantástica que envolva a criação de mitos, opondo-se, portanto, igualmente ao contador de lendas estranhas.
A segunda escola de ficção — o realismo que domina o público hoje — é voltada para aqueles que são intelectuais e analíticos, em vez de poéticos ou emocionais. É científica e literal, e ri tanto do romântico quanto do criador de mitos. Tem a virtude de estar próxima da vida, mas traz a desvantagem de cair por vezes no comum e no desagradável. Tanto o romantismo quanto o realismo compartilham a qualidade de lidar quase inteiramente com o mundo objetivo — com as coisas, em vez do que as coisas sugerem. O elemento poético está ausente. O romantismo apela à emoção, o realismo à pura razão; ambos ignoram a imaginação, que agrupa impressões isoladas em padrões suntuosos e encontra relações e associações estranhas entre os objetos da Natureza visível e invisível. A fantasia existe para satisfazer as demandas da imaginação; mas, como a imaginação é muito menos difundida do que a emoção e a razão analítica, decorre daí que tal gênero literário deve ser relativamente raro e decididamente restrito em seu apelo. Os artistas imaginativos têm sido poucos, e sempre desvalorizados. Blake é lamentavelmente subestimado. Poe jamais teria sido compreendido se os franceses não tivessem se dado ao trabalho de exaltá-lo e interpretá-lo. Dunsany não encontrou senão frieza ou louvores tíbios. E nove em cada dez pessoas nunca ouviram falar de Ambrose Bierce, o maior contista, com exceção de Poe, que a América já produziu. O escritor imaginativo dedica-se à arte em seu sentido mais essencial. Não é sua função criar uma bugiganga bonitinha para agradar às crianças, apontar uma moral útil, concoctar material superficial de “elevação moral” para o sobrevivente da era vitoriana, ou requentar didaticamente problemas humanos insolúveis. Ele é um pintor de estados de alma e de imagens mentais — um captador e amplificador de sonhos e fantasias indescritíveis — um viajante por aquelas terras nunca dantes vislumbradas que são perscrutadas através do véu da realidade muito raramente, e apenas pelos mais sensíveis. Ele é alguém que não apenas vê objetos, mas trilha todas as sendas bizarras de ideias associadas que os cercam e partem deles. Ele é o poeta das visões crepusculares e das memórias de infância, mas canta apenas para os sensíveis. Todos os estados de alma lhe cabe reproduzir, sejam claros ou sombrios. “Sanidade” e “utilidade” são para ele palavras desconhecidas. Ele espelha os raios que caem sobre si, sem indagar sua origem ou efeito. Ele não é prático, coitado, e às vezes morre na pobreza; pois todos os seus amigos vivem na Cidade do Nunca, além do pôr do sol, ou nos templos de pedra antigos de Micenas, ou nas criptas e catacumbas do Egito e de Meroé. A maioria das pessoas não compreende o que ele diz, e a maioria daquelas que compreendem protesta porque suas declarações e imagens nem sempre são agradáveis e, por vezes, parecem inteiramente impossíveis. Mas ele não existe para receber elogios, nem pensa em seus leitores. Compete-lhe apenas pintar as cenas que desfilam diante de seus olhos.
Ora, longe de mim reivindicar a honra de ser um verdadeiro artista imaginativo. Cabe-me apenas o privilégio de admirar do abismo da mediocridade, e de copiar à minha maneira débil. Mas o que disse sobre a literatura imaginativa pode ajudar a explicar o que estou tentando fazer de maneira frágil e fracassada. Pode explicar por que não etiqueto meus contos com morais de cartilha nem tento confinar os eventos a acontecimentos alegres e cotidianos de irrepreensível probabilidade. Quanto à crítica — peço apenas que meus revisores observem a lei básica de seu ofício: uma comparação entre a intenção e a realização. Ninguém tem mais consciência do que eu da inadequação do meu trabalho. Nada me exaspera mais do que o fracasso de meus produtos escritos em duplicar as visões e os pesadelos que jazem por trás deles. Sou um amador confuso confesso, e não tenho muitas esperanças de melhora — mas as visões clamam por expressão e preservação, então, o que se há de fazer?
Entrando em detalhes — a Srta. Taylor diz que “Dagon” ‘não desperta qualquer tremor responsivo de horror ou repugnância’ nela. Um articulista do *American Amateur* de setembro, referindo-se aos meus esforços, disse:
“Lembro-me de que numa noite deixei a lua brilhar em meus olhos porque tive medo de me levantar e puxar a cortina após ler uma de suas histórias — ‘Dagon’, creio eu.”
“Quem há de decidir, quando os médicos divergem?” Eu pinto o que sonho, e deixarei que o público resolva o resto entre si! Sobre o fundo do mar — deve-se usar a imaginação ao retratar o efeito de um cataclismo oceânico. A essência do horror é o antinatural. A ideia de uma rocha caminhando não é necessariamente repulsiva, mas em “Os Deuses da Montanha”, de Dunsany, um homem diz, com enorme terror e repugnância: “Uma rocha não deve caminhar ao anoitecer!” Ao avaliar o efeito do fundo do mar sobre o homem em “Dagon”, devemos lembrar que este acaba de ser erguido sob seus pés por alguma força misteriosa — erguido antinaturalmente de seu sono secular na escuridão das águas ancestrais — e que se estende ao redor dele tanto quanto a vista alcança. Ele desconhece sua extensão — tudo é dúvida, espanto e mistério antinatural. Esse homem talvez não temesse ver a maré baixar na praia de sua terra natal; mas, sob as circunstâncias do conto, é provável que seja um marinheiro — ou comissário de bordo, para aceitar uma correção brunoniana — bastante aterrorizado. Provavelmente a pior coisa seja a solidão na imensidão estéril. Isso já descompensou mais de uma mente. Quanto aos peixes — a suposição está correta. O terremoto matou alguns, e os demais pereceram por falta de água assim que o leito oceânico emergiu para a atmosfera.
O Sr. Brown mostra-se ‘indiferente à realidade’ de “Dagon”, visto que lhe parece inteiramente impossível. Em resposta, eu diria que o realismo não era o efeito desejado, embora em eras geológicas passadas grandes extensões de terra tenham tanto emergido quanto submergido sob as ondas. Recordar-se-á o Sr. Brown da lenda da “Atlântida”? Escrevi uma longa história sobre esse tema. Quanto ao leito oceânico — terei de discordar do Sr. Brown, convocando os fatos da geografia física em meu auxílio. O fundo do mar profundo é liso e monótono — uma planície ondulada com escassos acidentes topográficos. Não há vida — a pressão da água é excessiva —, mas há um depósito de “lama” constituído pelas minúsculas conchas de organismos marinhos simples que vivem perto da superfície. Um fisiógrafo — para escolher um livro quase ao acaso em minhas estantes — afirma:
“A monotonia, a sonolência e a desolação das partes mais profundas dessa paisagem submarina mal podem ser compreendidas. Os distritos terrestres mais estéreis devem parecer diversificados quando comparados à vastidão de lama que cobre as partes mais profundas do oceano.”
As condições de águas rasas não se aplicam ao mar profundo.
Por que o herói de “Dagon” haveria de desejar escapar dos alemães se estivesse sendo bem tratado? Por um lado, ele poderia preferir as chances de um resgate às certezas de um campo de prisioneiros huno ao fim da viagem.
A observação da Srta. Fidlar de que os horrores da guerra esgotaram a capacidade do mundo de absorver novos horrores pode ser respondida de duas maneiras: (1) Não escrevo para nenhuma época em particular — escrevi tanto antes da guerra quanto depois, e “Dagon” foi escrito por volta de meados dela. (2) Os horrores físicos da guerra, por mais extremos e sem precedentes que sejam, dificilmente guardam relação com o reino inteiramente diverso do terror sobrenatural. Fantasmas continuam a ser fantasmas — a mente obtém mais arrepios de irrealidades do que de realidades!
A crítica do Sr. Bullen é grandemente apreciada, e fico contente que o pobre “Dagon” não tenha entediado a todos! Ele superestima um tanto o elemento didático — a exemplo de Dunsany, protesto que, salvo em raríssimos casos, não tenho a menor intenção de ensinar. A história vem primeiro, e se alguma filosofia se infiltra, é por acidente. “O Navio Branco” foi uma exceção. Quanto às críticas — o herói-vítima é sugado até a metade na lama, mas ele rasteja! Ele se arrasta pela lama detestável, por mais tenazmente que esta o agarre. Eu sei, pois sonhei com todo aquele rastejar hediondo, e ainda consigo sentir a lama a me sugar para baixo! É possível que minha descrição tenha carecido de clareza. Quanto à expressão “plenitude da calmaria” — quero enfatizar uma condição peculiar equiparável apenas àquela presente em “Silêncio: Uma Fábula”, de Poe, e também equilibrar a frase “homogeneidade da paisagem”. “Certail” é um erro de estenografia — assim como a omissão do “l” em Piltdown, que meus críticos deixaram passar. As sugestões a respeito da palavra duvidosa *cientista* e da expressão “baleias e afins” são boas, e serão atendidas caso a história venha a ser republicada.
O Sr. Munday indaga a razão de ser de “Dagon” — eu a revelarei: pura e simplesmente reproduzir um estado de alma. Seu objetivo é o mais simples em toda a arte: o retrato. (Preciso ler “Os Treze Sinistros”. O Sr. Munday leu “Pode Acontecer Coisa Semelhante?”, de Ambrose Bierce?)
Fico contente que vários tenham gostado de “Velho Natal”. Oxalá a Srta. Taylor e o Sr. Bullen estivessem certos sobre eu ser um poeta, mas devo renunciar com pesar a tal distinção. “Velho Natal” é um ensaio rimado — verso leve, beirando o caprichoso. Quanto à impossibilidade poética de vocábulos como *gastronômico* e *patriarcal* — plenamente concedida! Mas a investigação da poesia georgiana e da era da Rainha Ana revelará a fonte primordial da venerável tradição que sigo. Regozijo-me com o fato de que o Sr. Bullen, um nativo da Mãe Pátria, ache minhas descrições razoavelmente precisas. Um recluso por excelência, que pouco vê de qualquer parte do mundo, tende a estabelecer sua morada imaginativa em qualquer ponto onde repouse seu principal interesse, desimpedido pelas condições da geografia real. Como devoto do passado, li naturalmente mais livros ingleses do que americanos, e senti profundamente o encanto daquelas cenas e eventos entre os quais a estirpe da minha raça foi moldada e desenvolvida; de modo que minha concepção de lar e de beleza natural passou a gravitar em torno daquele solo em que paira a esmagadora maioria das associações ancestrais —
“Este torrão abençoado, esta terra, este reino, esta Inglaterra.”
Os cenários de meus contos — ou aqueles que não se relacionam a regiões imaginárias — situam-se em proporções aproximadamente iguais na Inglaterra e na América. Algum dia copiarei para o *Circulator* meus vários versos sobre a América e a Inglaterra, publicados em periódicos amadores de ambos os lados do mar. Um deles apareceu na (profissional) *National Magazine* de Boston, e me rendeu uma proposta (ainda que inexequível) da editora de livros Sherman, French, & Co.
Por último, tocarei nas menções a meu respeito feitas nas Notas do Condutor. Confio em que a descrição lisonjeira do Sr. Bullen não leve os diversos membros a esperarem de mim mais do que posso fornecer, pois sou por demais desmerecedor de tal encomio. Minhas produções imperfeitas falam mais alto do que o elogio de um condutor benévolo!
No que diz respeito às objeções de Wickenden às minhas visões filosóficas, receio não poder ficar tão impressionado quanto deveria, visto que a maioria dos pontos pelos quais sou atacado são, na verdade, questões de linguagem e não de crença. O Sr. Wickenden zomba de maneira pretensiosa do meu uso da palavra “saber”, quando é claro que tal palavra foi empregada com pleno reconhecimento das dificuldades metafísicas e epistemológicas envolvidas. É a única palavra adequada, embora qualquer usuário filosófico dela deva admitir que ela é amplamente relativa. E o Sr. Wickenden esquece que a ausência de um conhecimento certeiro milita tão fortemente contra o teísmo dogmático quanto contra o ateísmo dogmático; ou melhor, sem chegar a esquecê-lo, ele o utiliza como propaganda para um conjunto de opiniões muito menos intrinsecamente prováveis do que aquelas que ele despacha como não comprovadas. Não se deve levar muito a sério a depreciação dos líderes científicos que liquidaram o teísmo no século dezenove — mas talvez o excesso de elogios que receberam por parte de muitos justifique ou explique uma reação impulsiva contra eles. Eles certamente não eram semideuses, nem mesmo inovadores no sentido último. O materialismo tem representado a atitude mais ponderada do homem desde os dias de Leucipo e Demócrito, e foi a fase central da escola epicurista. Contudo, Darwin, Huxley, Haeckel e Spencer prestaram um vasto serviço ao preencher os detalhes, sistematizar e expor. Seus resultados não eram necessariamente perfeitos, pois a imprecisão permeia todas as especulações; contudo, dizer que foram “superados” ou “derrubados” é pura tolice. É impossível produzir quaisquer descobertas subsequentes que controvertam seus princípios fundamentais. A ciência moderna sondou mais fundo, mas essa sondagem não aboliu os princípios. Há uma diferença entre uma teoria desenvolvida e uma teoria derrubada. A teoria atômica de Dalton, por exemplo, não é perturbada pela recente subdivisão do átomo. A etimologia da palavra fica embaraçada, mas, no que tange à realidade do “átomo” como unidade química, pouquíssima coisa aconteceu. Os “átomos” existem e se combinam tal como Dalton descobriu. É apenas no caso da radioatividade que nos deparamos com os resultados do desenvolvimento.
Ao lidar com os valores relativos da razão e da intuição, o Sr. Wickenden é igualmente sofístico. A evidência comum lhe mostra que a intuição é tão propensa a ser falsa quanto verdadeira — que ela é tão propensa a conduzir a erros subsequentemente demonstráveis quanto a fatos, e que a emoção está intimamente a ela allied [aliada]. Ele sabe que tanto a intuição quanto a emoção são erráticas, irregulares e frequentemente completas contradições; que dependem de desejos e esperanças individuais facilmente explicáveis em bases materialistas, e que inspiram alucinações óbvias com a mesma frequência com que produzem convicções sensatas. Um lunático é César ou Napoleão porque suas intuições lhe dizem isso? Ao contrário da insinuação habilmente introduzida pelo Sr. Wickenden, a emoção e a intuição SE “encaixam no meu belo padrão simétrico”. Seria impossível conceber o desenvolvimento do intelecto a partir das funções neurais primitivas de organismos inferiores sem a existência desses estágios intermediários. Eles não devem ser ignorados, pois fornecem uma luz importante sobre todos os problemas biológicos e filosóficos. A única coisa imprudente é aceitar suas evidências confessadamente variáveis, contraditórias e nebulosas como determinantes de fatos em oposição à lógica genuína e à razão, cuja consistência rígida e confiabilidade em todos os campos não podem ser disputadas. Um homem pode num dia sentir que existe uma divindade e noutro dia sentir que não existe nenhuma. Um árabe pode sentir que Maomé é o único profeta verdadeiro ao mesmo tempo em que um inglês sente que Cristo o é. Mas nenhum desses homens pode possivelmente divergir quanto à existência de terra e água, ou à sucessão das estações. A razão jamais falhou. A intuição e a emoção falham constantemente. Eis aqui uma forte evidência circunstancial!
O Sr. Wickenden pergunta como eu “sei” que o esquecimento nos aguarda. Novamente aquela objeção desnecessária a uma palavra que não possui significado literal e que, portanto, é permissível neste caso. Em resposta, é claro, eu teria de dizer que, embora nada na existência seja certo, certamente não há fundamento para uma noção tão absolutamente extravagante e contrária à probabilidade quanto a da imortalidade. Não temos razão para pensar que os fenômenos da consciência e da personalidade possam surgir de algo senão da evolução orgânica complexa, ou que possam existir separados da matéria orgânica complexa. Toda a experiência nos ensinou que a consciência e o cérebro orgânico são inseparáveis. Um golpe na cabeça pode extinguir as qualidades da consciência e da personalidade enquanto o corpo e alguns instintos simples continuam a vegetar. A pessoa está morta. Onde ela está — no céu? E onde estávamos antes de existirmos — de onde veio a “alma imortal”? Da mesma forma, uma vez que a noção de “alma” e immo