Não se pode questionar o patriotismo demonstrado pelo *Journal and Bulletin* em sua recente série de editoriais visivelmente alarmados contra as implicações do “New Deal” da América. Nomes proeminentes, abstrações ressonantes e slogans políticos herdados são fatores potentes em um determinado tipo de formação de opinião; e uma síntese de imagens que inclui Thomas Jefferson (a quem os hamiltonianos de nossos dias invocam com tanta devoção), “o sistema americano histórico”, “o caráter robusto e a profunda sabedoria dos fundadores”, “a democracia liberal”, “o controle do indivíduo sobre seu destino”, “a lei econômica”, “o financiamento sólido”, a pura e simples “liberdade”, e outras velhas certezas é, reconhecidamente, difícil de ser resistida por um bom tradicionalista escolar — especialmente se ele por acaso representar a oligarquia têxtil complacente que sempre floresceu (apesar de agruras irrelevantes e inanição incidental em outros lugares) em meio a esta forma robusta de liberdade humana.
Tal preocupação altruísta com a liberdade não é novidade alguma. Em meados do século XVIII, muitos americanos prósperos que haviam se dado bem sob um sistema colonial ditado pelas condições distintas de experiências anteriores estavam ansiosamente prontos para fazer ecoar a citação do *Journal* de que “grandes reinos só se mantêm com os mesmos meios pelos quais foram criados”; e para apontar, assim como o *Journal*, que o país (apesar de muitos incidentes de indicações absurdamente contrárias) “não viu necessidade de remodelar a forma fundamental de suas instituições no espaço de cinco gerações”. É evidente que eles eram igualmente devotados ao tipo de caráter individual moldado por seu sistema político especial, e que imaginavam firmemente que todos os súditos decentes estavam com eles. Diante da agitação de radicais selvagens e adeptos do *New Deal* — um mero acadêmico e […] como o Dr. Franklin, arrivistas mal informados e sem âncora como Patrick Henry, Samuel Adams e James Otis, e políticos astutos em solo pátrio como William Pitt e Edmund Burke —, esses aristocratas sólidos teriam compreendido o *Journal* hoje quando este prega: “Uma tentativa está sendo feita agora por pessoas em autoridade para colocar este país no caminho da pecuarização e do controle em violação à tradição americana. À medida que a percepção do que está acontecendo desperta no povo, a resistência se torna mais forte. É nossa firme crença que os americanos não querem esse caminho”, e assim por diante.
O paralelismo é assustadoramente exato. Entre 1776 e 1778, os coloniais que haviam perdido de vista a relação do surgimento de seus problemas com as forças destrutivas das guerras franco-indígenas, e que, confiando [não apenas na] economia e no esquema das coisas, mas também nas oportunidades de reforma e progresso, bem como de recuperação, que jaziam no caminho da ordem antiga, foram brindados filantropicamente com um guia admirável para o pensamento tradicional sólido — o qual tomou a forma de uma propaganda de imprensa nada diferente da campanha atual do *Journal*. O Sr. Ambrose Serle, um Subsecretário de Estado para as Colônias que viera para a América em 1774, assumiu o comando dos jornais de Nova York em um esforço para mostrar ao povo que “falsa concepção” subjazia à sua “ideia de que o mundo inteiro havia mudado” e de que um *New Deal* era necessário. Ele antecipou a substância, senão o tom literário, do grito de seu futuro colega: “Não acreditamos que a natureza humana seja suscetível a tal mudança. Acreditamos que o plano americano de vida era sólido. Reconhecemos suas faltas graves e gostaríamos de ver a tentativa de remediá-las. Mas não acreditamos que o remédio seja encontrado em uma reformulação completa de nossas instituições políticas e de nossa base filosófica de vida.” Assim como os republicanos jeffersonianos de nossa dinastia local proprietária de moinhos, ele achava que a substituição de qualquer nova regra pela dos eupátridas existentes era um golpe blasfemo contra os direitos humanos; Shrudway [?], em sua carreira, corporifica essa crença no panfleto hoje escasso impresso em Londres em 1775: “Os Americanos Contra a Liberdade; ou, um Ensaio sobre a Natureza e os Princípios da Verdadeira Liberdade, mostrando que os Projetos e a Conduta dos Americanos tendem apenas à Tirania e à Escravidão.”
Há algum conhecimento geral sobre a extensão limitada em que essa propaganda mais antiga surtiu efeito, portanto, não é provável que o *Journal* esteja muito esperançoso quanto ao seu próprio ataque estilo Canuto (ou, como B. K. H. poderia dizer, partritoniano) contra as ondas do sentimento popular. Os Spenglers das Ruas Westminster e Eddy, quaisquer que sejam seus ideais nostálgicos, dificilmente repetirão em privado seu gesto público de confundir os desejos da minoria proprietária que representa “os negócios” com os desejos do povo americano como um todo. De fato, o temperamento levemente frenético dos editoriais recentes trai mais do que um pressentimento de sua percepção real.
Quais são, então, os fatos reais a respeito da situação econômica atual e da atitude do povo americano em relação a ela? Antes de mais nada, não tentemos imaginar qualquer pessoa imparcial como cega para a verdade de que as condições sociais e industriais básicas estão, de fato, profunda e irrevogavelmente mudadas. Sabemos, apesar das cortinas de fumaça inteligentes dos defensores da propriedade, que os “pais fundadores” viviam em um mundo infinitamente diferente do nosso; um mundo de recursos escassos, produção lenta, comunicação difícil e ideias sociais e administrativas cegas e empíricas. Em tal mundo, não havia recursos suficientes para todos na população, enquanto a produção do que existia envolvia o trabalho de todo o povo, à exceção de classes parasitárias sancionadas pela tradição. Diferentes regiões não eram interdependentes, e os processos lentos e escassos da agricultura primitiva e do artesanato permitiam que virtualmente todos encontrassem um mercado para o que produziam. Qualquer número de pessoas separadas podia competir na mesma linha sem séria invasão mútua.
Aqui estava um conjunto de condições reais a serem enfrentadas de maneira realista, e é provável que Thomas Jefferson (cuja filosofia real era antipática à de nossos hamiltonianos modernos de Monticello) tenha lidado com elas da maneira mais sensata possível. Se há alguma “grande tradição americana” ou “filosofia unicamente americana” que prescinda de platitudes demagógicas e plutocráticas, é exatamente isso — lidar racionalmente com qualquer conjunto de condições reais que possa existir em qualquer período, tendo como objetivo o benefício de toda a população — e não apenas da parte mais afortunada ou mais naturalmente aquisitiva dela. Jefferson não era tolo a ponto de imaginar que as condições possam ser sempre as mesmas, ou que qualquer política específica possua um valor intrínseco quando deixa de fazer aquilo para que foi criada. É outra escola que eleva certas tendências econômicas temporárias a “leis” econômicas eternas e inimitáveis, e que reivindica alguma eficácia mística contínua para vários métodos fixos muito tempo após o total desaparecimento do estado de coisas ao qual eram aplicáveis.
O que é realmente permanente na fibra e nos costumes de uma nação não são, em detalhes, as ações do grupo, mas o que ele deseja e quão engenhoso é para obtê-lo, quaisquer que sejam as condições circundantes e os processos que elas porventura exijam. No caso dos Estados Unidos, as “formas usuais, espirituais e institucionais que tornaram o caráter de um povo grandioso e que devem ser cultivadas e preservadas” não são tipificadas por um certo curso liberal de aquisição *laissez-faire* que outrora foi eficaz, mas que agora é mero disfarce para a apropriação de oitenta por cento dos recursos comuns por dois por cento da população. Elas são, antes, tipificadas pela resolução que sustentava o curso pragmático do Sr. Jefferson no momento — dar a toda a população a chance de adquirir uma parcela decente da riqueza do país e derrotar qualquer obstáculo a essa partilha. Aquele que quiser seguir a verdadeira tradição nacional fará o que o próprio Jefferson faria em circunstâncias semelhantes — e não o que ele por acaso fez em outras circunstâncias.
Não há necessidade de minimizar o tipo geral de caráter que se desenvolveu sob as primeiras condições americanas de recursos escassos, isolamento e competição pessoal na agricultura primitiva e no artesanato. Embora possamos muito bem questionar se outros modos de treinamento não poderiam produzir igual vigor e engenhosidade, podemos nos dar por satisfeitos com o vigor e a engenhosidade produzidos. E se tendemos a criticar a peanha das qualidades meramente aquisitivas, e o espírito feio de crueldade que prevalece sob tais condições de incessante luta material e escassez de vida, devemos lembrar que nenhuma outra condição era possível no tempo e no lugar dados. Nosso único erro seria idealizar, *per se*, este tipo peculiar de caráter e as influências que o moldaram — negar que suas virtudes pudessem ser alcançadas de outra forma, ficar totalmente cegos para seus defeitos e fantasiar que mesmo suas virtudes merecem o sacrifício de todo o resto. Ele cumpriu sua função. Pode muito bem sobreviver e servir no futuro. Mas americanos sensatos sabem que a preservação desse temperamento exato é um assunto muito menos importante do que alimentar todo o povo e garantir que os canais de emprego honroso permaneçam abertos para ele — por meio de regulamentação governamental e até mesmo de propriedade coletiva e operação sem fins lucrativos, se isso [não] pudesse ser feito de outra forma.
O tempo para floreios tradicionais sentimentais já passou. As pessoas não apoiarão uma ordem social que não lhes dê nenhuma chance de participar de seus frutos. Uma população inteira trabalhando e comendo de acordo com uma economia planejada é algo mais nobre e mais americano do que um núcleo limitado de “velhos individualistas robustos” prosperando [enquanto] uma minoria empregável em expansão definha ou morre de fome em um auxílio governamental degradante. A administração anterior de irados[?] hamiltonianos vestidos à jeffersoniana relutava até em conceder o auxílio, preferindo uma política de inanição em prol de um princípio abstrato… mas os americanos mostraram o que pensam dessa administração.
Mas, é claro, a sofística mais absurda e inexcusável é aquela que obscurece deliberadamente os fatos e finge que uma ordem racionalmente planejada destruiria as chances de progresso pessoal do indivíduo… como se nosso diabólico ‘Cérebro Eletrônico’ (ou *Brain Trust*) estivesse concebendo um sistema pelo qual estivadores, professores, cambistas, artistas, engenheiros, especialistas tecnológicos, médicos, descarregadores de carvão, advogados, encanadores, administradores, executivos, operadores de elevador e editorialistas recebessem um retorno precisa ou aproximadamente igual por hora ou dia por seus serviços na forma de vales-alimentação ou certificados. A ingenuidade de tal suposição deveria ser óbvia para qualquer leitor são — e, de fato, um leitor com qualquer grau de reflexão também perceberá que nenhum sistema de remuneração poderia ser menos justo ou racional do que aquele que ora existe. As qualidades que na ordem antiga permitiram que alguém “chegasse lá” do “nobre estilo americano” incluem muitas das mais reprováveis de toda a natureza humana — ganância, astúcia rasteira, crueldade, duplicidade e outras coisas — e excluem algumas das mais admiráveis. Quem pode idealizar sensatamente um sistema que mantém muitos professores universitários em semi-[pobreza] enquanto concede excedentes desnecessários de recursos e quotas perigosas de poder a comerciantes grosseiros, malabaristas de dinheiro e parasitas que nada contribuem para a sociedade?
Não que esse estado de coisas possa jamais ser totalmente corrigido — mas simplesmente que não precisamos lamentar sua possível modificação. É favas contadas que uma ordem social racionalizada graduaria as recompensas para ajustá-las à qualidade e à extensão do serviço. Os capazes e fiéis ganhariam muito; os incasazes e indolentes ganhariam pouco. Trabalhadores dispostos estariam acima da compulsão — e quem se ressentiria da aplicação de compulsão, se julgado melhor, aos vagabundos voluntários? O que estaria ausente seriam os excedentes financeiros absurdos e desnecessários hoje possuídos pelos afortunados e pelos rapazes capazeis de adquirir — aqueles excedentes que significam poder oculto e que, desde a aurora da era das máquinas até o New Deal, fizeram de nossa república nominal uma mera ferramenta da indústria e das finanças rapazes. Não é de admirar que os detentores desse poder injustificado — que paliam sua política agora com espetaculares caridades e serviços públicos — lutem cega e amargamente contra todas as tentativas de instalar uma ordem mais justa. Não se os culpa — mas também não se presta mais muita atenção neles.
A negação por parte dos nossos reacionários de que qualquer mudança tenha ocorrido desde os dias da constituição de 1789 é realmente por demais ridícula para ser refutada. Qualquer um com meio olho pode ver o que aconteceu e o que ainda está acontecendo; como o mundo de recursos escassos, produção lenta, comunicação difícil e sociologia e administração empíricas e cegas deu lugar a um mundo com recursos infinitos embora não distribuídos, produção e duplicação sem limites com um mínimo de trabalho, obliteração completa de fronteiras através da comunicação rápida, e um conhecimento social e técnica administrativa alterando toda a nossa abordagem em relação ao homem e seus problemas. Que política precisa de cento e quarenta e cinco anos atrás, sobrevivendo de outro mundo, pode lidar com este vórtice fervilhante de condições sem precedentes?
Sabemos que, por meio das máquinas, toda a relação básica entre o indivíduo e a indústria foi radical e irrevogavelmente metamorfoseada; que sob um sistema de *laissez-faire* a empresa e a resistência podem, a partir de agora, render recompensas apenas a uma seção escolhida do povo, enquanto milhões permanecem permanentemente empregáveis. Sabemos que a organização em grande escala, cobrindo distâncias, concentrou todos os mercados em poucas mãos potentes, e que essas mãos são as verdadeiras forças governantes da república “livre” tão hipocritamente endeusada por seus possuidores. Sabemos que essa centralização de riqueza e poder resultou na opressão indescritível e na fome de milhões de infelizes — e isso nos tempos mais prósperos. Não é meramente a depressão que provou que a ordem moribunda é inviável. E sabemos que os detentores privados da riqueza e do poder desnecessariamente concentrados nunca retificarão voluntariamente as condições que sua cobiça desfrutada por lucro cria. Eles tiveram sua chance e falharam. Portanto, a única coisa que resta a fazer é regulá-los por meio da pressão de toda a ordem social. O que a sociedade lhes permitiu passivamente [fazer] no passado, a sociedade deve controlar e modificar no futuro.
É claro que qualquer mundo de máquinas entregue ao controle de interesses estabelecidos (e quão hipócrita é chamar tal mundo de um mundo de “individualismo livre”!) jamais será capaz de oferecer emprego a toda a população; jamais, ou seja, tornará possível que um homem sinta que seu trabalho voluntário certamente lhe garantirá comida e abrigo. É moda entre os apologistas plutocráticos provar [?] esta condição como um louvável fortalecimento da fibra nacional. “Não desejamos ser mimados por agências governamentais quando nosso próprio esforço falha.” E se alguns milhões morrerem? Os sobreviventes serão exemplos muito melhores da “viril tradição americana de luta e competição”! Infelizmente para os plutocratas e seus apologistas, o povo americano não busca um grau tão elevado de distinção lacedemônia através do martírio quanto seus definidores autoproclamados e idealizadores ostentatórios fariam crer. Pelo contrário, consideram muito melhor comer e ser homens de carne e osso do que passar fome e ser semideuses abstratos. Daí o voto de 8 de novembro de 1932 contra os exemplares assentados da doutrina de Menênio Agripa.
Sabemos hoje que nada restaurará a condição pré-máquina de emprego razoavelmente universal, exceto uma alocação artificial de horas de trabalho que envolva o uso de mais homens do que antes para realizar uma determinada tarefa. Homens endurecidos da “fibra americana tradicional” dificilmente conseguem empregos quando nenhum resta, e dificilmente podem depender das aberrações esporádicas do consumo de luxo sob vendas forçadas que ocasionalmente criam novas demandas de produção de magnitude de gota no oceano. Os empregos devem ser espalhados, e o pagamento de cada um não deve cair abaixo de um salário de subsistência, não importa quanto lucro isso destrua. É mais importante espalhar empregos com salário de subsistência do que assegurar lucro à indústria privada. Se a indústria não suportar a redução, ela deve deixar de ser indústria privada. “Negócios” é uma abstração digna da adoração de ninguém. A função primária da sociedade, apesar de toda a sofística gerada pelo egoísmo, é dar aos homens melhores condições do que poderiam obter sem ela; e a necessidade básica hoje é de empregos para todos — não de “propriedade” para alguns poucos afortunados e aquisitivos. Pode-se acrescentar, é claro, que o seguro-desemprego