A discussão parte da ideia de que a expressão “deus ex machina”, usada tanto na literatura quanto no cinema para designar uma solução inesperada e improvável que surge do nada, teria raízes na própria obra de Homero. O objetivo é analisar como esse recurso aparece na Ilíada e se ele realmente nasce do teatro grego ou já estava presente nos mitos homéricos.
Mateus já havia comentado, no início da live, sobre esse tema. A expressão “deus ex machina” refere‑se a uma solução que o autor introduz na trama de forma quase divina, sem construção prévia na narrativa, deixando o leitor ou espectador insatisfeito porque parece arbitrária ou aleatória, sem base lógica ou orgânica. Originalmente, o termo vem do teatro grego, onde, em algumas peças, uma figura divina era literalmente baixada ao palco por meio de um guindaste para resolver uma situação complicada da trama, como salvar o herói. Essa intervenção era percebida como estranha, quase “unim”, mas acabou se tornando um recurso recorrente.
A questão, então, é se essa prática tem, ao menos, influência homérica. Não se pode afirmar categoricamente que Homero a emprega de forma sistemática, mas há exemplos que sugerem a presença desse recurso. No início da Ilíada, por exemplo, ocorre o duelo entre Páris e Menelau, no qual os dois fazem um juramento: quem vencer ficaria com Helena e os tesouros. Quando Páris perde, ele está no chão, prestes a ser morto por Menelau, que o segura com o elmo. Nesse momento, Afrodite intervém do nada, corta a cinta que prende o elmo e salva Páris, retirando‑o da luta. Da mesma forma, Afrodite volta a aparecer para salvar Eneias, filho dela, embora a relação entre mãe e filho não seja explicitada naquele instante; o espectador percebe a intervenção divina como uma solução conveniente.
Essas intervenções acontecem com frequência, ao ponto de o público se acostumar a ver deuses torcendo por um lado ou outro, manipulando o destino dos mortais. Embora pareça frustrante, muitas vezes a ação divina já está plantada na história ou, ao menos, é explicada posteriormente. No caso de Eneias, por exemplo, ele poderia ter sido informado antes de que Afrodite fosse sua mãe, o que tornaria a salvação menos surpreendente. O mesmo padrão se repete com Apolo, que ajuda Heitor durante o duelo: quando Heitor está sendo derrotado, Apolo o levanta, permitindo que continue lutando. Essa ajuda não elimina o perigo, mas oferece ao herói a chance de permanecer na batalha.
A primeira ocorrência de deus ex machina na Ilíada acontece logo no início, quando Aquiles, ainda não presente na narrativa, mata Heitor; a deusa (possivelmente Tétis) o puxa pelo cabelo para impedir que ele caia, numa intervenção que lembra a mecânica do teatro grego. Mais tarde, Afrodite desce novamente, desta vez para salvar Páris. Assim, o leitor vai se acostumando a essas intervenções divinas, que se tornam parte da estrutura da obra.
O tema central da Ilíada, embora frequentemente resumido como “a cólera de Aquiles”, vai além da guerra de Troia. O poema explora a interação constante entre mortais e deuses, usando a guerra como pano de fundo para mostrar como o destino dos heróis está entrelaçado com a vontade divina. A presença de Aquiles, mesmo quando ausente, é sentida como um fantasma que perpassa todo o texto, mantendo o leitor em expectativa constante. Essa presença constante dos deuses, que intervêm de forma súbita e decisiva, reforça a ideia de que a narrativa homérica já incorpora, de maneira implícita, o que mais tarde seria formalizado como “deus ex machina”.
Vale notar que recursos semelhantes aparecem antes de Homero, como nas epopeias de Gilgamesh, onde deuses também interferem diretamente nos destinos humanos. Contudo, nesses textos antigos a intervenção divina era parte integrante da cosmovisão, não um artifício narrativo incongruente. No teatro grego, a mecânica física do “machina” (guindaste) tornou‑se um símbolo da solução externa, e Homero, ao retratar deuses que descem do Olimpo para mudar o curso dos eventos, antecipou esse conceito.
Em suma, a Ilíada demonstra que a ideia de deus ex machina tem raízes profundas na tradição mitológica grega, embora o termo tenha sido cunhado a partir das práticas do teatro clássico. A obra de Homero mostra que as intervenções divinas já eram parte natural da narrativa épica, servindo tanto para resolver impasses quanto para reforçar a conexão entre o mundo humano e o divino.