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ILÍADA: o destino e a liberdade dos homens e deuses ••• Lucas Rosalem

Ilíada e a oração: destino, liberdade e relação com Deus

Na palestra “Ilíada: o destino e a liberdade dos homens e deuses”, Lucas Rosalem explora, a partir de um diálogo da obra épica, por que os cristãos são chamados a orar e como essa prática se relaciona com a noção grega de relacionamento entre mortais e divindades. Ele parte de um trecho da *Ilíada* para mostrar que a oração, assim como o diálogo entre Aquiles e sua mãe‑deusa, Thetis, tem como objetivo principal estabelecer um vínculo íntimo, e não apenas solicitar favores.

Por que oramos, se Deus já conhece tudo, inclusive os nossos pensamentos antes mesmo de os pronunciarmos? A Bíblia não nos oferece um tratado sistemático sobre o assunto, nem há um discurso extenso de Paulo ou de Jesus que explique passo a passo a necessidade da oração. Contudo, percebemos claramente que Deus não deseja apenas que as pessoas “interajam” com Ele, como faziam os gregos com seus deuses; Ele almeja um relacionamento verdadeiro.

É exatamente nesse ponto que a *Ilíada* nos oferece um exemplo. Em um dos momentos mais emocionantes, Aquiles chora diante de sua mãe, Thetis. Ela lhe diz: “Conta‑me, pois nós dois já sabemos, mas quero que me contes.” O pedido de Thetis não é simplesmente obter informação; ele visa constituir um “nós”, uma comunhão entre mãe e filho. Mais do que ajudar Aquiles, Thetis quer construir um relacionamento com ele. Essa cena, ao ser lida, revela de forma surpreendente o motivo pelo qual o cristão ora: para estabelecer uma relação profunda com o Deus que o conhece plenamente.

Esse mesmo princípio aparece sempre que algo notável acontece a um personagem humano. Qualquer ato de coragem, bravura ou honra não é atribuído diretamente ao indivíduo; ele é creditado a um deus. Quando Apolo incita alguém a realizar determinada façanha, ou quando um deus manipula eventos, a responsabilidade recai sobre a divindade. Da mesma forma, as tragédias são apresentadas como consequências de decisões humanas – como se os mortais fossem “idiotas” por cair em armadilhas divinas. Assim, a força dos personagens não nasce apenas de dentro deles; ela depende de uma intervenção externa, de um deus que os sustenta ou os desafia.

A *Ilíada* demonstra que o universo grego não é equilibrado nem justo. Não há uma lei de “igualdade” entre deuses; alguns favorecem, outros prejudicam. Um deus pode tornar‑se inimigo, outro pode ser aliado, e o mortal pode ser semideus ou simples humano. Essa falta de balanceamento contribui para a sensação de injustiça que permeia a narrativa.

Tal ambiguidade também se reflete na fé cristã. Muitas vezes nos perguntamos se certos eventos bíblicos ocorreram porque Deus os planejou ou se foram fruto das ações humanas. O caso de Helena ilustra bem essa tensão. Ela parte para Tróia motivada pelo amor, mas também sob a influência de Afrodite. No início, Helena sente saudade de Menelau, mas depois é persuadida pela deusa. A incitação divina não elimina sua consciência; ao contrário, cria uma nova convicção, permitindo que ela aja de acordo com sua própria vontade, ainda que influenciada.

É possível dizer que Afrodite manipulou Helena, mas a própria Helena demonstra plena consciência de suas escolhas. Não há, portanto, escravidão à vontade divina; há, antes, uma colaboração entre a inspiração dos deuses e a decisão humana. Essa dinâmica se repete em outros episódios: Paris se apaixona por Helena porque a considera a mulher mais bela do mundo, mas não sabemos ao certo até que ponto Afrodite realmente interveio. O conceito de destino na *Ilíada* também é nebuloso. Zeus, por exemplo, conhece o futuro e, ao mover a balança do destino, tenta influenciar os acontecimentos, embora o destino já esteja traçado. Como afirma o próprio Héctor, os homens não podem fugir do destino; ainda assim os deuses continuam a intervir, tentando mudar o rumo dos eventos.

No final da epopeia, Zeus já sabe quem morrerá; ele tem consciência de que Aquiles perderá a mãe, e Aquiles, desde o início, pressente sua própria morte, mas ainda assim se afasta da guerra e depois retorna. O destino, portanto, coexiste com as escolhas humanas, formando uma teia misteriosa em que ambos os fatores se permeiam. Essa mesma interligação entre destino e livre‑arbítrio aparece na Bíblia, como na história de José, filho de Jacó. Os irmãos de José tramam contra ele, mas, ao revelar sua identidade, José declara: “Vocês intentaram o mal contra mim, mas Deus o transformou em bem.” O mesmo padrão de eventos trágicos que se convertem em bênçãos se repete na *Ilíada*, embora muitas das consequências sejam realmente negativas.

A mitologia grega, em sua totalidade, parece um caos regido por fios invisíveis. As Moiras – as deusas do destino – seguram os fios da vida, enquanto Zeus, o supremo, parece também estar submetido a esse tecido. Essa aparente contradição – de deuses poderosos que ainda obedecem ao destino – revela o caráter caótico da cosmologia grega, onde os deuses são filhos do Cosmos e, ao mesmo tempo, meras consequências de forças maiores. Essa desordem, segundo Rosalem, explica a complexidade dos mitos e a forma como eles abordam a relação entre liberdade humana e determinação divina.