— Isso vai doer, mestre?
— Não costuma doer. Geralmente, é imperceptível. Pra ser sincero, pode ser um pouco desconfortável. Está pronto?
— Sim. Eu acho…
Você desperta em um lugar escuro, sem paredes, teto ou chão. Você mal consegue se enxergar. Precisa me deixar entrar. Todas essas sensações que você sente agora são experiências que precisam descortinar. Você consegue ouvir, Leb? Eu preciso entrar.
Ótimo! Você não está sozinho. Está vendo rostos. Eles estão bravos com algo. Espere, os olhares são direcionados para você. Um lugar pequeno, abafado. Um quarto mal terminado de alvenaria. O cheiro de suor é forte. O odor da tensão também. Eles estão esperando você agir.
Uma mesa. Uma adaga. Você a afasta e evita olhar para a outra coisa na mesa. Mas ela está lá. Uma orelha arrancada. Vê-la fez seu estômago embrulhar.
Alguém bate o punho na parede. Os olhares furiosos se intensificam. Você sente que alguém vai lhe acertar a qualquer momento.
Parece que não há escolha.
Um homem entra na sala, agitado. Veste-se de um couro suave e claro, e uma meia capa vermelha. Sim: Terrasseca! Alto escalão: Barro. O que ele faz ali?
Você se levanta. Parece decidido. Passos firmes, respiração acelerada. A luz do sol ofusca sua visão. Sua cabeça dói. Consegue sentir? Eu também sinto, Leb.
— Espere. Isso não aconteceu. Não foi assim. Eu me lembro, mestre Selkepis. Tente outra vez.
Tudo negro, gosto de cobre na boca. Sensações. Já passamos por isso, Leb. Deixe-me entrar.
Aqui estamos, novamente. Quem são esses? Amigos? Está tudo parado. Um quarto escuro. Uma escadaria. Você não quer estar aqui. As coisas estão desaparecendo. Você ouve risos debochados, urros e uma só gargalhada. Essa você reconheceu.
— Não, não. Não entendo. Nada disso aconteceu, mestre.
— Como você saberia, Leb? Eu já li você. Não tem a menor noção do porquê está aqui. Só sabe seu nome.
— O que está acontecendo? Mestre… O que aconteceu?
Escuridão, calafrios, calor, sede, cabeça latejando, suor. Você quer me deixar entrar.
Certo, certo. Esses dois são seus amigos? Ah, vejo que não. São capangas. Eles não parecem escoltar você. Eles estão te vigiando. Você sente que deve algo a alguém. Eles vão garantir que a dívida será paga. E não parecem contentes. Eles sentem seu medo. E você não consegue disfarçar. Suas pernas estão tremendo. Onde você está?
Ah, sim. Você vê. Um bar? Aconchegante, espaçoso. Não parece coisa da sua estirpe, Leb. Você e seus companheiros estão deslocados. Mas precisam estar ali. Tem muita gente de olho. Gente bem vestida, fazendo cara feia. Espere… aquele Barro outra vez? Ele caminha até o balcão onde vocês se debruçam. Está mais insatisfeito que os outros dois. O que ele está dizendo?
“Precisa ser hoje!”
Ele entrega a adaga. Aquela mesma adaga. Ela tem um resquício de sangue.
Sua decisão está tomada. A respiração aumenta. Ninguém mais olha para vocês. Todos decidiram que as próprias vidas eram mais interessantes desde que o Barro entrou na sala.
— Não, espere, mestre Selpikes.
— Selkepis. Mestre Selkepis.
— Espere. Esse homem me dá medo. Eu não sei se quero continuar.
— Receio que não é uma opção.
Completo breu. Você não precisa mais permitir.
Você está em um corredor escuro. Não. Não é um corredor. É um túnel. Sua respiração está ofegante. Acabou de correr. Um suor denso e pegajoso ensopou seu pescoço. Suas mãos tentam tirar o excesso e você percebe que não é suor. Esse cheiro de ferrugem molhada. Essa coisa viscosa… sangue. Muito sangue. Está no seu corpo. Sua mão vacila. A adaga cai. Esse sentimento. Esse desespero.
— Pare!
— Não!
Você nota uma movimentação no fim do túnel. Alguém está lá. Alguém que você não deseja ver, mas sabe que precisa. Tem que confirmar. Você leva a mão no bolso. Você trouxe a prova. Seus passos parecem pesados. Você se afunda no chão a cada passo. Vai se afogar. Uma mão lhe toca o ombro e seu corpo reage, pressionando o desavisado contra a parede de pedras.
“Sou eu, seu Poeira imbecil!” O homem sorri. Não está nervoso com sua reação, apesar das palavras. Você fica mais tranquilo.
— Por favor, espere. Minha respiração. Eu… Eu.
— Leb, você não está facilitando. Eu vou entrar, de qualquer forma.
— É que eu sinto que não vai terminar bem. Minha cabeça está doendo. Aqui, não lá.
— Parece que saltamos algo. O que você fez, Leb? O que você fez?
Um fechar e abrir de olhos. Você não pode me impedir de entrar.
“Lebviqel!” Alguém está gritando por você.
“Lebviqel!” Está mesmo querendo falar com você.
Esse lugar. É sua casa? Sim. E essa escuridão? Ah, sim. Você é de fora. De fora da cidade. Quando a noite cai, os postes fazem falta. Sim. Esse pensamento tomou conta de você. A raiva é sua aliada. Ela decidiu por você e colocou uma adaga em suas mãos. Mas você ainda treme. Você quer desistir? Não parece. Não mesmo! Você quer algo tanto quando repudia. Mas… a adaga, sua casa. Quem você quer matar, Lebviqel?
— Ninguém. Eu não sou isso. Eu sou uma pessoa boa. Vamos parar por aqui. Minha cabeça dói muito. Essas faixas. Onde eu estou?
— …
Você está abraçando sua mãe no banco da sala. Vocês estão chorando.
“Meu lindo rapaz. Vai ficar tudo bem. Ninguém vai te tirar de mim. Eu conversei com o guarda-mor. Eles vão te… urhg!”
Suas mãos, ainda abraçando sua mãe, desferiram o golpe. Ela range um grito curto.
Você está chorando? Onde foi parar aquela raiva?
Ela aperta você ainda mais.
Você quer que acabe logo. As lágrimas inundam sua visão.
Outro golpe. Você grita! E outro. Você tropeça, tentando sustentá-la sentada no banco. Ela cai por cima de você. O sangue empapa sua roupa. Percebe que ela não se mexe mais. Você a empurra com delicadeza para o lado. Você passa a lâmina contra o pescoço dela, para descobrir, pelo último tremelique, que ela ainda não havia partido. Mas ainda não acabou. A testemunha inanimada precisa ser levada: uma orelha dela. Dessa vez seria a dela.
— Mãaaee! Não, não! Mãe, o que eu fiz?
— Precisamos voltar.
— Pare com isso! Eu não vou mais…
O túnel. Você o vê, novamente. Seu companheiro, um daqueles que estava de cara emburrada, agora mostra todos os dentes. Ele o conduz até o fim do corredor. No que você está pensando? Se não fosse você, eles teriam feito? Você fez um bem, então, Leb?
Uma tênue luz vem de cima, no fim do túnel. Apenas o suficiente para que você não tropece na escada. Vocês sobem e encontram um quarto. A iluminação lá dentro é apenas um pouco melhor. Tem gente lá. Você não quer que seja ele, o Barro. Fica aliviado ao perceber que não há sinal dele.
Você não viu de onde veio. Espere. Aqui. Consegue ver? Eu segurei os eventos para que perceba. Bem no canto de sua visão. Um rapaz te acertou com um martelo-de-guerra. Bom, Leb. Eu acho que isso explica o que aconteceu. Não explica o porquê. Será que queremos descobrir?
— Por favor, mestre. Termine o trabalho deles. Eu preciso morrer.
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Enredo Execução Escrita Estilo
Este conto me lembrou muito o funcionamento da Fonte Verdadeira em A Roda do Tempo. Na narrativa de Robert Jordan, quando os homens utilizam a parte “masculina” da magia (saidin), eles são aos poucos consumidos pela loucura. O protagonista, no entanto, por ser forte demais, tem um poder que consegue atravessar o próprio tempo e ligá-lo à Ba’alzamon, o grande vilão.
A maneira como o Luciano descreveu o efeito dessa substância mágica (como se ela se comunicasse com o personagem afetado) me lembrou muito isso. Contudo, apesar do estilo e da execução ficarem boas no geral, acho que o conto é um pouco vago demais. Apesar das cenas interessantes, o aspecto misterioso que culmina no terceiro ato, a meu ver, não tem força o suficiente para ser cativante a leitores casuais; dificilmente eu leria essa narrativa, mesmo tendo o autor por amigo, não fosse o fato de que estou maratonando todos os contos para tecer minhas análises.
Enredo Execução Escrita Estilo
Enredo Execução Escrita Estilo
PLOT
O autor questionou BASTANTE o fato de que muito do que foi dito sobre uma outra história do site (O Relicário) era extraída por interpretação, como demérito. Acontece que, lá, isso aconteceu porque a história realmente fazia a gente ter vontade de entender a vida do protagonista, enquanto, aqui, fomos forçados a interpretar se quisermos sequer entender alguma coisa. Além disso, nestas primeiras avaliações antes da revisão, é difícil que a nota não sofra bastante por causa do plot, pois, no fim das contas, acontece pouca coisa e, do que acontece, não dá pra entender bem. Mas isso com certeza vai ficar pra trás na revisão, e eu garanto que volto aqui pra atualziar as notas.
Eu tive bastante dificuldade pra entender o que estava acontecendo e, principalmente, para saber o que deveria considerar como informação concreta dentro da história. O que consegui reconstruir é que Leb está passando por uma espécie de processo hipnótico pra recuperar uma memória, até chegar à descoberta de que matou a própria mãe sob pressão de pessoas ligadas aos Terrasseca. Essa revelação tem potencial, especialmente porque envolve culpa, manipulação e uma lembrança traumática, e o final acrescenta a possibilidade de que Leb tenha sido eliminado depois de cumprir a tarefa. O problema é que boa parte dessas relações precisa ser reconstruída pelo leitor com informações muito fragmentadas.
A ideia de recuperar uma memória por hipnose também me parece pouco convincente dentro da forma como o conto apresenta o procedimento. Eu não entendi exatamente o que o mestre estava fazendo, quais são as regras desse processo ou por que determinadas lembranças apareciam da forma como estão no texto. Isso enfraquece minha reação aos acontecimentos porque, em vários momentos, eu estava tentando descobrir a mecânica da narrativa antes de reagir à história.
O plot também me parece incompleto dentro do próprio conto. Existe uma sequência de revelações, existe uma informação final importante e existe uma situação dramática, porém falta uma percepção clara de arco completo. Se a intenção era produzir uma história sobre a descoberta gradual de um crime cometido pelo próprio protagonista, a revelação da mãe deveria reorganizar tudo aquilo que vimos anteriormente de maneira mais forte. Para mim, ela apenas esclarece parcialmente uma sequência que já estava difícil de acompanhar. Há um arco de revelação, mas não um arco dramático completo. Leb começa sem memórias e é conduzido a uma revelação chocante. O conto termina antes de provar o que a resolução/revelação provoca. Isso, junto com a falta de clareza sobre o que houve antes, determina que o texto pode até ter, muito às escondidas, o arco completo e mais um monte de coisas, mas você precisa de uma IA pra tentar descobrir (curiosamente, testamos isso em live com 4 IAs e elas não conseguiram chegar perto do que o autor explicou)
EXECUÇÃO
Aqui está o principal problema do conto. A estrutura embaralha passado, presente, lembrança e intervenção do mestre Selkepis sem fornecer sinais suficientes para o leitor estabelecer uma cronologia segura. A narração até tenta reproduzir uma consciência fragmentada, porém o recurso produz confusão em vez de suspense. O leitor precisa entender minimamente onde está, quando está e o que está sendo investigado para conseguir formular hipóteses. O conto retira essas referências justamente nos momentos em que elas seriam mais necessárias. Também há acontecimentos que parecem colocados para produzir determinada revelação, sem que o mecanismo que os conecta fique claro. A orelha, por exemplo, surge como elemento importante em mais de uma passagem, mas a função dela dentro da história demora demais para se estabelecer. O Barro também aparece como uma figura de autoridade ameaçadora, embora suas relações com Leb e com o restante daquele grupo permaneçam pouco definidas. É um antagonista que não antagoniza coisa nenhuma.
A própria condição dos Terrasseca gera um problema de compreensão do universo: aqui o texto apresenta Barro como parte de um grupo que parece exercer pressão sobre Leb, e é literalmente impossível saber o que exatamente eles são (o que foi revelado pelo autor) pra entender as relações. E mais: dentro do contexto maior (outro conto que lemos poucos dias antes), havia ficado estabelecido com alguma clareza que se tratava de um povo (não do que o autor disse), pois um homem mudou de lado na guerra por saber que “na verdade” era terrasseca de NASCIMENTO. O conto não oferece elementos suficientes pra resolver essa questão por conta própria.
O processo de hipnose ainda apresenta uma dificuldade estrutural maior: se são memórias, por que é o hipnólogo que as está mencionando? O texto depende dele pra justificar a fragmentação das lembranças, porém não estabelece claramente como ele funciona. O resultado é uma narrativa em que o recurso formal passa a interferir diretamente na compreensão da trama.
Há cenas interessantes, especialmente a revelação da mãe e a passagem final, mas elas chegam depois de uma sequência em que o leitor gastou muita energia tentando decifrar a estrutura.
ESCRITA
A escrita é boa. A construção das frases é compreensível, o vocabulário é adequado ao gênero e não encontrei uma quantidade significativa de erros que comprometa a leitura. Ainda existem problemas pontuais de revisão, inclusive alguns que identificamos durante a live, e eles impedem uma nota máxima. Também há construções sintáticas que ficam estranhas em determinados momentos, sob a justificativa de que o narrador está descrevendo uma mente submetida à hipnose, mas isso não resolve automaticamente problemas de construção frasal.
ESTILO
O conto tem uma tentativa clara de construir uma voz narrativa específica para o processo hipnótico. O uso da segunda pessoa (pra cumprir o desafio), a alternância entre a descrição das lembranças e as intervenções do mestre e os cortes bruscos procuram colocar o leitor dentro de uma consciência fragmentada. Existe uma intenção estilística identificável, o que é legal. O problema é que a técnica ainda não está suficientemente controlada por falta de clareza (indicações, ao menos).
A fragmentação aparece com tanta frequência que perde força como recurso expressivo. Frases como “Você está vendo rostos”, “Você vê” e “Você sente” são uma repetição estrutural que combina com o procedimento, mas também deixam a prosa previsível e pouco variada. O narrador ainda oscila entre descrever a memória e comentar diretamente aquilo que o personagem deveria perceber, criando uma voz que parece só explicar a cena enquanto ela acontece. Isso reduz a tensão em alguns momentos. Também senti falta de uma personalidade mais forte na prosa fora do mecanismo da hipnose. Os diálogos são todos genéricos. Há várias frases funcionais para transmitir ações e sensações, porém poucas escolhas linguísticas realmente distinguem o autor. A cena da mãe possui uma carga dramática maior porque finalmente existe uma relação emocional concreta entre as ações e as consequências. Ali, a linguagem fica mais direta e a situação consegue se sustentar pela própria cena. Pra mim, esse trecho mostra que o conto funciona melhor quando deixa o acontecimento carregar o peso dramático, em vez de depender da estrutura fragmentada para produzir estranheza.
Enredo Execução Escrita Estilo
a. É preferível que você mantenha o mesmo tempo e modo verbal ao longo de uma mesma cena — e, se possível, durante todo o conto —, a menos que exista uma mudança de POV ou um recorte temporal/espacial que justifique uma alteração abrupta. Senti um pequeno estranhamento no tempo verbal em: “Vê-la fez seu estômago embrulhar.”. Acredito que funcionaria melhor como “Vê-la faz seu estômago embrulhar.”.
b. Existe aqui uma simetria interessante com a palavra “sensações”, inserida anteriormente na introdução. Ainda assim, a forma como o desconforto do personagem é reduzido a “sensações”, isolada entre pontos finais, me causou estranhamento, mesmo sabendo que esse desconforto já foi adequadamente explorado no texto. Em vez de me transmitir o paralelismo/simetria que imagino ser a intenção, a construção me passou uma sensação de texto apressado — e isso é particularmente estranho porque, claramente, a cena não é apressada.
“Tudo negro, gosto de cobre na boca. Sensações. Já passamos por isso, Leb. Deixe-me entrar.”
d. Um dos elementos em que você já acerta, mas que eu gostaria de ver ainda mais enfatizado, é a linguagem não verbal do personagem principal. Acho que você pode usá-la para construir uma gradação física e emocional mais evidente: começar com um leve desconforto, avançar para rigidez muscular, tremores ou agitação e, finalmente, chegar a manifestações extremas — um móvel destruído, uma convulsão, um grito, um choro.
Isso ajudaria a imprimir no leitor a sensação de que existe uma desordem crescente ao longo da história, da introdução até o clímax. O corpo do personagem pode funcionar quase como um marcador dessa escalada.
Por exemplo, em vez de repetir falas de desorientação como:
— O que está acontecendo? Mestre… O que aconteceu?
Você poderia reduzi-las a um gemido desorientado e, a partir daí, deixar que a linguagem corporal assuma a cena: uma agitação gradual, uma tentativa cada vez mais desesperada de compreender o que está acontecendo, até culminar em um urro de negação que mal soe humano.
e. Na resolução pós-clímax, eu gostaria de vê-lo no chão, soluçando, cortando a própria pele contra as algemas, implorando pela morte. Acho que isso fecharia a trajetória física e emocional que a história vem construindo de maneira muito mais brutal.
f. Na introdução, senti falta de uma declaração mais clara sobre se ele QUER ou NÃO QUER descobrir suas memórias. Essa sequência de “estou confuso, mestre, o que está acontecendo, eu quero e não quero saber…” acaba ficando monótona porque mantém o personagem durante tempo demais no mesmo estado emocional.
A atenção do leitor precisa receber uma ordem mais clara de ações por parte do protagonista: ele QUER saber ou ele NÃO QUER saber. A partir daí, você pode colocar esse desejo em conflito com os acontecimentos. Ele quer descobrir e algo o impede. Ou não quer descobrir e é forçado a fazê-lo. Essa oposição é muito mais capaz de prender e comover o leitor do que uma sequência prolongada de desorientação.
PLOT: Sólido. Homem sem memória é forçado a descobrir sua própria história e revela um pesadelo pessoal.
EXECUÇÃO: Eu já estou exigindo BEM mais de você aqui porque você escreve bem e já tem um universo próprio bastante consolidado.
Quero ver uma gradação emocional mais acentuada: um personagem principal que inicia o conto de terno na ópera e termina sangrando, descalço, no meio de uma floresta. Um psicopata frio que termina a história em posição fetal. Ou uma personagem insuportavelmente histérica que é tão forçada a se conter que termina o conto encarando a própria família em chamas, incapaz de expressar qualquer coisa.
Quero falas menores e descrições físicas pontuais, mas significativas, que contribuam para essa gradação. O estado emocional do personagem não precisa ser constantemente explicado; ele pode ser demonstrado pelo que o corpo faz à medida que a situação degrada.
Dito tudo isso, eu senti falta de uma linha ou duas que efetivamente evidenciasse (como se para uma criança de 5 anos) que todos os pontos narrativos que você abriu na introdução efetivamente foram fechados, à exceção das escolhas que vc propositalmente quis deixar em aberto. Eu acho que você tinha que ou explicar se houve motivação para o crime ou ao menos deixar claro se o mestre realiza seu último desejo ou não. As duas coisas em aberto atrapalharam a indução final de emoção no leitor.
ESCRITA: Duas palavras que fugiram ao tom do conto e uma fuga pontual ao tempo e modo verbal. Nada que interfira significativamente na atenção do leitor.
ESTILO: Tom bem definido, adequado ao gênero, e propositalmente confuso. Escorregou um pouco na escolha de palavras uma ou duas vezes.