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EU [NÃO] ME LEMBRO

O que pedia este desafio?

Escreva um conto (de 1000 a 2000 palavras) com o NARRADOR em segunda pessoa. Não é a conjugação que precisa ser em segunda pessoa ("tu" em lugar de "você"), mas o narrador; ou seja, ele deve se referir diretamente aos atos do narratário.

— Isso vai doer, mestre?

— Não costuma doer. Geralmente, é imperceptível. Pra ser sincero, pode ser um pouco desconfortável. Está pronto?

— Sim. Eu acho…

Você desperta em um lugar escuro, sem paredes, teto ou chão. Você mal consegue se enxergar. Precisa me deixar entrar. Todas essas sensações que você sente agora são experiências que precisam descortinar. Você consegue ouvir, Leb? Eu preciso entrar.

Ótimo! Você não está sozinho. Está vendo rostos. Eles estão bravos com algo. Espere, os olhares são direcionados para você. Um lugar pequeno, abafado. Um quarto mal terminado de alvenaria. O cheiro de suor é forte. O odor da tensão também. Eles estão esperando você agir.

Uma mesa. Uma adaga. Você a afasta e evita olhar para a outra coisa na mesa. Mas ela está lá. Uma orelha arrancada. Vê-la fez seu estômago embrulhar.

Alguém bate o punho na parede. Os olhares furiosos se intensificam. Você sente que alguém vai lhe acertar a qualquer momento.

Parece que não há escolha.

Um homem entra na sala, agitado. Veste-se de um couro suave e claro, e uma meia capa vermelha. Sim: Terrasseca! Alto escalão: Barro. O que ele faz ali?

Você se levanta. Parece decidido. Passos firmes, respiração acelerada. A luz do sol ofusca sua visão. Sua cabeça dói. Consegue sentir? Eu também sinto, Leb.

— Espere. Isso não aconteceu. Não foi assim. Eu me lembro, mestre Selkepis. Tente outra vez.

Tudo negro, gosto de cobre na boca. Sensações. Já passamos por isso, Leb. Deixe-me entrar.

Aqui estamos, novamente. Quem são esses? Amigos? Está tudo parado. Um quarto escuro. Uma escadaria. Você não quer estar aqui. As coisas estão desaparecendo. Você ouve risos debochados, urros e uma só gargalhada. Essa você reconheceu.

— Não, não. Não entendo. Nada disso aconteceu, mestre.

— Como você saberia, Leb? Eu já li você. Não tem a menor noção do porquê está aqui. Só sabe seu nome.

— O que está acontecendo? Mestre… O que aconteceu?

Escuridão, calafrios, calor, sede, cabeça latejando, suor. Você quer me deixar entrar.

Certo, certo. Esses dois são seus amigos? Ah, vejo que não. São capangas. Eles não parecem escoltar você. Eles estão te vigiando. Você sente que deve algo a alguém. Eles vão garantir que a dívida será paga. E não parecem contentes. Eles sentem seu medo. E você não consegue disfarçar. Suas pernas estão tremendo. Onde você está?

Ah, sim. Você vê. Um bar? Aconchegante, espaçoso. Não parece coisa da sua estirpe, Leb. Você e seus companheiros estão deslocados. Mas precisam estar ali. Tem muita gente de olho. Gente bem vestida, fazendo cara feia. Espere… aquele Barro outra vez? Ele caminha até o balcão onde vocês se debruçam. Está mais insatisfeito que os outros dois. O que ele está dizendo?

“Precisa ser hoje!”

Ele entrega a adaga. Aquela mesma adaga. Ela tem um resquício de sangue.

Sua decisão está tomada. A respiração aumenta. Ninguém mais olha para vocês. Todos decidiram que as próprias vidas eram mais interessantes desde que o Barro entrou na sala.

— Não, espere, mestre Selpikes.

— Selkepis. Mestre Selkepis.

— Espere. Esse homem me dá medo. Eu não sei se quero continuar.

— Receio que não é uma opção.

Completo breu. Você não precisa mais permitir.

Você está em um corredor escuro. Não. Não é um corredor. É um túnel. Sua respiração está ofegante. Acabou de correr. Um suor denso e pegajoso ensopou seu pescoço. Suas mãos tentam tirar o excesso e você percebe que não é suor. Esse cheiro de ferrugem molhada. Essa coisa viscosa… sangue. Muito sangue. Está no seu corpo. Sua mão vacila. A adaga cai. Esse sentimento. Esse desespero.

— Pare!

— Não!

Você nota uma movimentação no fim do túnel. Alguém está lá. Alguém que você não deseja ver, mas sabe que precisa. Tem que confirmar. Você leva a mão no bolso. Você trouxe a prova. Seus passos parecem pesados. Você se afunda no chão a cada passo. Vai se afogar. Uma mão lhe toca o ombro e seu corpo reage, pressionando o desavisado contra a parede de pedras.

“Sou eu, seu Poeira imbecil!” O homem sorri. Não está nervoso com sua reação, apesar das palavras. Você fica mais tranquilo.

— Por favor, espere. Minha respiração. Eu… Eu.

— Leb, você não está facilitando. Eu vou entrar, de qualquer forma.

— É que eu sinto que não vai terminar bem. Minha cabeça está doendo. Aqui, não lá.

— Parece que saltamos algo. O que você fez, Leb? O que você fez?

Um fechar e abrir de olhos. Você não pode me impedir de entrar.

“Lebviqel!” Alguém está gritando por você.

“Lebviqel!” Está mesmo querendo falar com você.

Esse lugar. É sua casa? Sim. E essa escuridão? Ah, sim. Você é de fora. De fora da cidade. Quando a noite cai, os postes fazem falta. Sim. Esse pensamento tomou conta de você. A raiva é sua aliada. Ela decidiu por você e colocou uma adaga em suas mãos. Mas você ainda treme. Você quer desistir? Não parece. Não mesmo! Você quer algo tanto quando repudia. Mas… a adaga, sua casa. Quem você quer matar, Lebviqel?

— Ninguém. Eu não sou isso. Eu sou uma pessoa boa. Vamos parar por aqui. Minha cabeça dói muito. Essas faixas. Onde eu estou?

— …

Você está abraçando sua mãe no banco da sala. Vocês estão chorando.

“Meu lindo rapaz. Vai ficar tudo bem. Ninguém vai te tirar de mim. Eu conversei com o guarda-mor. Eles vão te… urhg!”

Suas mãos, ainda abraçando sua mãe, desferiram o golpe. Ela range um grito curto.

Você está chorando? Onde foi parar aquela raiva?

Ela aperta você ainda mais.

Você quer que acabe logo. As lágrimas inundam sua visão.

Outro golpe. Você grita! E outro. Você tropeça, tentando sustentá-la sentada no banco. Ela cai por cima de você. O sangue empapa sua roupa. Percebe que ela não se mexe mais. Você a empurra com delicadeza para o lado. Você passa a lâmina contra o pescoço dela, para descobrir, pelo último tremelique, que ela ainda não havia partido. Mas ainda não acabou. A testemunha inanimada precisa ser levada: uma orelha dela. Dessa vez seria a dela.

— Mãaaee! Não, não! Mãe, o que eu fiz?

— Precisamos voltar.

— Pare com isso! Eu não vou mais…

O túnel. Você o vê, novamente. Seu companheiro, um daqueles que estava de cara emburrada, agora mostra todos os dentes. Ele o conduz até o fim do corredor. No que você está pensando? Se não fosse você, eles teriam feito? Você fez um bem, então, Leb?

Uma tênue luz vem de cima, no fim do túnel. Apenas o suficiente para que você não tropece na escada. Vocês sobem e encontram um quarto. A iluminação lá dentro é apenas um pouco melhor. Tem gente lá. Você não quer que seja ele, o Barro. Fica aliviado ao perceber que não há sinal dele.

Você não viu de onde veio. Espere. Aqui. Consegue ver? Eu segurei os eventos para que perceba. Bem no canto de sua visão. Um rapaz te acertou com um martelo-de-guerra. Bom, Leb. Eu acho que isso explica o que aconteceu. Não explica o porquê. Será que queremos descobrir?

— Por favor, mestre. Termine o trabalho deles. Eu preciso morrer.

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