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Entre Andares

O cheiro do elevador era uma mistura metálica e sufocante de cera velha, poeira acumulada nos dutos de ventilação invisíveis e antisséptico. As pesadas portas duplas de aço escovado se fecharam com um baque surdo. Dentro da caixa suspensa por grossos cabos tensionados, o espelho fosco e levemente oxidado no fundo da cabine refletia duas figuras.

Um senhor ocupava o canto esquerdo do espaço. Vestia um terno cinza desbotado, cujas lapelas largas denunciavam uma elegância pertencente a décadas passadas que não se via mais. A barba era branca e mal aparada. Seus olhos vagavam sem âncora pelo painel de botões em aço inoxidável, buscando compreender a lógica luminosa dos números que seguiam de forma decrescente.

Do outro lado, encostada no corrimão de latão frio que percorria a lateral do elevador, uma jovem tentava controlar o próprio ritmo respiratório. O casaco grosso de lã estava desabotoado, cedendo espaço para a barriga proeminente que anunciava, sem espaço para dúvidas, a metade final de uma gestação exaustiva e pesada. As olheiras profundas sob seus olhos demarcavam noites fragmentadas. As mãos dela repousavam sobre o ventre, sentindo os movimentos sutis que a criança fazia.

O visor luminoso acima da porta piscou com um estalo elétrico. Número Oito. O maquinário antigo gemeu nos poços escuros do prédio, e a caixa metálica iniciou sua descida letárgica pelo fosso. Número Sete.

O homem esfregou as mãos calejadas uma na outra. O silêncio sepulcral do ambiente fechado pareceu perturbá-lo. Seu olhar vagou pelo teto de acrílico iluminado, desceu pelas paredes de aço e, finalmente, encontrou o reflexo da mulher grávida no espelho ao fundo. Ele ajeitou a postura, enrijecendo os ombros enfraquecidos.

— Quanto tempo? — a voz dele soou rouca, sem uso, arranhando a quietude do ar confinado.

A mulher piscou repetidas vezes, o sobressalto imediato tensionando os músculos de seu pescoço e ombros. Ela desviou o olhar letárgico da ponta de suas próprias botas e virou o rosto na direção dele.

— O quê?

O homem desviou os olhos azuis e opacos para o chão de linóleo, os ombros encolhendo levemente em um gesto de súbita timidez, quase uma reação infantil diante do que percebeu ser uma gafe.

— Bem… — ele hesitou, a voz perdendo a força e a convicção iniciais. — Eu só estava perguntando quanto tempo… para o bebê… é… desculpe a intromissão, senhorita.

Um sorriso terno e cansado surgiu nos lábios dela. Ela relaxou os ombros, compreendendo.

— Vinte e cinco semanas.

O cabo de aço rangeu quando passaram pelo quinto andar. O homem levantou o rosto rapidamente, sorrindo.

— Falta pouco!

— É fácil para o senhor falar — ela retrucou com um suspiro leve, injetando uma dose de humor.

— Você deve estar muito animada com a chegada — ele insistiu, sustentando o tom afável de conversa fiada.

O sorriso dela sumiu lentamente. O olhar fixou-se no indicador vermelho brilhante acima da porta metálica. O número quatro acendeu com um clique, tingindo a porta de aço de carmim por um breve instante. O oxigênio do ambiente parecia encolher a cada andar que desciam.

— Estou com medo — ela confessou em voz baixa.

O homem no canto do elevador inclinou levemente a cabeça encanecida, a expressão rústica assumindo rapidamente a gravidade compassiva de um conselheiro experiente. A empatia humana transbordou de seus poros em direção à jovem aflita.

— E a sua família? O pai da criança? Os seus pais? — perguntou ele com uma preocupação genuína vincando-lhe a testa.

Ela engoliu novamente o nó que se formara na base da garganta, duro, pontiagudo e irredutível como uma pedra. O elevador passou vagarosamente pelo terceiro andar. As luzes de LED do painel refletiam-se nas lágrimas grossas e não derramadas que ardiam na linha d’água de seus olhos escuros.

— Somos apenas eu e meu pai… — ela fez uma pausa torturante, os pulmões recusando-se a realizar o trabalho mecânico de puxar o ar. O elevador atingiu o segundo andar com um leve tremor na estrutura. — E ele está doente.

O senhor de terno desbotado suspirou, um som longo, pesaroso e denso, profundamente penalizado pela história de solidão daquela moça que o acaso colocara ao seu lado.

— Vai dar tudo certo— ele disse, com a voz embargada pela piedade. —Você me parece ser uma mulher muito forte.

Um bipe sonoro agudo e estridente ecoou subitamente no espaço minúsculo. O visor luminoso piscou pela última vez e cravou a letra vermelha. Térreo.

O maquinário parou com um solavanco surdo que estremeceu o piso. As pesadas portas de aço escovado deslizaram suavemente para os lados, revelando o saguão claro, brilhante, imenso e caótico da recepção principal do edifício. O burburinho alto de dezenas de pessoas falando ao mesmo tempo e o eco apressado de passos invadiram a cabine como uma onda barulhenta e incontrolável.

O homem de terno cinza encolheu-se ligeiramente diante da cacofonia repentina do mundo exterior. Seus olhos azuis arregalaram-se, perdendo o foco acolhedor e voltando a demonstrar o medo cru e a confusão paralisante diante de um cenário hiperestimulante que ele não conseguia processar. A lucidez efêmera, a cortesia social e a conexão profunda da conversa esvaíram-se na mesma velocidade em que a porta havia se aberto.

A mulher fechou os olhos por meio segundo. Respirou fundo, puxando para si todo o ar frio que o saguão do hospital podia oferecer. Com a mão pálida e trêmula, limpou rapidamente a única lágrima solitária que finalmente escapara de sua contenção. Ajeitou a alça da pesada bolsa de couro.

Virou-se então, de forma muito lenta e deliberada, para o senhor de barba branca e terno velho que permanecia petrificado no fundo do elevador, completamente perdido em meio aos fragmentos da própria existência esfacelada, incapaz de dar o primeiro passo em direção ao saguão sem que alguém lhe explicasse como ou por quê.

Ela encurtou a distância que os separava, estendeu a mão direita com firmeza e segurou os dedos trêmulos, confusos e ressecados dele com a ternura de quem abriga e protege o ser mais importante do universo.

— Vamos, pai — ela disse, conduzindo-o gentilmente para fora do abismo metálico. — Esse é o nosso andar. A consulta é logo ali.

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