O ar na capela de São Tiago cheirava a vela apagada e pinho seco, um odor pesado que parecia ter se acumulado ao longo de décadas. No lado de fora, a neve de dezembro caía fina e silenciosa sobre a pequena vila nas colinas, mas, lá dentro, o silêncio era interrompido apenas pelo ranger do banco de madeira onde Arthur estava sentado.
Ele mantinha as mãos fundas nos bolsos do sobretudo de lã. Não havia orado, não havia acendido uma vela para os santos nos nichos, nem tocado na água benta na entrada.
A porta lateral rangeu quando o Padre Tomás entrou, carregando um maço de panos brancos e uma caixa de fósforos. O velho padre parou ao ver o visitante. Não era comum ter alguém ali àquela hora da véspera de Natal, especialmente alguém que não parecia ter o menor interesse no presépio montado ao lado do altar.
— O trem das nove costuma atrasar quando a neve aperta — disse o sacerdote, caminhando até o altar e começando a acender as velas do candelabro.
Arthur não se mexeu.
— Não me importo de esperar — respondeu, olhando fixamente para a própria bota coberta de neve derretida. — É mais quente do que a plataforma.
— A casa de Deus é para todos — respondeu Tomás, com uma voz tranquila. Ele terminou de acender as luzes e virou-se para o rapaz. — Mas você parece ter pressa de não chegar a lugar nenhum.
Arthur deixou escapar um riso curto, sem humor. Manteve os olhos distantes, visivelmente desconfortável com a tentativa de diálogo.
— Só estou esperando o trem — disse ele, seco, tentando encerrar o assunto.
— A viagem é longa? — insistiu o velho, sem alterar o tom sereno.
— O bastante — suspirou Arthur. O silêncio que se seguiu pareceu mais incômodo do que a conversa. Ele ajeitou a gola do sobretudo, incomodado. — Vou para a casa da minha irmã. Ela faz questão.
— E você parece achar o convite um fardo.
Arthur deu de ombros, afundando ainda mais no banco. Ele queria deixar a frase morrer ali, mas a presença tranquila do padre o irritava, uma expectativa silenciosa que o empurrou a preencher o espaço.
— É só uma formalidade cansativa.
— Estar com a família?
— Cumprir o calendário — respondeu Arthur. Tirou as mãos dos bolsos, esfregando as palmas frias. — Não me entenda errado, não sou ateu ou niilista, só não acredito nessas convenções sociais.
O Padre Tomás deu um leve sorriso, acomodando as mãos sobre a batina.
— Convenções sociais como essa conversa que estamos tendo agora?
Arthur parou por um segundo, com um riso curto, mas desta vez autêntico.
— Viu só? Você me entende.
— O Natal costuma intensificar as convenções — ponderou o sacerdote.
— É uma encenação. — A voz de Arthur soou mais solta agora.
O padre virou-se para ele em silêncio. Não havia qualquer semblante de julgamento, apenas uma quietude paciente que aguardava Arthur concluir o pensamento.
Arthur não tinha mais nada a dizer. Ou não teria, se não fosse pelo olhar desconcertante do sacerdote, que o impelia a complementar sua afirmação — da mesma forma que a insistência de sua irmã o impelira a pegar o trem até a casa dela naquele dia. Arthur começava a pensar que talvez tivesse sido melhor ter esperado na plataforma fria.
— A gente passa o ano inteiro distante, ressentido ou indiferente. Mas, nesta noite, as pessoas vestem suas melhores roupas, abraçam-se, trocam presentes e fingem que o amor é uma entidade mágica que desce do céu às meias-noites — disse Arthur, assertivo, mas calmo.
— E você acha isso uma hipocrisia.
— E não é? — rebateu Arthur. — As pessoas brigam trezentos e sessenta e quatro dias por ano, mas neste dia específico decidem que se amam.
O Padre Tomás não alterou a voz, nem o olhar.
— E você acredita que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas brigassem trezentos e sessenta e cinco dias no ano em vez de apenas trezentos e sessenta e quatro?
— Melhor eu não sei, mas seria mais honesto e verdadeiro, não? Quero dizer, a verdade não é um dos princípios da sua religião?
— Sim, junto com o amor — respondeu o padre.
— Então, se eu choro num velório só porque esperam que eu chore, ou se digo ‘eu te amo’ ao redor de uma mesa farta só porque é 24 de dezembro, eu não estou fazendo nenhuma das duas coisas. Estou apenas atuando.
O Padre Tomás ouviu em silêncio. Caminhou devagar até o banco em frente ao de Arthur e sentou-se de lado, apoiando o braço no encosto.
— E você odeia atuar, então — observou o velho.
— Você tem que se importar muito com alguma coisa para odiá-la. Eu só não vejo sentido. — Arthur desviou o olhar. — A vida é absurda e dura. O frio do lado de fora é real. A dor da perda é real. Mas a gente insiste em cobrir tudo isso com luzes pisca-pisca e cânticos para fingir que o mundo não é um lugar indiferente. Se eu não sinto essa alegria mágica, prefiro não fingir.
O sacerdote olhou para o presépio de madeira. As figuras murchas de gesso — o menino, a mulher, o homem de cajado — pareciam pequenas sob a vasta abóbada da igreja.
— Sabe, Arthur —, quando meu irmão faleceu, há vinte anos, eu tive que celebrar a missa de Natal na manhã seguinte. Eu não sentia paz. Não sentia a presença de Deus. Sentia apenas um vazio imenso e um cansaço que me dobrava os joelhos. Se eu fosse seguir apenas o que sentia por dentro, teria fechado as portas desta capela e me deitado no escuro.
— E por que não fez isso? — perguntou Arthur. — Não teria sido mais honesto?
— Depende do que você chama de honestidade — respondeu Tomás, com o olhar fixo no fogo das velas. — Eu achava que o ritual era a consequência do sentimento: você sente amor, então você abraça; você sente fé, então você reza. Mas naquela manhã eu descobri algo diferente. O ritual não é para quando o sentimento sobra. O ritual é a estrutura que mantemos de pé quando o sentimento nos falta.
Arthur franziu a testa, sem responder.
— Se dependêssemos apenas do impulso espontâneo para cuidar uns dos outros — continuou o padre —, metade dos doentes ficaria sem visita e pouquíssimas mesas teriam pão. Talvez nem nós dois estivéssemos aqui, se nossos pais tivessem escolhido cuidar de nós apenas quando o coração transbordava de amor, e não quando precisavam levantar de madrugada, exaustos, para nos acalmar quando éramos bebês.
Arthur abaixou os olhos, o silêncio da igreja subitamente mais pesado. Ele esfregou os nós dos dedos, sem encontrar uma resposta imediata.
O velho sacerdote suspirou, voltando o olhar para a porta pesada de madeira.
— O amor nem sempre é um sentimento caloroso que arde no peito; na maioria das vezes, o amor é apenas uma decisão. É o ato de se levantar, dobrar a esquina sob a neve e sentar-se à mesa, mesmo quando a sua alma está tão fria quanto o vento lá fora.
O silêncio voltou a tomar conta da capela, mas desta vez não parecia tão pesado. O som abafado de um apito de trem ecoou ao longe, cortando a noite de neve.
— A sua irmã não precisa que você sinta uma revelação divina ao lado do peru assado — concluiu Tomás, levantando-se devagar. — Ela só precisa saber que, no meio de um mundo vasto e indiferente, você escolheu atravessar a tempestade e a neve para estar na mesma sala que ela. O ritual não é uma mentira, Arthur. É a nossa única forma de dizer que nós ainda nos importamos, mesmo quando não sabemos como provar.
Arthur permaneceu sentado por alguns minutos após o padre se retirar para a sacristia. Olhou para as velas acesas, cujo calor mal chegava até ele, mas cuja luz cortava a penumbra.
Quando o apito do trem soou pela segunda vez, mais próximo, ele se levantou. Ajustou o cachecol no pescoço, caminhou até a porta pesada de madeira e a abriu. O vento congelante atingiu seu rosto com força, fazendo-o encolher os ombros.
Ele não sentia nenhuma alegria mágica. Não sentia o “espírito de Natal”. Mas, enquanto caminhava em direção à estação, pisando firme na neve fresca, sabia exatamente para onde estava indo e por quê.
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