Enquanto discute a reta final da peça *Prometeu Acorrentado* de Ésquilo, o autor analisa a terrível punição imposta a Prometeu, o simbolismo oculto por trás do fogo sagrado e as contradições entre diferentes versões dos mitos gregos.
No início, Prometeu diz que está ouvindo o som de uma ave se aproximando, o que no fim eram as ninfas. Ésquilo fez isso por causa do que vem em seguida, numa artimanha para apontar para a verdadeira punição de Prometeu. O Hermes ameaça Prometeu com algo terrível, mas ele se mantém irredutível e não conta seu segredo, mesmo diante da punição descrita.
Todos os dias — traduzido em alguns textos como abutre e na maioria como águia —, um pássaro enviado por Zeus apareceria para arrancar pedaços da carne de Prometeu até se alimentar de seu fígado, incessantemente. Essa punição seria anunciada por um raio poderoso e devastador que Zeus lançaria contra ele. Prometeu diz que já sabia de tudo aquilo. Logo depois, Hermes vai embora e deixa Prometeu com as ninfas, caminhando para o final da peça. A terra começa a tremer, acompanhada por um barulho muito alto e furacões, anunciando que algo bem feio ia acontecer. Prometeu percebe que não era só uma ameaça, mesmo conhecendo o futuro, e a peça termina com uma frase angustiante dele: "Ó minha augusta mãe, ó tu, divino éter, que cercais o universo de luz eterna, vede que injustos tormentos me fazem sofrer."
Entrando em pormenores pela obra de Hesíodo, descobrimos que essa punição durou 30 mil anos até Hércules aparecer e libertar Prometeu. Juntando Hesíodo e a Biblioteca de Apolodoro, vemos que não foi só o roubo do fogo que revoltou Zeus, mas também o churrasco ruim que Prometeu fez para ele e a questão da esperança dada aos homens. Na Biblioteca de Apolodoro, o texto diz que Zeus estava insatisfeito com a raça humana e queria exterminá-la. Antes que Zeus afogasse geral em um dilúvio — um detalhe curioso, já que os homens foram criados do barro —, Prometeu avisa seu filho Deucalião, que constrói uma arca para salvar a si mesmo e a sua esposa (a versão grega da história de Noé e da arca, presente em todas as antigas civilizações).
Zeus acabou destruindo as gerações humanas anteriores: a primeira foi a dourada, uma geração boa; depois veio a de prata, e Zeus matou todos por serem homens maus; a seguinte acabou por causa da peste negra; houve a de Aquiles, gerando bons homens; e por último a de ferro, a atual, que seria bem ruim. Diferente de outras mitologias, os homens na história de Prometeu são construídos do zero por ele, diretamente do barro. Contudo, surge um problema narrativo: se Zeus conseguiu destruir a humanidade no dilúvio, como a narrativa continuaria na versão de Ésquilo? A solução provável esteja no fato de serem versões diferentes da humanidade geradas por várias narrativas conflitantes.
Passando para as questões simbólicas da peça, temos a ideia do fogo como uma metáfora bonita e óbvia para o conhecimento e a iluminação. Era dito que a humanidade vivia com medo do escuro e por isso não conseguia progredir. Essa parte do simbolismo é a mais óbvia e até um pouco enfadonha, já que o próprio Prometeu fica explicando isso o tempo todo. É uma grande alegoria declarada, e não um simbolismo falso imposto por cabala ou alquimia. A descoberta do fogo foi uma grande virada na história humana. É curioso como os gregos viam o fogo — a sabedoria e a inteligência vindas dos deuses — como a única semelhança real que nos conecta aos deuses e, ao mesmo tempo, nos separa dos animais. O fogo é a única coisa que temos que não é nossa, mas dos deuses.
Como o nome Prometeu significa "pensar antes de fazer", isso também é uma referência à racionalidade. Ésquilo pode estar descrevendo o início de uma era da razão, impulsionada pela filosofia e pela evolução intelectual nas praças da Grécia, distinguindo os gregos de outros povos.
Além disso, Prometeu diz que entregou a esperança aos homens, que é na verdade outra forma de descrever o próprio fogo. Dar conhecimento é dar esperança, é fornecer uma tecnologia e uma inteligência que elevam a humanidade. No entanto, tudo isso é um tanto contraditório quando comparado com a outra parte do mito que fala de Epimeteu e da Caixa de Pandora. Na história de Pandora, a caixa é aberta e libera todo tipo de maldição sobre a terra, sendo fechada no finalzinho com apenas uma única coisa retida lá dentro: a esperança.
Isso gera um conflito interessante. Quem abriu foi a própria Pandora — descrita como tola e cheia de defeitos —, e a esperança, nesse contexto, parece ser tratada como a última maldição que permaneceu na caixa, algo que Prometeu não queria que a humanidade tivesse contato e que ele considerava ruim. Temos, portanto, duas perspectivas opostas: em uma, a esperança é o dom supremo da sabedoria trazido pelo fogo; na outra, é colocada como uma maldição retida na caixa de Pandora. É uma história fascinante, mesmo apresentando esse conflito entre as fontes.