As comédias da Grécia Antiga frequentemente utilizavam figuras públicas reais como alvos de sátira, gerando debates complexos sobre os limites do humor e da crítica social. A partir de uma análise da peça *As Tesmoforiantes*, de Aristófanes, discute-se como a representação do tragediógrafo Eurípedes e das mulheres atenienses transita entre a zombaria pessoal e reflexões profundas sobre liberdade criativa e censura.
Os personagens aqui são interessantes porque, apesar de todos eles serem bem caricatos, são razoavelmente profundos. Pelo menos quando a gente analisa bem direitinho essas contradições de alguns deles. O parente, o Mnesíloquof, o parente lá do Eurípedes, é um personagem fiel a Eurípedes, concordando com as coisas que ele fala, mesmo discordando do que ele fez. Ele fala que é justo, e há um debate moral dentro dele. Mas aí é que está: ele também concorda que é justo as mulheres punirem Eurípedes, mas parece que ele também concorda com Eurípedes de que elas são aquilo tudo, porque ele fala tudo da cabeça dele ali. Então, ele é esse personagem que é fiel ao ponto de aceitar aquela humilhação toda que passou ali, submetendo-se a um perigo óbvio também, já que vai enfrentar as mulheres lá no templo. Ele não é um cara passivo ali, ao passo que o tempo inteiro também mostra que ele está super temeroso com essa situação. Desde o começo ele estava com medo, e o tempo inteiro continua com medo. Claro que isso aqui é uma peça, aliás, uma comédia, então tudo isso tem que ser posto na conta. Mas olha só, além disso, ele realmente acredita que as mulheres são aquilo que o Eurípedes estava supostamente dizendo — eu digo supostamente porque isso aqui é um discurso do Aristófanes —, mas aquilo de que as mulheres estão reclamando, ele parece concordar também. E ele não é só um cara desenhado aqui como um personagem brutão e burro, assim como o arqueiro. O arqueiro é bem raso, mas o parente, pelo menos, a gente sabe que ele conhece todas as peças do Eurípedes. Pelo menos isso. Os maiores discursos da peça são dele. Ele faz longas citações, interpretações. Então, sei lá, é uma peça de comédia, mas eu achei o Eurípedes interessante, por outro lado. Por mais que ele seja realmente o alvo das críticas do Aristófanes — bom, já que as mulheres também confirmam o que ele diz sobre elas em grande parte, então não era bem invenção assim, não era tão invenção —, ele acaba fazendo ali um papel… Eu não sei se o Aristófanes queria, mas ele acaba sendo esse artista incompreendido ali, perseguido. Eu imaginei que ele era assim, um excluído, uma pessoa que era vista como um cara rebelde, um cara que era contra os princípios daquela época. É como se ele se rebelasse contra as estruturas daquela época. Tipo, por exemplo, eles acreditavam que ficar fofocando daquela forma era errado, inventando histórias mentirosas, espalhando boatos, o que a gente acredita até hoje em dia e vê como um escândalo. Falar mal é uma coisa que a gente vê como errada também. Então, ele se rebela contra isso, porque a peça é sobre isso mesmo, a ideia da peça é essa.
Só que, se você for analisar a peça em termos só do discurso interno dela e não através de uma biocrítica — o Panda usava essa palavra, biocrítica, acho que ele inventou essa palavra aí —, ou seja, essa interpretação que a gente pode fazer de um texto viciada pela informação que a gente tem sobre quem é o autor, ligado? Quando você tenta analisar a peça tendo como chave interpretativa o histórico do autor ou a filosofia do autor… Se a gente não fizer isso, se a gente ignorar quem é o autor, a peça acaba servindo não como uma crítica pura e simples a Eurípedes, mas como uma discussão sobre essa tensão entre liberdade criativa e liberdade de expressão, como a mulher fala, né? Aliás, não foi a mulher, acho que foi o parente. Foi o parente. Então, parece mais uma disputa assim entre liberdade criativa e censura. Porque, olha só, é muito fácil dizer que a peça é uma mera crítica a Eurípedes, porque a gente sabe que realmente o Aristófanes fazia essa crítica em várias outras peças, pelo menos em mais duas. Mas se a gente ignorar que ele fazia isso e olhar só para o discurso do conteúdo mesmo, para o discurso desse conteúdo que é a peça, parece que tem ali também uma defesa, uma defesa da liberdade criativa. E outra coisa: o Aristófanes está tomando muito mais liberdade para se expressar do que o Eurípedes, mesmo se a gente admitir que a acusação dele contra o Eurípedes está certa. Se fosse tudo verdade isso aí, mesmo assim o que o Aristófanes faz é muito mais debochado, muito mais perigoso até.
Ah, começou a chover aqui. Tomara que não atrapalhe, cara. Até porque, ó, como eu disse, dá para escutar. Você viu isso aí? Que as mulheres na peça estão meio que em cima do muro também, né? Porque, beleza, elas estão desde o início iradas com Eurípedes, mas elas não estão iradas com o que é dito meramente sobre elas. Não é porque… Elas estão iradas com o falar mal. Elas não estão iradas com os fatos. Quer dizer, não é nem falar mal, cara. Não é nem falar mal. É porque não é como se ele tivesse mentindo sobre elas, né? O problema é justamente que ele conta as coisas, ele conta a verdade. De expor. Exatamente. Começa a expor as coisas. Isso, exatamente. Ele revela segredos femininos, e isso é ruim para elas. É como se alguém… Isso realmente, falando dessa forma, me parece ter mais características de ser um grupo sectário mesmo. Porque assim, a gente pega, tipo, por exemplo, alguns grupos sectários que a gente sabe qual é o nome — tem uns bem conhecidos aí — em que, quando pessoas começam a falar, tal: "Não, ó, em tal grupo acontecem essas coisas", tem gente que é perseguida, né? Aí eu imaginei que, tipo, a mulher falando… Quando fala do… "Não, a gente tem que caçar esse cara, ele falou as verdades da gente, tal", eu imaginei que seria mais ou menos uma questão sectária mesmo, de: "Ó, não pode, o que acontece aqui fica aqui, a gente não pode espalhar". Exatamente. É um esoterismo no clube da Luluzinha, tá ligado? Daqui, aqui é só entre nós. Só as mulheres podem saber, isso aí acontece, mas fica entre nós. É um esoterismo feminino aí. Claro, né, cara? Um jeito idiota de falar, mas a ideia… Então, olha só, tem várias coisas acontecendo aqui.
Por exemplo, a ideia de uma assembleia de mulheres também é interessante porque elas estão num contexto ali onde aquilo simplesmente não tinha como acontecer numa sociedade patriarcal como Atenas, porque você tinha realmente uma exclusão completa das mulheres desse domínio público. Mas, num momento muito propício, onde eles não têm um tribunal — não tem nada nesse sentido ali por parte de quem fazia isso, que eram os homens —, elas se organizam para falar do seu algoz e para armar um plano que é quase um fomento à revolução feminina, se a gente for pensar assim. Fora que o festival era dedicado a duas deusas que simbolizavam não só a fertilidade, Perséfone e Deméter; principalmente, você tem uma ideia ali de renovação, ciclos naturais e não sei o quê lá. Além disso, também os rituais daqueles que a gente tinha falado lá, dos mistérios eleusinos, tinham toda uma simbologia sobre morte e renascimento, sobre purificação, sobre transformação. Então, rapaz, eu queria muito saber como é que foi recebido esse material, qual que foi a recepção dessa peça, já que era uma comédia, mas estava lidando com essas questões aí. Podia muito parecer… Olha só, a crítica que o Aristófanes coloca na conta de Eurípedes podia muito bem ser feita contra ele, podia muito bem ser feita contra ele.
Era uma agremiação informal, mas assim, não era exatamente informal. Informal em que sentido você está falando? Porque ela não era estatal, alguma coisa assim, mas era uma seita organizada e pública, inclusive. Eu não sei se era uma vez por ano, como é que acontecia isso aí. Não, eu não lembro se eu cheguei a ver isso também lá nos mistérios eleusinos. Os mistérios eleusinos aconteciam com homens e mulheres, né? Mas você vê, tinha pelo menos três festivais idênticos, cara, só de mulheres para isso aí. É, mas só isso. Era só… Só não tinha poder público mesmo. Mas os mistérios eleusinos também não tinham, mas tinha gente importante lá. Realmente elas não iam ter… Espanca aí, que aí é que entra o que eu falei, né? Por isso que tem um cheiro assim de… Mas essa coisa de você fomentar uma revolução feminina tem um cheirinho ali. Eu duvido muito que ele estava fazendo isso, mas que podia acontecer, podia, não podia? A reclamação dele é essa: que as peças de Eurípedes, porque ele falava coisas ali, estava acontecendo um monte de coisa na sociedade por culpa dele, né? Então, imagina ele tentando mostrar como é que as mulheres podiam fazer, né? "Ó, é só se juntar lá, vai ter um dia específico que é só para vocês, que a sociedade respeita, não tem tribunal, não tem nada, o conselho da cidade não funcionou, não faz nada". Não é nem que concorde nem que discorde, tipo, para eles é indiferente. Para eles é assim: "Ah, ok, isso aí está acontecendo aí". E é crível nesse sentido também o que está acontecendo aqui na peça, porque, pô, elas pegam esse momento e fazem a parada delas lá, né? E bem do jeitinho que elas podiam fazer. Tinha muita liberdade para coisas assim, né? Não tinha liberdade era de ir contra a crença grega, dos deuses gregos. Isso daí é o que eu acho que não tinha liberdade, tanto que era perseguido. Aí eu não sei.
Aí eu não sei, cara, porque Eurípedes vai longe assim nessas críticas que ele faz às crenças, né? Só que é porque Aristóteles… Quer dizer, Sócrates foi perseguido por causa disso, né? É, veja o que aconteceu com Sócrates também. Aham. Mas eram os caras que participavam desses cultos aí, né, cara? Então, sei lá, é tudo meio estranho. Por isso que eu falei lá no grupo hoje, né? Esses atenienses eram uns pés no saco, cara. O pessoal armava encrenca. É igual hoje, cara. Na verdade, qualquer coisa você quer arrumar uma lei para punir os caras e ponto final.
