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Eurípides era misógino? Analisando Aristófanes e as tragédias gregas

Eurípides era misógino? Análise de Aristófanes e tragédias

A discussão gira em torno da comédia de Aristófanes e das críticas severas que o comediógrafo direcionava a Eurípides, abordando temas como a suposta misogenia, o ateísmo e o uso da retórica nas tragédias gregas.

Quando Aristófanes junta essa peça e a das *Rãs*, a gente vê que ele tem duas críticas principais e uma secundária que ele faz a Eurípides. A secundária, que está nesta peça, é a acusação de misogenia — se é que podemos chamar assim —, embora seja a acusação mais específica feita aqui. Ele diz que Eurípedes detona as mulheres e lhes faz mal; na outra peça, inclusive, ele fala que as mulheres andavam até tomando cicuta por causa dele. Olha o tipo de consequência que ele põe nas costas de Eurípedes!

As outras duas acusações são um pouco mais amplas. Uma delas é sobre o possível ateísmo de Eurípedes, já que, como ele diz aqui e repete na outra peça, Eurípedes convencia as pessoas de que os deuses não existiam. A outra crítica é que ele usava a arte para persuadir e enganar, valendo-se da retórica sofística. Aristófanes descreve Eurípedes bem nessa linha dos sofistas: um manipulador, um cara da retórica, um poeta que fazia poesia com segundas intenções. Ou seja, a ideia do Aristófanes é a de que ele era um "militante vagabundo", principalmente na outra peça, mas aqui também, onde pegou um assunto específico para pisotear, que é essa suposta misogenia.

Isso transforma o personagem do Parente num cara que, na verdade, é apenas ingênuo e suscetível à manipulação de Eurípedes. Parente começa dizendo que a punição de Eurípedes é justa, mas passa a peça inteira defendendo com unhas e dentes todas as acusações que Eurípedes faz em favor das mulheres, a ponto de quase morrer.

Isso acontece porque — como eu tinha dito, sendo uma interpretação pessoal minha —, eu imagino que Parente seja um personagem em cujo lugar a gente se coloca, pois ele não é caricato, diferente de Eurípedes, que é bastante caricato. Parente se mete nas furadas de Eurípedes e o ajuda; ele apenas segue o fluxo da narrativa.

A coisa mais interessante para mim é essa acusação de misogenia, e eu fiquei pensando se isso faz sentido olhando para esta peça. Há uma hora em que a mulher fala: "Ó, ele só faz peças sobre mulheres perversas". Mas pense nas *Troianas*! Nós lemos três peças dele aqui, e as *Troianas* foi a primeira. Por que ela leva esse nome? Porque ele olha para várias mulheres — umas quatro ou cinco — naquele contexto da guerra de Troia e enaltece todas elas. Elas são as vítimas ali, e o diálogo gira todo em torno delas. Depois você vai para a peça da *Andrômaca*. Como assim, peças só de mulheres perversas? Nas *Troianas* não é isso que ele faz com nenhuma delas; há um problema com Helena, e todas estão contra ela porque Helena é a traidora.

Lembrando que Eurípedes fala mal dos gregos; ele é um grego tentando falar mal dos gregos, dizendo: "Gente, a gente não pode ser desse jeito, veja bem". Ele vai dando vários exemplos em suas peças para tentar mostrar que aquele discurso de que tudo era resolvido na base da porrada não era coisa de gente civilizada. Então, ele sempre fala mal dos gregos, mas das outras mulheres ele não fala mal.

Aí você vai para a *Andrômaca*, a mulher de Heitor. Ela perde Heitor na guerra de Troia, é passada para um outro cara que depois é morto, e vai para as mãos de um terceiro, Neoptolemo — que nós carinhosamente chamamos de pastor neopentecostal por causa do nome. Nessa peça, Andrômaca também é uma mulher forte, fiel, resistente, sobrevivente, exatamente o tipo de figura que as feministas adoram.

E esse é o grande problema, porque quando você vai ler algumas introduções aos materiais de Eurípedes — vimos três peças dele aqui —, o que a galera adora falar é que ele já tinha propostas feministas desde aquela época, que é o que você estava falando antes. Então, espera aí: como é que a acusação de misogenia vem justamente contra esse cara por parte de Aristófanes?

É por isso que eu acho que não faz sentido absoluto. Tudo bem que existe a acusação que Aristófanes faz, mas, ao mesmo tempo, quando você pega as outras peças e vê que ele fala bem — ou pelo menos não fala mal — de outras mulheres, você acaba questionando essa ideia. Não é que ele odeie as mulheres; ele não gosta do *status quo* da Grécia. Ele critica a Grécia.

Eu fiquei pensando que talvez o texto seja meio ambíguo de propósito mesmo. Acho que ele faz isso com um tom de provocação; ele provoca para as pessoas se sentirem provocadas. Não provocadas pessoalmente, mas no sentido narrativo: tipo, "putz, ele não gosta de mulheres, eita!". Mas aí é que está: eu queria saber de que lado Aristófanes estava mesmo, porque fiquei com dúvida.

No fim das contas, ele vai pegar essa celebração das Tesmofórias e, fosse de propósito ou não, isso servia para reforçar a conexão entre as mulheres. Muito embora Eurípedes e Parente concordem que, se o dramaturgo fosse punido por elas, isso seria justo, Aristófanes podia muito bem estar usando isso para fazer aquilo mesmo de que acusava Eurípedes: avisar a parte masculina da sociedade sobre um perigo potencial, que eram essas festas religiosas estritamente femininas. Essas festas eram uma oportunidade muito boa para elas se reunirem longe da supervisão masculina para fazer o que quisesses; era quase um ritual de autonomia feminina.

Se algumas pessoas que a gente conhece muito bem estivessem aqui na live, diriam: "Não, ritual gnóstico cabalístico!", e começariam a dizer que esses rituais eram Cabala. Mas o pior é que eu teria em partes que concordar, porque há muita gnose naquelas falas da outra peça. Nesta aqui não tem nada — na verdade, eu não fiquei procurando, mas na outra tinha muito. Não é gnose exatamente, é essa coisa incipiente, Platão está ali, então não é exatamente gnose. Quer dizer, talvez até desse para chamar de hipnose… bom, gnose seria um anacronismo, como você mesmo disse.

Mas faz sentido associar, porque, em termos históricos, quando Roma invadiu a Grécia, ela absorveu muito da cultura grega. E o gnosticismo surgiu… se eu estiver errado, você vai me corrigir porque entende disso. Mas o gnosticismo nasceu justamente como uma crítica, ou um levantar contra o cristianismo, entende? Então eu não sei dizer se… quer dizer, o período está certo. Eu não sei se a ideia era criticar, mas era uma mistureira de crenças. Imagino que possa fazer sentido associar à gnose porque Roma absorveu muita coisa grega. Pode haver uma ligação de cosmovisão, de forma de se ver o mundo, como uma inspiração.

O Alfredo disse que gostou daquela sua ideia de que, na peça, Aristófanes teria querido provocar uma reflexão sobre as críticas que Eurípedes realmente havia feito. Na outra peça, a sensação que tive era de que Aristófanes estava dando tiro para todo lado. Ele fala mal das intenções de Eurípedes como orador, da retórica, da persuasão, diz que ele se importava muito com a eloquência e queria causar certas reações na sociedade. E até isso vem da boca do próprio Eurípides na peça — ele assume que é isso que quer fazer (claro que não é o Eurípedes de verdade, mas Aristófanes colocando isso na boca dele, o que é significativo). Depois ele fala mal dos artifícios literários, dos truques, dos clichês, tira sarro de algumas coisas que Eurípedes gostava de fazer, diz que ele era uma espécie de ateu e aponta o efeito que ele estava causando na sociedade, principalmente nas mulheres.

Então, naquela primeira peça, parece que ele está só dando tiro para todo lado, dizendo que tudo o que Eurípedes faz é ruim. Já aqui, ele se concentra nesse negócio das mulheres. Inclusive, tem outra peça do Aristófanes chamada *A Assembleia das Mulheres*; eu não sei o que tem lá, não vi, mas fiquei curioso para ver se Eurípedes aparece de novo. Mas, nesta peça aqui, ele só quer falar que Eurípedes fala mal das mulheres e que elas estariam revoltadas — sem que nada disso precisasse necessariamente estar acontecendo, afinal é uma comédia. Mas pode ser uma leitura razoável da sociedade da época, até mesmo de Eurípedes ou das próprias mulheres. É difícil, cara.