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A Comédia Grega e o Teatro de Aristófanes na Peça As Rãs

A Comédia Grega e o Teatro de Aristófanes em As Rãs

Nesta análise da comédia grega antiga, discute-se o uso do teatro de Aristófanes na peça *As Rãs*, com foco particular nas referências a cultos de mistério e seitas da época. O autor examina como o comediógrafo ateniense trata esses temas religiosos em contraste com o tom humorístico predominante na obra.

Ele quer muito falar dessa seita nessa peça, cara. E ele não faz zombaria com ela. Não sei se vocês perceberam, ele zoa tudo na peça, mas não usou isso para fazer piada. Talvez o fato de ter começado com aquela honra, aquele canto a Deméter, coloque-o num patamar mais elevado aos olhos de Dionísio. A mensagem por trás da peça, a intenção do autor, seria colocar implicitamente a ideia de que as pessoas deveriam aderir a esse culto, porque ele seria melhor do que todos os outros. Pode ser, cara. Pode muito bem ser, porque ele está fazendo uma propaganda, né? Havia procissões de tempos em tempos em Atenas, que é onde a história se passa, então todo mundo conhecia essa seita. Tinha procissão na rua com uma galera passando com representações das divindades, alguém levantando uma tocha, o fogo eterno, e todos esses elementos de caráter bem gnóstico. Eu tinha deixado para falar disso mais para o final, mas imagina, todo mundo sabia disso, tá ligado? Tem citação disso no Platão, cara. Gnose em Platão, você entendeu? Então o bagulho é super conhecido. E como ele não faz nenhuma piada com isso… Porque, veja bem, ele tirou um sarrinho da homossexualidade dos caras no começo da peça, e faz isso em outros momentos também. Alguém poderia argumentar: "Não, mas ele está só fazendo piada como um comediante que pega coisas do dia a dia, coisas que são normais, e não algo que era motivo de chacota". Ou seja, ele poderia estar fazendo piadas com algo que era normal para ele. Mas não é isso que me parece, porque ele faz críticas bem pesadas a Eurípedes no discurso sobre a poesia, mas não faz piadas com os iniciados.

Sempre que entram os iniciados, desde o começo, não tem nada de palhaçada, absolutamente nada. Eu estava comentando isso numa chamada longa que fizemos anteontem com o pessoal, inclusive com o Lisboa. Eu queria ver qual seria a palhaçada que o Aristófanes fará com essa seita, mas o negócio foi ficando sério. O texto tem passagens bem rápidas em formato de diálogo, e de repente chega um bloco longo de texto que é puro panfleto de propaganda da seita. Eu pensei: "Eita, vamos ver". E fui lendo: "Cara, espera aí, acho que eu não entendi. O que ele quer dizer?". Li de novo e pensei: "Caramba, velho". Inclusive, é nessa parte que o Corifeu entra, junto com o coro dos iniciados. O Corifeu entra para falar com a plateia sobre a seita e não faz nenhuma piada, tá ligado? Tem uma pegada muito panfletária, ele exalta a seita e não faz nenhuma piada. Quando terminei a peça, voltei lá para ler de novo devagarinho, e vi que não tem nada disso. Com o Hércules, todas as frases são piadinha, menos na parte dos iniciados. No final, de novo, nenhuma piada com os iniciados. Então, provavelmente o Aristófanes era adepto dessa parada aí.

Isso me lembra um livro que comprei por impulso só porque estava em promoção na Amazon, *O Poder da Ação*, e outro que é um livro de coach indiano que faz propaganda de um estilo de vida autárquico. Ele insere o nome desse negócio em tudo que pode. Mas voltando aos gregos, o que é isso se não um culto esotérico? É exatamente a mesma ideia de esoterismo. E agora ficou mais claro para mim o final da peça, porque eu achava meio abrupto ele ter escolhido Ésquilo. Para a plateia de mais de dois mil anos atrás, os argumentos devem ter sido muito convincentes, e para a nossa mentalidade atual isso fica meio perdido, mas agora fez mais sentido.

Deixe-me acrescentar um detalhe bizarro: parece haver indícios históricos de que todos aqueles grandes nomes da Grécia antiga participavam dessa seita em alguma medida. Não tem como termos certeza absoluta, mas Sócrates, Platão, Aristóteles e Sófocles parecia que participavam. Como havia as procissões na rua, o aspecto exotérico era público e todo mundo via quem participava, mas o que rolava lá dentro era um mistério. Por isso se fala tanto de esoterismo em Platão, e faz todo o sentido, pois se havia essa relação pública dele com uma seita de gnose pura… Puxando René Guenon, você vai ter essa escola iniciática. Inclusive, outra coisa que descobri é que há elementos que aparecem até hoje em escolas iniciáticas, como na maçonaria. Isso não é invenção minha, você pode procurar rapidinho na internet e encontrar na Wikipédia. São informações básicas, mas o que quero pontuar não é a veracidade disso, que parece ser senso comum entre os acadêmicos, mas a relação disso com a obra de Eurípedes e dos outros autores citados. Parece haver uma conexão muito maior do que aparenta, embora na obra fique um pouco estranha essa panfletagem.

Vocês lembram do tal de Iaco que o coro dos iniciados aparece gritando? O Iaco é justamente o cara que aparecia com a tocha na mão nas procissões. Ele vinha com a tocha, e já falamos bastante sobre o símbolo do fogo para os gregos, da iluminação e tal. E lembrando que o primeiro a citar Deméter, assim como os iniciados, é Hércules, que, apesar de ser um semideus, era essencialmente um mortal — embora houvesse discussões sobre isso, e no final do seu arco mitológico ele receba a imortalidade. Ele é um mortal que faz a conexão entre os homens e os deuses, e desce ao Hades porque quis, conseguindo sair de lá. Hércules acaba sendo um grande símbolo de superação da humanidade justamente após deixar as trevas do submundo. Isso é muito gnose, cara.

Mas voltando à estrutura da peça, vamos listar a quantidade de nomes de autores e peças que o Aristófanes cita até aqui: Frínico, Lísias, Amépsias, Eurípedes, Sófocles, Iofon, Xenocles, Pitângelo — esse nome aqui eu achei maravilhoso, Pítangelo, nunca tinha ouvido —, Agatão (que era um rapaz muito bonito, como está na nota de rodapé, e que aparece inclusive no *Banquete* de Platão junto com o amante dele), Márcimo, Cinésias (o cara da dança pírrica que merecia arder no inferno por causa de dancinhas) e Diágoras. Por enquanto são esses nomes, mas ele vai citar outros depois: Cratino, Ponex, Formísio, Megentes, Clitofon, Terâmenes, Orfeu e, por fim, o maravilhoso Museu. Eu não aguento esse nome, Museu, velho! Mas Pitângelo é o melhor de todos. Será que tem a ver com o sufixo "ângelo", que vira anjo para a gente? Tipo arcanjo, ou um pitanjo? Transformando para a nossa língua, seria pitanjo, mas eu não sei o que poderia ser.