É sempre um tanto perigoso saudar um espírito amador que parece superar o nível geral. Esse nível geral é tão fastidiosamente ciumento de sua dignidade, e tão terrivelmente rápido em fustigar os entusiastas com suas acusações nasais de motivos ulteiores e parcialidade interessada! De sangue hibernal e pés de elefante, a cegueira desconfiada da senescência e da estagnação literária estará sempre conosco para gritar “fanfarrisse”, citar velhos rifões e escarnecer fora do tribunal as sutilezas que não consegue compreender. Mas, porque temos um elemento civilizado igualmente permanente, e ainda mais digno de atenção, não basta deixar que os valores pereçam por completo. É por isso que convém, nesta conjuntura, chamar a atenção para um jovem escritor que nos trouxe o primeiro sopro inédito de visão verdadeiramente criativa que tivemos em anos.
Frank Belknap Long, Jr., poeta, crítico e tecelão de fantásticos, é o escritor em questão. Ele se destaca acima da multidão não devido a qualquer perfeição definitiva de estilo ou singularidade de tema, pois ele ainda é jovem, inconstante e influenciado por modelos externos de variada dignidade; mas devido a um êxtase criativo puramente daemônico e a uma sensibilidade apaixonada pelas nuances mais delicadas e imperceptíveis de cor e beleza, que não mais do que outro amador da atualidade pode-se dizer que iguala ou supera.
O Sr. Long não poderia ter ascendido à proeminência em momento mais oportuno. Com as chamas dos revivamentos literários anteriores ardendo baixinho, o amadorismo encontra-se atualmente sob o domínio de uma devoção curiosamente obstinada a ideias e critérios ultrapassados. Em termos gerais, faltou-nos por completo o elemento moderno vital; pois até mesmo nossos rebeldes ostensivos são definitivamente de meia-idade e emocionalmente ancorados no passado que intelectualmente rejeitam. Não é difícil definir e desmantelar essa tradição esgotada, pois suas características são dolorosamente claras. A tradição é de blandícia, imitação e ilusão — de absorção exagerada na rotina sem sentido da vida comum plácida, crença injustificada em relações vagas entre o prazer estético e a verdade intelectual, e adoração provincianamente desproporcional por pequenos escritores espertos como a camarilha de Longfellow-Holmes, que meramente se conformam de maneira agradável a certos cenários afetados, afetações e urbanidades, sem tocar em uma única emoção autêntica ou possuir a menor parcela de percepção e discernimento verdadeiramente originais.
As revoluções literárias não são novidade. As pessoas idosas que sorriem com complacência e predizem a rápida subsidência do modernismo esquecem completamente o Renascimento e até mesmo o reavivamento romântico do início do século dezenove. Como naquelas épocas, o mundo recebeu um influxo colossal de novas ideias muito bem calculado para remodelar todas as nossas impressões e reformular todas as nossas expressões. Vemos a vacuidade de coisas em que acreditávamos antes e, acima de tudo, a desconexão de coisas que outrora julgávamos indissoluvelmente unidas. É o nascimento de uma nova estética, fundamentada na antiga, mas indo além dela, e exigindo a sensação pungente, bela e genuína como a essência do esforço artístico. Alguns dos antigos autores, é claro, atendem a essa demanda; pois a voz da Natureza nua e crua nunca varia. Mas muitos falham em fazê-lo, porque escreveram menos a partir da Natureza do que de concepções e interpretações falsas dela, ou simplesmente copiaram aqueles que os precederam. Não há valor literário em uma transcrição sombria dos sentimentos, convicções e pontos de vista alheios. O papel é caro demais para ser desperdiçado com pensamentos e imagens de segunda mão, por mais ambiciosamente servidos que sejam. O que queremos são projeções incandescentes de personalidade individual, não reflexos cinzentos e frios da psicologia de rebanho de Babbitt. Tais projeções, Frank B. Long, quase sozinho entre nossos escritores amadores mais novos, consegue nos proporcionar.
O gênio do Sr. Long é espontâneo e autoexpressivo. Educado em escolas americanas convencionais, e nas Universidades de Nova York e Columbia, ele foi minuciosamente dosado com a literatura tradicional dos pais; revoltando-se apenas porque é agudo e esteticamente responsivo demais para se contentar com o óbvio e o chapa-branca. Sem ajuda, ele sentiu a insinceridade do “silêncio de museu” e a genuflexão costumeira perante deuses mortos e estáticos, e quase sem guia encontrou sua própria voz entre a luz, a cor e a beleza exótica do Renascimento italiano, a requintada aventura sensorial dos simbolistas franceses e os mundos oníricos delicados e policromos que sua fantasia ardente gerou de velhas lendas, relances lunares da infância e memórias tenuamente refletidas do distante litoral mediterrâneo, onde a água é azul-profunda e ventos perfumados serpenteiam por colunatas de mármore partido em colinas verdes voltadas para o mar.
Isso pode soar imaturo. Talvez o fosse se não devesse ser considerado mais do que um ponto de partida. Mas um ponto de partida é precisamente o que é, e seu valor reside na total repudiação do lugar-comum e na adoção da beleza pagã livre como mestra, o que isso envolve. Pois o Sr. Long ultrapassou a barreira momentosa e aprendeu a lição momentosa: que a beleza é unicamente prazer, e deve ser tomada jubilosamente onde quer que seja encontrada, independentemente de todos os antecedentes e sequências. Quando ele se expressa, é puramente para promover sua exaltação estética pessoal por meio de arabescos belos, fantásticos ou terríveis, cada um independente, distante da vida prosaica e de suas associações, e concebido em um espírito essencialmente decorativo; para satisfazer, com simetrias imaginativas estranhas e enfáticas, um impulso neural natural e insistente. E porque esse impulso não se mistura com o amor à fama, o respeito à convenção, o interesse pelo público ou qualquer outra ambição vulgar, mas é realizado em uma linguagem de vitalidade assustadoramente original e fluidez musical cintilante, o Sr. Long é um artista.
II.
O crescimento do gosto do Sr. Long é extremamente interessante de se estudar. Surgindo no amadorismo no início de 1920 com uma história francamente juvenil e elementar, “O Preço do Dr. Whitlock”, seus dons excepcionais foram discernidos por não mais do que um crítico em todas as agremiações. Esse crítico, contudo, enxergou a única coisa essencial: que as imagens do jovem autor eram todas produtos autênticos de uma imaginação visual real, e em nenhum caso adaptadas cegamente do depósito de bugigangas de leituras juvenis anteriores. Por essa época, o Sr. Long escreveu ficção voluminosamente, e com um poder em ascensão meteórica tão acentuada que seu conto publicado seguinte, “O Olho Acima da Lareira”, surpreendeu bastante aqueles que o haviam julgado pelo antecessor. Foi nesse conto que sua intensa originalidade, seu senso dramático e seu poder de imaginação fantástica apareceram pela primeira vez de maneira marcante. Em novembro de 1921, surgiu “No Túmulo de Semenses”, uma fantasia egípcia repleta de frases musicais e sutilmente rítmicas, e visões opiáceas de “luzes multicoloridas e o bater estrondoso de portas de ferro coroadas”, que proclamavam o genuíno poeta sob uma veste de prosa. Posteriormente, o Sr. Long, embora não abandonando o campo, escreveu menos ficção; como se percebesse que, por ora, seu forte residia na apresentação de quadros vívidos, isolados e suntuosos — impressões únicas e languorosas desprovidas de pensamentos e sentimentos comuns, temperadas com as riquezas da introspecção distante e iridescentes com uma bizarria extrema. A ele pertencia a herança de Baudelaire.
O Sr. Long, como poeta em prosa, desenvolveu algumas vinhetas inesquecíveis de formosura grotesca, estranheza e horror, e alcançou alturas que poucos amadores compartilham. Luz, cor, sensação — todos esses elementos essenciais da pura arte misturam-se magicamente em fantasias como “A Migração dos Pássaros”, “Flores da Iniquidade”, “Na Casa de Poe”, “Infelicidade” ou “Felis”. “Felis” marcou um novo crescimento do poder do Sr. Long, e embora ele próprio tenha passado a considerá-lo imaturo, sua força e felicidade expressiva são na verdade tremendas. Há uma ou duas brechas para risadinhos analfabetos quando é lido com uma análise verbal desprovida de compreensão, mas que crítico real pode perder o feitiço sinistro da conclusão?…
“Algum dia hei de me afogar num mar de gatos. Afundarei, sufocado por seus abraços, sentindo seu hálito quente no rosto, fitando seus olhos grandes, ouvindo em meus ouvidos o seu ronronar suave. Descer em cascata preguiçosa através de oceanos de pelo, entre miríades de garras, agarrando incontáveis caudas, e entregarei minha alma desgraçada ao deus egoísta e insaciável dos felinos.”
Com essa constatação do valor artístico de quadros e sensações dissociadas, não é de estranhar que o Sr. Long tenha se voltado para a poesia formal e de tom algo keatsiano. É o que ele tem feito e feito cada vez mais, conquistando pelo menos um prêmio e despertando considerável atenção fora do amadorismo, estando representado em nosso círculo por sonetos e líricos tão primorosos como “O Mar Interior”, “O Rebelde”, “Garanhões da Lua” e aquele pedaço inspirado de pentâmetro elegíaco chamado “Busca Exótica”, que contém o verso vívido: “Onde grifos dourados banham-se em lagos à meia-noite”. Se esse espécime isolado parecer sugerir preciosismo, um rápido vislumbre dos outros logo dissipa tal noção; pois quase todas as peças recentes trazem evidências da entrada do Sr. Long no clima do modernismo irônico, com seu desprezo pelo grandioso e sua justaposição astuta do desprezível e do sublime, do lugar-comum e do exaltado. Esforços rimados nessa vertente não foram publicados no amadorismo, mas podemos apreender o clima igualmente bem a partir do poema em prosa “Ingênua”, com sua paródia cansada do mundo sobre a pedantaria, a grandiloquência, o bombástico, a reverência, a cavalaria, as ideias conexas e os arreios da tradição em geral. O que exatamente essa saturninidade ultramoderna fará à energia criativa ingênua do Sr. Long, não podemos dizer. A tendência em excesso seria adversa, mas é provável que a pura intensidade emocional do artista a limite no fim. Por ora, talvez seja útil para conter o que de outra forma seria uma ingenuidade excessiva ou uma exuberância e extravagância juvenil.
Resta considerar o Sr. Long como crítico, capacidade em que ele segue — como seria de esperar — o método puramente pessoal, subjetivo e impressionista de seu favorito John Cowper Powys. Ele não se deixa intimidar pelo “culto à veneração escolástica”, nem tem jamais medo do entusiasmo. Com sua vasta bagagem e sensibilidades mais do que agudas, ele está entre o pequeníssimo grupo de amadores verdadeiramente qualificados para avaliar a literatura fantástica e imaginativa — percebendo pontos que a visão calosa da média ignora — e só podemos esperar que lhe sejam dadas amplas oportunidades para auxiliar no reavivamento artístico do amadorismo. Suas poucas fraquezas críticas são aquelas que aparecem ao lidar com a análise de sangue frio e a literatura de intelecção filosófica, em distinção à arte. “Um Humorista Amador” é o título da crítica mais conhecida do Sr. Long em nosso círculo. Ele conquistou Menção Honrosa no concurso de Ensaio Laureado da N.A.P.A. em 1923.
Como um todo, há em Mr. Long algo do espírito inquieto, inquisitivo e aristocrático de sua amada Renascença Italiana. Sua imaginação visual é prodigiosa, e seu gosto por pintura e escultura, excepcional. Apenas na imaginação auditiva e na apreciação musical ele sente limitações. Ele é um jovem fauno desgarrado de Arcádia, inocente e vibrante, ávido por ser sinceramente ele mesmo em um mundo de mediocridade, repressão, cegueira e estupidez. Esta é a personalidade assertiva e singular que faz dele um indivíduo bem definido em vez de um clichê sem cor; que faz dele um pagão destemido e um artista genuíno. Ele ainda não está maduro — palavras rebuscadas e posturas ainda o charmam um tanto mais do que deveriam, enquanto seu ardor juvenil ocasionalmente o conduz para perto das fronteiras do dogmatismo estético e do humor involuntário —, mas está amadurecendo rapidamente. Com uma constituição finamente calibrada, força emocional ilimitada e uma mente totalmente livre de gostos cafonas e sentimentalistas e de falsas perspectivas limitantes, Mr. Long possui um futuro para o qual apenas um profeta imprudente estabeleceria limites. Ele é hoje o segundo maior artista criativo remanescente no jornalismo amador.