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Por que as mulheres gregas condenaram Eurípides à morte?

Por que as mulheres gregas condenaram Eurípides?

Embora a peça comecem com Eurípides, o verdadeiro protagonista da história é o seu parente, Mnesíloco. Na cena inicial, Mnesíloco é conduzido por Eurípides a um lugar desconhecido. Eurípides, descrito por Aristófanes como um homem cheio de recursos retóricos, sofísticos e de grande poder de persuasão, esquiva-se das perguntas do parente e evita revelar o destino. Eles param diante da casa de Agatón, um tragediógrafo que inclusive aparece no *Banquete* de Platão, ocasião em que Aristófanes também estava presente.

Logo surgem várias piadinhas sobre a homossexualidade de Agatón. Um servo de Agatón sai da casa para realizar sacrifícios e invocar as musas e os deuses do panteão olímpico, buscando abençoar a poesia de seu senhor. Essa comédia é bastante obscena logo no começo e, depois, fica ainda pior, com os personagens fazendo chacota do próprio servo e de suas falas. Mais adiante na história, revela-se que Eurípides não possui crença nos deuses, sendo frequentemente chamado de ateu — o que demonstra que a crítica de Aristófanes é direcionada mais aos atenienses e às suas crenças do que ao panteão em si, no qual o dramaturgo ainda parece acreditar em alguns momentos.

Enfim, Eurípides pede ao servo que chame Agatón e diz para esperarem. É nesse momento que Eurípides finalmente revela ao parente o motivo de estarem ali: ele foi sentenciado à morte pelas mulheres da cidade por ter falado mal delas, e agora elas se revoltaram para executá-lo. Mnesíloco indaga como Eurípides será julgado, já que naquele dia não há assembleia do conselho ateniense nem tribunais em funcionamento, visto que estão no meio das Tesmofórias.

O nome da peça remete justamente a essa festividade, as *Tesmoforiantes*. Trata-se de um evento religioso em honra a Deméter e Perséfone que, assim como nos mistérios eleusinos discutidos anteriormente, traz elementos de um protognoticismo ou gnosticismo incipiente. Esse esoterismo influenciará as ideias do próprio Platón, que parecia participar dessa seita esotérica da qual faziam parte muitas pessoas importantes. Embora os mistérios eleusinos fossem públicos, a festividade das Tesmofórias possuía uma dinâmica diferente, pois apenas as mulheres podiam participar e entrar no templo. Mais adiante, a peça ainda cita outras duas festividades exclusivamente femininas dedicadas às mesmas deusas: as Estênas e as Ciras.

O grande mote da peça é que são justamente as mulheres que conspiram contra Eurípides e pretendem erguer o seu próprio tribunal para julgá-lo. Quando o parente aponta que não há tribunais funcionando, Eurípides esclarece que elas mesmas formarão o tribunal. O motivo da condenação, como mencionado, é o fato de Eurípides falar mal das mulheres em suas tragédias. O próprio Mnesíloco chega a comentar que, se isso acontecesse, ele morreria com justiça — o que evidencia a ironia de o parente concordar com a sentença apesar de estar envolvido na trama de Eurípides, que já urdia um plano para se defender.