Dedicado com Respeito ao Mestre Cônsul Hasting
Na outra noite, deitado a esmo,
Damon sonhava com seu labor d’esmo,
Quando ao seu leito solitário e vão
Desceu com graça a Delia em visão.
Sobre seus olhos extasiados flutuou,
E um feitiço em seu coração lançou;
Até que os dons do céu pareceram unidos
Num só corpo, aos olhos concedidos.
A ninfa (bela em verdade, afinal)
Brilhava em dobro ao mancebo mortal,
Pois em seu semblante infantil resplandeciam
Vinte encantos que os sonhos traziam.
Quem traçará com pincel perfeito
A visão que o jovem deteve no peito?
Tal fardo excede o meu torpe labor,
Cujas noites jamais viram tal fulgor!
Imaginai rosto jovem e puro,
Com ares de deusa e traço escuro;
Lábios que as Graças invejam sem fim,
E olhos negros de brilhar assim.
Madeixas de seda, da cor mais sombria
Da noite de estio que o orvalho umedece e fria,
E uma esbelta forma cujos trajes de arminho
Arrastavam-se como nuvens no caminho.
Isto viu Damon, e ao contemplar,
Seu amor viu em chamas brilhar;
A ninfa curvada fitou sem falar,
E a grata solidão passou a abençoar.
Mais perto veio o formoso fantasma,
Enquanto a chama do jovem se abrasa;
Até que, antes de ver sua intenção,
Os lábios da visão tocaram os do mancebo, então!
Em êxtase o jovem tentou abraçar
A forma que o sonho ousara criar;
Mas tal pressa veio o encanto quebrar,
E Damon sobressaltado despiu o olhar.
“Volta”, ele gritou, “retorna pra mim,
Para apagar este fogo sem fim!”
Mas o espaço vazio repete o pranto,
E só a memória inunda seu canto.
Assim arrebatado, o jovem jurou
Adorar sua ninfa com fervor:
Com solene promessa jurou que jamais
Aos velhos folguedos voltaria atrás.
Os banquetes de Carísio, de vinho banhados,
Jurou para sempre ver sepultados;
Os jogos, os dados, a taça amigável,
Tudo isso largaria de modo infalível.
Sustentado por votos, saiu pela rua,
Nem santo há com prece mais nua!
Naquela noitada, ao recordar
As virtudes do dia que ia findar;
A rigores de passo, a sobriedade,
Os vinhos intactos, a inércia da idade,
O jovem Damon buscou o tempo matar,
Escrevendo versos para o tédio afastar.
Com a pena riscando, tentava contar
O feitiço de Delia a o encantar;
Do amor, da juventude, e de tal afã
Que bardos inventam pra esquecer a manhã.
Mas triste é dizer, logo se viu
Que a poesia não era o que ele sorriu;
Por mais que o bardo esforce a mão,
Bons sonhos dão versos de parca unção!
A hora avançava, mas o infeliz
Escrevia em vão o que a mente diz;
Quando de súbito sua virtude nova
Caiu em pranto e fugiu à prova.
Gritou ele: “Ó tolo que sou eu
Por largar os prazeres que o mundo deu!
Se os sonhos me guiam ao bem profundo,
Hei de sonhar minha vida inteira no mundo!”