É sem fim a credulidade da mente humana. Tendo acabado de atravessar um período de indescritível devastação causado pela rapacidade e pela traição de uma nação imprudentemente confiada que pegou a civilização desarmada e desprevenida, o mundo propõe-se mais uma vez a adotar uma política de doce confiabilidade, depositando novamente sua fé nesses imponentes “pedaços de papel” conhecidos como tratados e pactos; erguendo desta vez, como seu baluarte contra investidas bárbaras, um “parlamento do homem e federação do mundo” concebido de forma bela e abstrata, rotulado popularmente e semi-oficialmente como “A Liga das Nações”. Dizem-nos que será uma Liga muito simpática e atra এইente; transbordando de salvaguardas contra a guerra comum, ainda que algo deficiente em salvaguardas contra o bolchevismo. A guerra, de fato, deve ser formalmente e distintamente proibida, ou pelo menos desencorajada; o que é, decerto, uma garantia absoluta de um milênio imediato de paz universal! Em última análise, como os graves defensores do plano dignam-se a informar-nos, todas as nações devem ser incluídas neste círculo utópico de amizade e confiança; concedendo-nos assim a valiosa colaboração de nossos altamente honrados irmãos alemães, turcos e búlgaros na monumental tarefa de governar o Eliseu de âmbito terrestre do futuro. Em verdade, é uma visão agradável.
Mas as visões geralmente tornam-se perigosas quando confundidas com políticas práticas, e o presente caso dificilmente provará ser uma exceção. Visto que um mundo exausto pela guerra e mentalmente fatigado está realmente escutando com sobriedade a teorização vaga dos defensores da liga, cumpre-nos despertar para a plena consciência e examinar essa retórica rósea à luz implacável da razão, da história e da ciência. Assinar qualquer pacto de liga redigido às pressas e remendado de maneira desajeitada sem tal exame seria contrário às tradições de um povo livre e esclarecido.
É decerto verdade que o homem descobriu repentinamente uma panaceia infalível para todos os males políticos? É decerto certo que um emaranhado geral de países diversos e, em muitos casos, opostos oferece uma solução para todas as dificuldades nacionais? Trocamos de fato as leis naturais da humanidade e desta terra pelas de um conto de fadas? A todas estas indagações O Conservador inclina-se a arriscar uma resposta negativa.
A guerra, cuja minimização é o objetivo declarado da liga proposta, é algo que jamais poderá ser abolido por completo. Sendo a expressão natural de instintos humanos inerentes tais como o ódio, a cobiça e a combatividade, deve-se sempre contar com ela em algum grau. Os homens submeter-se-ão à argumentação apenas até certo ponto, além do qual invariavelmente recorrem à força, por maiores que sejam as probabilidades contra eles. A liga reduziria a guerra? Pelo contrário, teria provavelmente um efeito exatamente oposto. Ao multiplicar os contatos internacionais, multiplicaria as animosidades internacionais; e a cada surto de problema, as potências indiretamente envolvidas seriam menos propensas a agir constitucionalmente como supressoras, do que a dividir-se de acordo com a simpatia e o alinhamento prévio, participando como combatentes. Juramentos e tratados não valem mais do que a honra daqueles que os firmam. Estabeleçam uma liga, e ela logo será sublinhada por dezenas de ligas internas clandestinas.
O que precisamos como salvaguarda internacional não é de uma federação complexa e fútil de nações miscigenadas, boas e más, com a independência de cada uma virtualmente destruída; mas de uma aliança simples e prática entre aquelas potências, tais como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França e a Itália, que herdam em comum os mais altos ideais e que quase não possuem interesses conflitantes. Aqueles que erguem nossa União Federal como exemplo de uma “Liga” em pleno funcionamento fariam bem em assinalar o fato de que os estados componentes são todos de um tipo geral, e de modo algum comparáveis às nações amplamente diversas do globo. Tal aliança, devidamente armada, constituiria uma força quase irresistível e estável na política mundial; proporcionando a melhor defesa possível para a nossa civilização e oferecendo a melhor garantia possível contra guerras desnecessárias.
Deixemos de pensar em irrealidades, ou de pronunciar chavões benevolentes, porém vazios, como “desarmamento” e “fraternidade universal”. Não estamos vivendo no Paraíso, mas na Terra; e nos sairemos melhor se congregarmos as forças harmoniosas da civilização de maneira sensata para um objetivo alcançável, em vez de atrelarmos precipitadamente culturas opostas e dessemelhantes na vã esperança de realizar um ideal fantástico e impossível.