Uma Epístola a Rheinhart Kleiner, Esq., Poeta-Laureado
Congenial KLEINER, cuja fronte sustém
Os louros que atestam quanto teu verso tem:
A rimas mais rudes concede atenção,
E aceita de um amigo esta sincera unção.
O que direi? Hei de em tormento evocar
A morta tolice que o verso atual quer ditar,
Ou falar de Whitman, cujo brado beócio
Mal pode ser verso — um pobre negócio!
¡Ai! tais temas em mim não despertam afeto,
Nem posso lê-los sem tédio e sem defeito.
Praga nos patifes que tal rima incandesce!
Meu capricho a dias mais nobres apetece!
Dize, ó Musa, onde o tempo melhor se desata,
E a lenda esquecida mais nos retrata;
Onde eruditos exaustos, mais secos que o pó,
Inalam o mofo dos livros com dó;
Onde tomos ruídos nas prateleiras a ranger
Lançam séculos mortos em nosso ser.
Meu seja o prazer do sebo poeirento,
Onde velhos volumes dormem ao relento.
Meu seja o gozo de habitar o Pensamento
Nas horas passadas de tomos ao vento;
Com o auxílio de Wittie o Zodíaco contar,
Ou com Johnson o Fantasma de Cock-Lane caçar.
Nas páginas fúteis de Mather, sonhando, vagar,
Ou seguir Hawkesworth a um longe mar.
Ó velhos amigos que os anos abençoam,
Quantas vezes em vestes diversas ecoam!
Vede o esplêndido Maro, que em cada recanto
Adorna as paredes com romano espanto.
Intacto ou inglês; francês ou alemão,
Os versos de Virgílio a penumbra rasgarão.
Ó Lâmpada Mântua! Que bardo, afinal,
Mostra tal força em lavor genial?
Eis a questão, mas a resposta jaz
Onde um Homero podre os olhos nos traz.
O bardo cego e barbado ante nós arde,
E arrebata a mente com seu fado acarde.
Do cerco de Ilion ouvimos a voz,
Enquanto Ulisses encanta a todos nós.
Partilhamos tudo, mas qual terna união
Cerca os versos mais obscuros em solidão!
Cada qual tem seu favorito, e na mente reclama
Companheiros de alma a essa esquecida fama.
Lês Lucano? Ergue-te e vai sem demora
Onde Lucano em Rowe se colora.
Inúmeros líricos gregos num tom
Soam ingleses no quarto de Elton.
Ou se os originais buscas com afã,
Sente o cheiro dos pós na Dispensary de Garth!
Que sombras escolásticas pela penumbra voam
Onde os pesados infólios de Knapton ecoam!
O livreiro de barrete, agachado ao chão,
Tem do passado a mágica união:
Em sua face sulcada as rugas a rir
O prendem ao ontem com subtil porvir.
Ergue-te, Stanhope! Teu trem macaroni
Dança nos raios que a poeira coroa em tom de abono.
Salve, festivo Rochester, move o teu pé,
E dança na calçada com graça e fé!
Casa após casa em frontões desfilam,
E o quarto sombrio traz Londres em pila!
No chão, no raio de Sol a minguar,
O gato negro com fervor a brincar;
Mas que símbolo antigo poderemos ver
Senão o gato, do Homem eterno ser?
Dias egípcios cultos felinos já viram,
Cônsules romanos seu miado ouviram:
A pequena fera atrai o erudito olhar,
Enquanto os sábios param o gato a mirar.
Fora, à porta rangente, uma nação ferve,
E o Progresso a Cultura esmaga e adstringe.
O Passado bendito em loucura se esvai,
E o Comércio a calma do retiro retrai.
Ruídos sem fim, num coro demoníaco,
Acordam o Inferno e o fogo piromaníaco.
Um milhão de passos, na pressa febril,
Acatelam as ruas num tráfego vil.
De lábios grosseiros o bárbaro som
FerE os sentidos num feio tom.
Decadente era! Em que a Cultura retorna
Ao claustro sombrio, e o Homem se entorna.
Ah! Os dias em que eu sonhava à toa
Próximo ao Seekonk, onde o rio ecoa;
Quando bosques de folhas ornavam o outeiro,
E o canto das aves soava ligeiro.
Quando o zéfiro ameno o verão aquecia,
E o inverno estrelado a neve trazia.
Então brotava o verso puro do coração,
Que hoje exige do estudo a penosa função.
Então jorravam os dons da Criação,
Que hoje buscamos empoeirados no chão.
Contudo, amemos o sebo enquanto durar;
Pois em breve ele a outros dias irá se juntar!