O mito de Orfeu, o famoso músico da mitologia grega que amava Eurídice, é repleto de contradições profundas que raramente são exploradas pela poesia ou pelos livros de mitologia. A figura do herói carrega uma natureza paradoxal que se manifesta desde a sua descida ao submundo até a sua morte trágica, revelando camadas complexas sobre o amor, o caos e a mortalidade.
Existe um fato interessante que permeia a figura de Orfeu, mas que eu nunca vi ninguém comentar, nem na poesia nem em livros sobre mitologia. Se alguém já falou sobre isso, por favor, me avise, porque eu gostaria de ler. Talvez ninguém tenha falado, e por isso estou aqui para dizer.
O Orfeu do mito — aquele cara que ama Eurídice, que toca sua lira e faz chorar as árvores, os mortos e os deuses — tem uma natureza profundamente paradoxal. Primeiro, ele perde a mulher por um acidente que não é culpa dele nem dela. Não há nada exatamente paradoxal nisso. No entanto, nós só passamos a conhecer o verdadeiro Orfeu quando a mulher dele morre. É aí que ele desce até o mundo dos mortos por amor. Ele atravessa tudo aquilo e consegue convencer os deuses dos mortos, Hades e Perséfone, a deixarem ele levar sua esposa de volta, com a única condição de que ele não pode olhar para trás antes de os dois terem saído.
Só que ele olha para trás justamente por amor. Há um paradoxo aí: ao passo que o amor e aquele fervor foram o que o fizeram percorrer toda a Grécia para encontrar a porta dos infernos, descer até lá, negociar com os reis dos mortos e trazê-la de volta, ele também erra por amor. Todo o sucesso dele até ali é movido pelo amor, mas o erro dele acontece justamente porque ele acha que está sendo enganado e se vira para conferir se ela está ali. Ele não consegue se segurar. Acontece que, embora a culpa seja dele, Eurídice não o culpa. Ela diz: "Você me amou tanto assim que não tenho como te culpar; seu único erro foi amar demais". E sim, isso é uma ideia antiga, já presente em Virgílio na Roma Antiga — o meu erro foi amar demais. Há várias músicas brasileiras hoje em dia que falam disso, e isso existe há muito, muito tempo.
Então, tem esse primeiro paradoxo: ele foi capaz de se manter firme durante um bom tempo da vida só para descer aos infernos e encontrar a mulher dele, mas no finalzinho, pelo mesmo motivo, ele fraquejou. Ele não se manteve firme pela exata mesma razão: por amor.
Há um segundo paradoxo. Quando ele canta para os deuses dos mortos, ele diz que, se por acaso eles acharem que o que ele está fazendo é uma vergonha ou uma afronta à honra deles, podem tomar a alma dele e mantê-la lá. Assim, os deuses dos mortos, em vez de terem uma sombra só, que seria a de Eurídice, teriam duas: a dela e a dele. Ele está disposto a fazer isso. No fim do que seria a primeira parte do mito, quando Eurídice desaparece — porque ele olha para trás, vê ela por uns instantes, mas ela vai desvanecendo até sumir totalmente —, naquele momento, ele morre de fato, embora continue vivo. Ele passa sete meses vagando pelo mundo entristecido, cantando um pouquinho, mas como se fosse um morto.
Na versão de Virgílio, que é contemporânea e muito próxima a essa época, Orfeu fala: "Se o que estou fazendo é uma afronta, podem pegar minha alma e tudo bem". E os deuses dizem: "Tudo bem, pode levar ela, mas não olhe para trás". E acaba que os deuses ficam com a alma dele, embora não tivessem essa pretensão inicialmente, mas acabam se comovendo pelo canto dele e pelo toque da sua lira. De certa maneira, eles ficam com a alma dele, mesmo ele estando vivo. Então, ele está vivo e morto ao mesmo tempo; ele vive sem querer viver porque cometeu um grande erro e perdeu a mulher para sempre.
O que nos leva a um terceiro paradoxo — que na verdade seria o primeiro: ele é um vivo entrando no mundo dos mortos. Geralmente, as pessoas tentam evitar a morte e qualquer coisa que leve ao mundo dos mortos. E aqui você tem um cara vivo descendo ao submundo. E não é nem que ele queira se matar; ele está descendo lá fisicamente, como um vivo no mundo dos mortos. Há dois paradoxos aí: alguém querer descer ao mundo dos mortos, e alguém descer vivo para lá.
Seguindo mais para frente, temos a cena dele tocando para os animais. Sempre há essa imagem clássica dele tocando para os bichos: tigres, serpentes, animais silvestres de todos os tipos, herbívoros e carnívoros, ouvindo-o tocar. Até as pedras, as árvores e as plantas estão ali comovidas. É interessante porque na floresta você sempre ouve barulhos, o tempo todo aquele zumbido, barulho de insetos, de patas se mexendo, de folhas se esfregando no chão. Por mais que não seja um som ensurdecedor, existe uma certa cacofonia caótica em uma floresta. Eu já fiz algumas trilhas na vida, e nunca é um lugar de silêncio absoluto, a menos que seja um lugar sem bichos. Mas quando há animais silvestres passando, não há um barulhão, mas também não há silêncio.
Nessa parte, Orfeu está impondo — num bom sentido, de maneira harmônica —, ele está seduzindo todo esse caos com a harmonia da sua música. Todo o caos da fauna e da flora é pacificado pela música dele. Aqueles bichos, árvores e pedras deveriam estar cada um fazendo o seu barulho, mas estão em silêncio. E estão em silêncio justamente porque ele está tocando. Ou seja, é um som que produz silêncio. Geralmente, quando você vai a um show, o barulho do pessoal tocando faz o público ir à loucura; o som provoca ainda mais som, o público bate o pé e grita. O canto gera mais canto, e o som dos instrumentos gera mais som do público.
Nesse caso, não. A música de Orfeu está gerando silêncio. Outra coisa paradoxal é que ele é um homem em profundo caos interno, totalmente atormentado, mas ele gera paz ao seu redor. Todos os animais, que deveriam estar se devorando ou fugindo uns dos outros, estão em paz, enquanto ele está infernizado por dentro.
A isso se conecta outro paradoxo, que envolve as bacantes. Elas são devotas de Baco, ou Dioniso, o deus da noite, dos ciclos vitais e da loucura — algo que Orfeu parecia estar buscando, afinal, ele quis sair vivo dos infernos e trazer Eurídice de volta, algo que envolve ciclos vitais, mas também buscou o reino da noite, que é o reino das sombras e dos mortos. Agora, um deus noturno, um deus da sombra, vem atrás dele através de suas serventes mais fiéis, as bacantes, como para convidá-lo a se juntar a elas, prestar homenagens a Dioniso e entrar na vida louca.
Desta vez, ele recusa. Logo ele, que buscou tanto aquilo, agora recusa. Por causa disso, ele é despedaçado. Sobra apenas a cabeça dele, que é jogada no rio e continua chamando por Eurídice. Há versões em que a cabeça de Orfeu prevê o futuro, e outras em que ele fica repetindo "Eurídice" sem parar. Na versão de Virgílio, ele morre chamando "Eurídice", e o rio ecoa esse som repetidas vezes, mas ele morre ali mesmo.
De qualquer maneira, é interessante notar que ele já estava desmembrado por dentro, sem saber como resolver sua dor. As bacantes, ao despedaçá-lo por fora, acabam resolvendo isso, porque o que ele mais queria era morrer para se juntar a Eurídice. Tanto é que o final do mito, em qualquer uma das versões que vão até o fim, é que ele a encontra nos infernos. O deus Apolo — a quem Orfeu prestava bastante homenagem — traz ambos para os Campos Elíseos, onde eles vivem no céu, felizes para sempre.
Então, ironicamente, as bacantes, ao despedaçarem um homem que já estava em pedaços por dentro, acabam trazendo para ele a unidade interior que ele não tinha. Uma unidade que só vem com a morte. É indo para a morte, caindo no reino da morte, que ele encontra a unidade, encontra Eurídice novamente, e recupera a paz e a vida. Ele não será aniquilado — porque o inferno grego tem a questão da aniquilação, onde a maioria das pessoas fica esperando o tempo de sumir, o que é um destino menos pior do que ser torturado para sempre como Tântalo, Sísifo e Ixíon.
Orfeu vai para o reino da luz, para os Campos Elíseos, embora o caminho óbvio dele devesse ser apenas passar pelo Hades. Há mais esse paradoxo: ele procurou tanto o reino da noite e as forças noturnas, mas no fim, depois que perdeu Eurídice, passou a adorar o deus Apolo, que é o deus do sol, da luz e também da poesia e da música.
É uma figura cheia de paradoxos. E o mais interessante é que a maior parte dos poetas cujas biografias eu li tem alguns ou muitos desses traços que Orfeu possui. Aí surge mais um paradoxo: Orfeu é um personagem que podemos afirmar com bastante certeza que nunca existiu, mas ao mesmo tempo ele parece existir em cada grande poeta que conhecemos. Vou ficando por por aqui. Espero que vocês tenham gostado de saber um pouco mais sobre Orfeu, esse cara paradoxal para caramba. Tenham uma boa noite e até mais.