Nesta terceira parte da análise sobre a peça inspirada no mito de Orfeu, o autor continua aprofundando-se nos personagens e nos temas abordados pela obra, com foco especial nos pais dos protagonistas.
Embora o protagonista da peça seja Orfeu, ele funciona essencialmente como um nexo e um desbravador de um mundo mágico repleto de figuras pitorescas, ecoando o conceito de que as histórias clássicas colocam personagens comuns em universos extraordinários. Nesse cenário, destacam-se a mãe de Eurídice e o pai de Orfeu, cujos nomes são simplesmente "A Mãe" e "O Pai", o que evoca uma forte atmosfera psicanalítica. Ambos lembram versões opostas das criaturas de Frankenstein: em vez de terem sido construídos a partir de pedaços e lançados no mundo, eles foram se construindo com o tempo e, paradoxalmente, perdendo pedaços de si mesmos.
A mãe de Eurídice vive exaltando as glórias de seu passado, mas suas histórias são confusas e imprecisas, oscilando constantemente entre a ficção agradável e a realidade, a ponto de parecer cômico. Na prática, ela se revela uma mulher de meia-idade marcada por uma profunda depravação, que passa o tempo todo diminuindo a filha, cobrando postura e tentando convencê-la de que ela própria era muito superior quando tinha aquela idade, tudo isso agravado por uma memória terrivelmente falha.
Por sua vez, o pai de Orfeu apresenta um contraponto fascinante através de um discurso final muito bonito sobre a beleza de continuar vivendo, de superar as dificuldades e de como ele também se feriu na juventude, principalmente em relação à mãe de Orfeu. No entanto, por mais genuíno e tocante que esse discurso possa parecer, o produto final de toda essa trajetória é um homem moribundo e miserável. Ele mente para os contratantes — que, na verdade, são apenas ele e o filho —, tenta viver às custas do talento musical de Orfeu com o violino e tem como grande objetivo de vida encontrar lanchonetes baratas cujos menus ofereçam a melhor relação preço-qualidade.
Esse contraste melancólico é o ponto central da obra, pois funciona como o teste final para Orfeu: aceitar a vida e continuar vivendo sem Eurídice ou sucumbir. A peça aborda essa dinâmica de forma magistral, servindo como um marco crucial para as escolhas do protagonista diante da realidade que o cerca.