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O que nunca te contam sobre MADAME BOVARY ••• Panda

O que nunca te contam sobre MADAME BOVARY • Panda

No vídeo anterior, falei sobre o primeiro *Alcibíades* de Platão e também sobre uma parte mais tangencial, um detalhe interessante ali do livro que passa despercebido por muita gente e que pode mudar — como mudou para mim — a sua visão sobre o que de fato é o amor platônico. E aí eu disse que ia falar hoje sobre um livro que fala sobre amor; embora digam que fala contra o amor, eu defendo que ele fala tanto contra quanto a favor do amor, principalmente do amor romântico. O livro em questão é este aqui: *Madame Bovary*, de Gustave Flaubert. Este clássico francês da segunda metade do século XIX é um livro sobre o qual eu não vou te dar o resumo, não vou fazer um resuminho aqui, porque você encontra isso na internet. Sinta-se livre para pausar este vídeo, procurar um resuminho, ler um parágrafo ou ver um vídeo de cinco minutos te dando um resumo do livro. Eu realmente recomendo que você faça isso; eu não vou fazer você perder o seu tempo aqui, vou falar contigo como se você já conhecesse o básico da história. Então, se você não conhece, pausa o vídeo e vai ler, ou como eu disse, vai ler um pequeno resumo (um parágrafo já basta), ou vai ver um vídeo. Não leia a sinopse, tá? Não leia, porque a sinopse não vai ser suficiente. Leia realmente um resuminho legalzinho: na Wikipédia tem, é curtinho, em cinco minutos você termina. Eu tô com preguiça de explicar, são 1:30 da manhã, eu não estou com saco para explicar.

Mas enfim, vamos lá. *Madame Bovary* não é principalmente — ela é também, mas secundariamente — sobre uma moça que desafia a moral de sua sociedade, que se liberta e se emancipa através do sexo e do adultério, nem sobre uma jovem que é vítima de suas leituras da juventude, dos romances históricos de Walter Scott e companhia. Não, isso tudo está na obra, isso tudo faz parte da obra, mas eu defendo que seja secundário. Acredito que seja secundário, embora seja importante e seja uma das marcas da obra. *Madame Bovary* é sobre a pequenez do amor de Rodolphe e Léon e sobre a grandeza do amor de Charles e Justin.

O Rodolphe, que é o primeiro amante da Emma — o primeiro a botar a cobra na caverna, né? —, quando ele já está cansado das pequenas resistências dela, que ainda que fracas e superficiais são suficientes para evitar o ato com ele, e também até mesmo para evitar beijos e carícias… enfim, quando ele está cansado disso, ele leva a Emma para o meio do mato, de um bosque. Ele acha um pretexto para isso, mas consegue levar ela para lá, e o que ele faz com ela só não é um estupro porque acaba que ele já tinha uma certa certeza… enfim, ela queria aquilo, ela negava ali um pouquinho também pelas aparências, porque ela achava que era errado, mas aí ele faz um carinho, dá uns beijinhos e ela cede. Pronto, cometeu o adultério.

De maneira parecida, o Léon, que é o segundo amante — ele chega primeiro, mas é o segundo a botar a cobra no buraco —, insatisfeito com a rejeição que a Emma fez a ele, faz um convite para ela ir lá na igreja, passear na catedral. E ela vai, e cara, ele pega ela pela mão, sai correndo, puxa ela pelo pulso, entra numa carruagem com ela, diz pro cocheiro sair andando por aí, e vai, só vai. O cocheiro pensa: "Beleza, vou ganhar dinheiro", e vai indo. E a carruagem balança, balança, balança, as pessoas olham e as pessoas sabem o que está acontecendo, embora não saibam quem está ali dentro. E a gente já entende o que está acontecendo ali dentro. E, novamente, não é um estupro e nem um sequestro, porque a Emma no fundo queria aquilo, embora ela tenha negado, negado, negado. A prova é que ela se entrega mesmo e realmente não é um caso de síndrome de Estocolmo, nada disso; ela de fato estava apaixonada pelos dois, cada um em um momento, mas estava apaixonada por cada um deles em um momento, e estava genuinamente com muito tesão nesses homens.

E aí a gente pensa que o amor deles é gigante. Mas o problema é que, quando o Rodolphe se cansa dela, ele envia uma carta para a Emma dando desculpas esfarrapadas, dizendo que eles não podem mais se ver. Na verdade, o que o Rodolphe acha mesmo — e o próprio narrador onisciente conta pra gente — é que ele não estava mais gostando dela, estava achando um saco, e foi embora. Brincou com os sentimentos dela, mentiu, agiu de maneira dissimulada e depois deu uma desculpa esfarrapada. A Emma sofre muito, fica 40 dias doente, fisicamente doente mesmo, e passa a comprar roupas, joias e objetos decorativos para a casa para conseguir lidar com a saudade, para conseguir lidar com o vazio, o buraco, o abismo que o Rodolphe deixou no peito dela. E ela faz dívidas para isso, contrai dívidas com o comerciante que vende tudo isso a crédito.

Em seguida, você tem o caso com o Léon, o jovem estudante. O Léon diz para a Emma que quer sempre estar com ela, vê-la, mas que não consegue… enfim, mas ele queria muito estar com ela, sempre, sempre, sempre, depois daquela aventura na carruagem. Ele quer mais, e ela também. E aí ela pede para o marido financiar para ela — o Charles, marido dela — aulas de piano com um tal professor. O que acaba acontecendo é que o marido dá dinheiro para ela, e ela usa o dinheiro para financiar o hotel em que ela e o Léon ficam. Só que ela sempre fica mais tempo no hotel do que paga, promete pagar mais, e a conta vai subindo, subindo, subindo, subindo. E aí, quando ela tem que pagar a dívida, que é muito grande mesmo para a época… eu nem lembro o preço exato que é aqui, mas é uma dívida muito, muito grande para a moeda, uns 8.000 francos. Imagine o que são 8.000 francos no século XIX — não tinha a inflação que tem hoje, então é muito dinheiro, tipo por volta de 50.000 ou 60.000 euros, uma parada assim, um negócio absurdo. Ela contrai essas dívidas justamente pagando o hotel em que ficava com o Léon (com quem se encontrava vários dias da semana, várias semanas em sequência) e também comprando joias, roupas e objetos decorativos para a casa para conseguir suportar a ausência abrupta do Rodolphe. Foi do nada: ela recebeu uma carta e é isso, acabou, como se ele tivesse mandado uma mensagem de WhatsApp dizendo "Tchau, não posso mais, tô sofrendo demais, tchau". Quer dizer, não foi nem um tchau assim, foi um tchau fingido: "Ah, eu queria muito ficar contigo, mas infelizmente não vai dar", num jeito adocicado, daquele jeito que um mentiroso tenta usar para tornar algo desagradável em algo agradável e fácil.

E aí, no final, quando ela vai pedir ajuda pros dois… cara, é algo maravilhoso. Ela vai pedir ajuda pro Léon, e o Léon, um estudante ferrado, sequer tenta. O Léon fala: "Ó, eu vou vir aqui amanhã, e se eu não estiver aqui, não conte comigo, e se eu vier, beleza". Ele vem, mas vem tarde, e mesmo vindo tarde, ele podia ir atrás dela, mas não vai. Ele decide ir embora, porque ele sabe que ela não está lá já que ele chegou na hora errada. Mas em vez de ir atrás dela e dizer "Opa, eu cheguei na hora errada", não, ele pensa: "Quer saber? Se ela acha que eu não posso, então beleza, vou para casa". Ele também já não ia ajudar mesmo.

E quando a Emma vai pedir ajuda para o Rodolphe — o Rodolphe, que tem um castelo, que é um aristocrata da baixa nobreza, a qual já está meio que morrendo na França nessa época —, ele diz que não tem o dinheiro, que não vai conseguir ajudar ela. E olha que ela pediu só 3.000! A dívida era de 8.000, e ela pediu 3.000 para ele porque seria um adiantamento. Ele nega várias vezes na frente dela, diz: "Olha, não tenho dinheiro, não posso te ajudar".

Enfim, e aí a Emma entra na farmácia. O senhor Homais não está lá, mas o Justin, que é o assistente dele, está. A Emma entra, atravessa ali a bancada, pega o arsênico — quem não sabe, o arsênico é o veneno que se usa para matar rato, é resíduo de chumbo, chumbo é um metal pesado, é tóxico, não brinque com o chumbo, não fique passando a mão, não esfregue a mão no chumbo, não lamba chumbo, não coma chumbo pelo amor de Deus, não faça isso, é sério mesmo, não faça isso. E eu falo isso porque quando eu era pequeno eu já vi criança brincando, não faça isso! Na época eu não sabia, desculpa, mas enfim. Vou voltar aqui pra história, largar meus traumas do passado e voltar pra história.

E aí ela bebe, ela pega o chumbo e come, engole um tanto, e o Justin, mesmo tentando, não consegue impedir ela. Ele vai tentar, e ela pega as coisas ali, abre, engole tudo, e ele não consegue ajudar ela. Depois ela diz para ele: "Ó, se você contar para alguém, eu vou dizer que foi você, vou dizer que foi você que me deu, que me vendeu". Enfim, e ela sai correndo. O Justin não sabe o que fazer, é um rapaz novo, talvez até mais novo do que eu, e não sabe o que fazer ali, fica em pânico.

Algum tempo depois, a Emma morre. Assim, bem rápido, na verdade: na mesma noite, a Emma morre. E, se eu não me engano, uma semana depois ela é enterrada. Mas aqui tem a parte curiosa do enterro dela, porque ela é enterrada e o Flaubert escreve o seguinte — vou ler para vocês aqui, eu tive que anotar, e novamente, como no vídeo anterior, eu peguei uma tradução de base e mudei levemente, bem levemente, para conseguir passar a emoção do momento, mas eu não exagerei, não busquei exagero, foi só para ajudar no contexto aqui, ajudar nas falas:

> "Na noite do enterro de Madame Bovary, a pequena vila onde foi sepultada, como de costume, estava em silêncio, e o viúvo Charles, sem conseguir dormir, continuava a pensar em sua falecida esposa Emma. Rodolphe, que após o enterro parecia distrair-se andando todo dia pelo bosque, agora dormia tranquilamente em seu castelo; e Léon, lá longe para onde viajou, também dormia igualmente tranquilo. Porém, havia outro que na madrugada do enterro de Emma também não conseguia dormir: sobre a sepultura da falecida, entre as flores rasteiras, chorava o jovem Justin, ajoelhado, com o peito despedaçado pelos soluços, ofegando na sombra sob o peso de uma insustentável culpa."

Mais doce que a lua e mais insondável que a noite, o amor de Charles e do Justin pela Emma foi tão grande a ponto de que o Charles, no fim da história — mais especificamente no primeiro dos últimos cinco parágrafos do último capítulo da última parte da obra —, morre de tristeza e de saudades, de tanto que a amava, e ele paga todas as dívidas dela. O Justin, que mal conhecia a Emma e que é um personagem bem secundário da história, conseguiu sentir amor suficiente por ela para chorar sobre o túmulo dela por não ter conseguido impedir que ela se matasse — ele, um personagem que não tem culpa nenhuma do que aconteceu, que não esperava que aquilo fosse acontecer, e mesmo assim se sente culpado. Mas o amor do Rodolphe e do Léon, bem, se ele foi grande, eu não sei para quê. O que a gente sabe é que ele não foi grande o suficiente nem sequer para arrancar o sono deles; não foi um amor grande o suficiente para ser mais doce que a lua e mais insondável que a noite.

E falando sobre amor e falando sobre Flaubert mais especificamente, eu quero falar de outro assunto, de uma parte bem interessante também nessa história de *Madame Bovary*, que eu vou deixar para o próximo vídeo. Então, se inscreve aqui, ativa o sininho, comenta, curte, compartilha, e eu vejo vocês amanhã. Até mais!