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Lágrimas de Chumbo – Áudio-drama por Rayhan Chamoun

Lágrimas de Chumbo - Áudio-drama de Guerra | Rayhan Chamoun

Lágrimas de chumbo. O vento transportava garoa através da madrugada umbrosa. As gotículas cintilavam com as barragens de artilharia, umedecendo seus lábios e deixando consigo tortuosos rastros de sangue nos nodosos lamaçais que, assim como o som, banham-se com o sabor do sofrimento. Os olhos frágeis latejavam com o peso do Lee-Enfield, os dentes bruxuleavam numa marca de exaustão e medo, mas o tornozelo luxado esquiava as derradeiras vírgulas de sua dor. A respiração saía da boca em lufadas alvas, como os natais nos arredores de Westminster, e, antes que pudesse evocar outra memória, uma artilharia pesada ensurdeceu sua alma, e Arthur se lembrou pela quadragésima quarta vez de que estava em guerra.

Pegaram a pando no flanco esquerdo, e com ela mesmo recomeçou a cavar, cavar mais e mais e mais e, se possível, ainda mais, até tornar reais as divagações de Julius. Com o auxílio de umas tábuas escapulidas das entranhas da terra, ele as fixou na parede escorregadia de lama, parou quando o raio pousou no abeto a cinco metros de sua cratera. O coração explodiu antes que pudesse recuperar o fôlego; o que restara das folhagens de outrora começara a arder, e aquele toco beijado por Deus se transformaria no farol de sua tumba, caso assim permanecesse naquele rascunho de trincheira.

Com as mãos trêmulas, retirou da mochila amarfanhada um pedaço de papel. Protegendo o mapa com a mão e apontando para a luz, buscou afirmar a distância entre ele e o fronte da companhia britânica e francesa. Dois dedos, dois malditos dedos, a alhada fora, mas estava na borda noroeste. Novecentos metros, era isso que o separava de um avistamento. A cento e cinquenta metros, era isso que o levaria à guarita, se tudo desse certo. Apertou ainda mais a tala com o que restara das bandagens, ajustou o cadarço da bota; cada movimento, uma agulhada projetando o queixo para fora da casamata.

Perescutou os feixes esfumaçados das artilharias do fronte alemão, traçou o paralelo pelo qual poderia se arrastar uns trinta e cinco metros sem ser visto, e empurrou Robert, um amigo que conhecera dias antes do alistamento em Londres, para o cume da cratera que uma artilharia abrira na terra. Os veios nasais escorriam como geleia pelo braço calejado à medida que o pressionava, o peso pútrido da pele flácida e gelada friccionando-se contra seus dedos. Também contara com o auxílio de Joffrey, um rapazinho que mentira a idade somente para estar junto ao pai, depois que o irmão morrera com uma rajada de gás que lhe rasgara a nuca; o moleque se tornara soturno, acuado.

Avançamos demais, a cavalaria britânica progredira mais dois quilômetros para jusante desde Pierre. Dizia que os alemães estavam ficando sem artilharia, mas quando o homem se vê preso no buraco de cadáveres causado por um projétil de alguns centímetros de puro chumbo e cobre, ele não se importa se os inimigos têm cem ou mil daqueles pássaros infernais. Não interessa quão cavada está uma trincheira ou quão desmoralizado está o inimigo e sua linha de defesa; quando o vento assumia com a chegada de uma barragem de artilharia, não há homem no mundo que deixe de rezar a qualquer Deus por misericórdia.

Arthur sabia. Descobriu outro. Os feixes de lanterna foram estúpidos para o seu rastejo de fé; os cotovelos afundavam na lama, e a coronha do rifle se choca com ele. O facho daquele abeto projetava a sombra dos mortos como fantasmas, e, por um momento, Arthur se sentiu encorajado pelo medo de ser esquecido como restos viscerais no barro. Não era poeta como aqueles franceses calejados, muito menos um dos indianos que sabiam dominar o sabre e montar em elefantes, ou um dos australianos batedores que caçavam os tenebrosos otomanos em seus navios. Ele era mais um menino inglês que seguia as ordens dos veteranos das Guerras dos Balcãs.

O astro madeirado corroía seus ramos enquanto o feixe de uma lanterna navegava nas ondas de sangue e lodo, onde vermes se regozijavam com a carne posta à sua mesa. Arthur devia ser um verme. Enterrou a face na lama após prender o fôlego e beijou a terra. O sangue, o odor, o gosto dos estilhaços, tudo parecia doce aos olhos. Se tivessem cães com aquela esquadra, ele terminaria com tudo ali mesmo; os malditos alemães não aceitavam prisioneiros. Um tiro seria o suficiente, morreria como herói junto com seu pelotão, como deveria ser. Só sua mãe receberia uma carta e uma menção honrosa quando aquele Kaiser filho da puta estivesse enforcado, juntamente com alguns pounds e uma medalha.

Arthur já se imaginava enterrado próximo ao caramanchão, a luz da manhã banhando a grama e secando a tinta de sua lápide. Estava a se pensar no epitáfio, mas o fôlego reclamara seu ímpeto, e quando se levantou, a esquadra havia passado uns dez metros a oeste. Sem cantos, estampou o cantil e bebericou os últimos mililitros de água. Era a hora. Arthur continuou o seu regresso. As artilharias voavam no céu, verdadeiras estrelas cadentes destinadas a pousarem atrás das linhas francesas; pelo menos as nuvens de gás haviam cessado.

Atravessou uma mortalha de homens destroçados pelos estilhaços de uma barragem, além da qual escutava o soldado jazido: um dos braços permanecia cravado no tambor da News, o outro, decepado, ainda segurava o crucifixo. Arthur olhou para os soldados ainda vivos que passaram a pouco; eles avançavam às escondidas, provavelmente uma patrulha de reconhecimento para os ataques da próxima manhã. Corajosos, mas tolos. A relância e a cavalaria trariam informação já que as linhas estavam separadas, ou talvez uma saraivada de metralhadoras, ou, melhor ainda, uma das recém-chegadas artilharias americanas.

Em alguns lugares, diziam os franceses, as linhas ficavam tão próximas umas das outras que os soldados trocavam piadas com o inimigo, diziam que até haviam jogado futebol numa ocasião, mas ali as coisas eram diferentes, e Arthur teria de se esconder de ambos os exércitos até cruzar o fronte. Continuou a prosseguir, agachando-se somente para escalar algum obstáculo corriqueiro. Outro facho de luz surgira lá atrás, aos cem metros. Arthur se ergueu mais um pouco, apressando as passadas mancas e latejantes. Presentiu o pior e, como o tenente de sua esquadra, Shepard, dizia: na guerra, a melhor munição é o instinto.

Estava prestes a testar sua teoria. Avançou mais uns cinquenta metros antes de parar, os lábios secos, um vento frio regando a espinha e o orvalho arranhando os ossos e o tornozelo luxado. Naquela terra de ninguém, o tempo parecia ser um coeficiente não linear de uma função indefinível, até que ouviu um chiado, um deslizar, e seu rifle girou em empunhadura arcaica para somente constatar a presença de um rato cujos olhos brilharam como fluorescência, como se dissessem: agora eu sou você e você sou eu. E assim eles se despediram, cada um indo para o seu caminho, e o caminho de Arthur era o fronte.

Mais cinquenta metros. O facho da lanterna inimiga transpassava as rotas de chuva e pousava nos lodos à procura de alguma coisa que ele não sabia. Mais trinta metros. Eles têm de desligar a lanterna, já podem ser vistos por um atirador, mas não desligaram. Uma rede de arame farpado serpenteava uma ampla cratera onde uma barragem pousara. Latidos surgiram das trevas, longos, mas com sinal claro o suficiente para apressá-lo. Com a ajuda de um alicate, abriu espaço no ponto alto do declive e, sentando-se com as pernas cruzadas, empurrou para a rampa, deslizando rapidamente, mantendo a firmeza com a coronha do rifle.

Então o raio resplandeceu, e Arthur fitou em desespero o projétil de artilharia de oitenta centímetros que não havia explodido, deitado para ele como uma musa à espera de seu amante. Arquejando, enterrou a coronha do Lee-Enfield na terra e forçou os pés na vasa; sentiu o tornozelo estalar e não conseguiu segurar o grunhido de dor, os olhos arregalados enquanto tentava se afastar do alvo tétrico naquilo que fora um segundo eterno. Nem mesmo o ribombar do trovão conseguira esconder sua agonia. Fechou os olhos esperando sentir algum calor prévio à morte ou uma explosão, mas não houve nada. Quando os abriu, fitou a sola de sua bota a pouco menos de um centímetro daquela ponta demoníaca de cobre.

Antes que pudesse transpirar suas lágrimas de dor, um facho deitou seu brilho na cratera, e Arthur soube que teria de lutar. Engatilhou o rifle e contou os projéteis, apalpando no bolso a parca munição que coletara pouco antes de desmaiar durante a tarde. O calafrio subiu sua espinha numa fisgada fantasmagórica com os diálogos daquela língua nojenta. Limpou a terra da empunhadura e espantou o orvalho da mira férrea, sentindo o metal gelado na maçã do rosto enquanto sacava o cano da arma como uma cobra, pronto para dar o primeiro bote tão logo tivesse visada do alvo. A lanterna precisava tirar no portador da luz.

O pulmão latejou quando prendeu a respiração, sentiu as pupilas dilatarem com a adrenalina e os punhos tremerem. De repente, quatro sombras seguraram suas armas: a tropa com o cachorro, a uns quarenta metros. A morder-se, ele teria tempo, mas pouco. Esperou até que os vultos ficassem a uns vinte metros, a gotícula do chuvisco ressoando na soleira lamacenta do campo de batalha, uma música que somente Arthur podia ouvir: a música da morte cortou seu caminho na terra de ninguém como pomo do correio que trazia a mensagem pura e simples. Eu não vou morrer aqui.

A lanterna tombara com o anúncio de seu acerto, e, pela primeira vez na vida, a escuridão iluminara o caminho de Arthur. Outros três vultos pegaram em armas, deitando-se desajeitados e gritando enquanto acudiam o camarad agonizante. Como um lobo cercado, até hostil, ele viu medo nos olhos do inimigo. Não sabe minha posição, nem se há mais homens. O segundo tiro alçou voo até pousar no ninho dentário do sujeito que não parava de falar até aquele momento. Cada segundo, cada batida de coração, era uma vantagem a ser aproveitada. Outro disparo cortou a noite para acertar um toco perdido em meio ao caos, e uma rajada de supressão revidou em resposta desesperada, mas não o suficiente para que o inimigo recuperasse a lanterna.

Arthur se abrigou contra os disparos e se projetou para fora da cratera, já preparando o próximo tiro. Os dois alemães gritavam enquanto a segunda esquadra vinha acudir, virou na fileira agrupada, mais um erro causado pelo desespero, um erro que ele aproveitaria. O disparo voou até raspar o ombro de um dos soldados, e todos se deitaram, procurando a origem dos tiros. Agora, a um tiro de vinte metros, traçou uma trajetória diagonal pela qual poderia se afastar do inimigo à medida que se aproximaria do fronte. Serrando os dentes, Arthur se levantou e correu bamboleante devido ao terreno e seu tornozelo ardido, mas correu.

Parou a uns vinte metros e teceu novo disparo na malha da chuva. Não acertou, mas não era esse o propósito. Correu mais, até que uma dupla rajada de metralhadora se abateu na terra ao redor; ele se jogou na lama como um porco desesperado antes de ser abatido para a ceia. Ainda deitado, efetuou mais um disparo, pois ouviu os gritos dos inimigos se aproximando; não poderia escapar das armas automáticas facilmente. Um segundo a mais era tudo o que ele precisava. A fanat levantou-se do charco barrento e tentou correr, mas escorregou naquele tapete ignominioso, o desespero tomando conta de seu peito, a dor no tornozelo abraçando toda a extensão dos músculos de sua perna.

Mas se levantou. Arthur não estava disposto a morrer naquela data, não estava disposto a ser parte da pilha daqueles que tão pouco se importavam. Ele queria ir para casa, abraçar sua mãezinha, comer um bolo e tomar um chá enquanto lia alguma coisa na biblioteca do papai. Atravessaria o purgatório e enfrentaria todas as provocações que Dante sobreviveu, somente para ver os raios do sol nascendo sem ter de tolerar os gritos dos moribundos, somente para sentir um gosto melhor do que a maldita comida enlatada que lhe era oferecida, somente para sentir os pés secos e dormir em uma cama mais macia que o chão, somente para não torcer com os rastros de mostarda, somente para viver.

Arthur estava disposto a morrer tirando forças das entranhas cansadas e erguendo o Lee-Enfield como Robin Hood. Agachou-se na lama e esperou o primeiro vulto surgir lá longe, e quando o brilho tênue da noite resvalou no capacete, ele atirou, ouvindo mais um tombar. Levantou-se e continuou a correr. Um contorno rubro começava a lhe ficar aparente no triste horizonte da guerra, latinos navegavam e o sonar maligno cada vez mais próximo. De repente, uma sequência de furos pousou nas poças ao seu redor, levantando feixes marrons e acentuando seu desespero.

As pernas ardiam como brasa, o tornozelo já estava dormente e sentia suas fisgadas como fibras contorcidas de alguma carne processada. O gosto de bile regorgitava na goela e o ranho avermelhado escorria pela barba rala, até que outra rajada voara e Arthur sentira o peso da perna já fraquejando, tombando com ele. O rastro de dores subiu os nervos das juntas quando ele viu na calça puída o rasgo horizontal. Preparou o rifle de novo quando o raio teceu seu caminho tortuoso desde as nuvens para iluminar a corporatura de um pastor alemão pulando em sua direção e me abocanhando o ombro.

Aquele rosnar se somou a um gemido de dor, mas o alemão surgia lá na frente falando qualquer coisa. Arthur não poderia escolher matar os dois a tempo, então, erguendo o rifle com uma das mãos, o braço da arma balançando desesperadamente por conta da dor, ele atirou. O tiro acertou, mas aonde ele não poderia saber. Pegou o alicate do bolso como se fosse a própria Excalibur e enfiou a haste pontuda diretamente no olho do animal, sentindo a arcada afrouxando, a carne rasgada de seu ombro. O guincho de dor e agonia sobrepujou seu torpor, trazendo-lhe de volta àquele admirável mundo novo.

Outro alemão surgiu, a metralhadora apontada como martelo de um juiz sentenciando o fim de seu julgamento mortal. Acabou. Arthur fechou os olhos. Clique, clique, clique. Ó, estúpido, com o sino angelical de seu salvador, abriu os olhos para constatar a falha no encaixe do tambor do soldado inimigo que jogava a arma emperrada de lado para sacar uma pistola. Tirando agilidade dos recônditos inomináveis de sua alma, Arthur arrastou para si o cachorro a tempo de se proteger de dois disparos sucessivos que duraram os segundos necessários para empunhar o rifle e dar o seu último tiro antes de recarregar.

O gemido do animal parecera ter abalado o semblante do sujeito que hesitou ao efetuar o terceiro disparo, mas Arthur não hesitou, e o projétil de seu rifle pousou no pescoço do homem, enquanto outros pareciam tentar fová-lo. De costas para o chão e usando os cotovelos para se distanciar até uma cobertura, Arthur apalpava o bolso e armazenava parte da munição do cartucho quando uma granada voou e parou alguns metros diante de si. Levantou mais rápido que pôde e escorregou no buraco, sentindo uma nuvem de terra se esvoaçar na retaguarda.

Observando a parca nuvem de poeira, levantou-se com dificuldade e mancou até a linha francesa. O barulho da granada fez com que lá longe lanternas fossem direcionadas até ali, desde o posto mais avançado da trincheira aliada. Arthur gritou com as últimas forças: ajuda, ajuda, ajuda! Uma rajada de metralhadoras cortou o vento assomando na noite, e Arthur sentiu suas costelas arderem, caindo e disparando as salvas contra o montículo de onde viera. Decidiu que preferiria morrer por uma rajada de disparos aliada do que inimiga, e assim engatou na direção do fronte.

Continuou a gritar, mas o que saiu foram gemidos de dor angustiantes, derradeiros uivos que fariam os mais fortes se compadecerem. Ajuda, por favor, ajuda, não quero morrer, não hoje, ajuda! Estava a uns cem metros e não esperava mais nenhuma resposta, nenhum auxílio, nenhuma ajuda, nada. Outro vulto surgiu longe na penumbra, praguejando em alemão, e Arthur disparou. Tentou gritar, mas a gabeira travou com secura. Fechou os olhos, abraçou a terra e encarou o firmamento: vagalumes arrefecidos por toda parte, tão lindos, tão inocentes. Sentiu as gotículas da chuva nos lábios, e as refrescantes botinhas se confundiam com o amargo de suas lágrimas, até que uma mão surgira em seu ombro.

Ele arregalou os olhos para ver uma feição animada em meio ao caos, que lhe disse com sotaque forte de francês: está tudo bem, camarada, vou te ajudar, vem, rápido, rápido. Sentiu outras pessoas ao seu redor disparando contra a escuridão. Seu olhar turvo repousou nas nuvens, pois se sentia pontuar o pedaço de pano sobre a lama, sobre o lodo, sobre os vermes, e lá em cima o céu começava a dar lugar às estrelas e artilharias distantes, enquanto era carregado. E de repente estava na trincheira, e o médico francês lhe falava várias coisas enquanto fileiras de soldados ingleses, americanos e franceses me contemplavam assombrados com a resiliência e coragem de um pelotão dado como extinto.

E de repente estava chorando, não mais de medo, mas de felicidade. E de repente soube que iria para casa e teria dona Lucy e o velho Richard, e também seu amiguinho Spark, o cachorrinho da família. E de repente estava num caminhão com outros moribundos a caminho do hospital mais próximo. E de repente todos sorriam e brincavam, fumando cigarros, comendo biscoitos saborosos e elogiando as bonitas e igualmente fortes enfermeiras que cuidavam deles. De repente contando as suas próprias histórias de luta, de sobrevivência, de compaixão, de camaradagem, de esperança.

E de repente fitou o céu, de repentemente agradecendo a Deus pela chance de viver. E de repente viu, ainda sorrindo e com lágrimas regando suas íris, a figura divina, de repente descendo das estrelas, e de repente assumindo suas asas, de repentemente comovendo a todos os passageiros que pulavam em uma catarse ébria, enlouquecidos ante a presença angelical que vinha de repentemente, abençoadas na forma de uma lágrima de chumbo.