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O sofrimento da viúva em TOLKIEN e em PROUST • Panda

O Sofrimento da Viúva em Tolkien e Proust

O sofrimento da viuvez é um tema que, embora possa parecer restrito ao drama realista, encontra representações profundas e contrastantes em duas das maiores obras da literatura e da cultura pop mundial: o universo de J.R.R. Tolkien — aqui trazido à luz pela adaptação cinematográfica de Peter Jackson — e *Em Busca do Tempo Perdido*, de Marcel Proust. Apesar das vastas diferenças entre os autores em termos de estilo, nacionalidade, visões de mundo e academicismo, ambos exploram com densidade a experiência da perda e o luto feminino, estruturando-o de maneiras opostas, mas igualmente marcantes.

No legendário de Tolkien, personificado pela figura de Arwen na trilogia cinematográfica, o sofrimento da viúva manifesta-se através da desolação e da impossibilidade de fixação. Prometida a Aragorn, a elfa aceita a mortalidade para viver ao lado do amado, mas confronta a trágica realidade da efemeridade humana. Mesmo que as forças do mal sejam derrotadas e o reino prospere, o tempo eventualmente consome tudo. A narrativa visual acompanha a decadência do mundo: o túmulo de Aragorn transforma-se em pedra esculpida, o reino desmorona em ruínas e a paisagem inteira converte-se em um grande cemitério a céu aberto. Como ser imortal, Arwen é condenada a vagar por essa desolação interna e externa até o colapso final do mundo. O seu luto não é o da repetição, mas o da perda contínua; a sua experiência assemelha-se a uma linha reta interminável onde tudo o que ela ama morre e fica para trás, sem portos seguros ou moradas definitivas.

Em contrapartida, Marcel Proust, no primeiro volume de sua monumental obra (*No Caminho de Swann*), aborda a viuvez por meio da estagnação e da recusa absoluta à mudança. A tia Léonie, viúva do senhor Octave, refugia-se voluntariamente em um microcosmo restrito, alternando quase exclusivamente entre o seu quarto e o banheiro na pacata cidade de Combray. Diferente da elfa de Tolkien, que vaga por reinos em ruínas, Léonie constrói uma prisão de hábitos e repetições — o seu *train-train* —, assemelhando-se a uma locomotiva que roda eternamente sobre os mesmos trilhos. Ela se tranca para o mundo exterior e cultiva uma aversão profunda a qualquer alteração na rotina, consolando-se com a previsibilidade de sua existência e considerando qualquer mínuto imprevisto (como o parto de uma criada na cozinha) a única grande perturbação de sua clausura.

A tragédia de Léonie é sutil e psicológica: o luto transformou-se em hábito, e ela própria se encadeia a um passado estéril, esquecendo inclusive o motivo inicial de sua reclusão. Em uma cena íntima capturada pelo narrador ainda menino, a tia desperta brevemente de um sonho em que o falecido marido a chamava para um passeio, estendendo a mão para o chapéu antes de adormecer novamente, exausta pela própria inércia. Ela anseia pela vida e pela mudança, mas é incapaz de levantar a âncora que lançou no passado.

Conectando as duas visões, Tolkien e Proust pintam retratos antitéticos, porém complementares, da condição da viuvez. Enquanto Tolkien explora o sofrimento em macroescala, através de uma jornada circular e expansiva onde a perda do amor culmina na perda do próprio mundo e de todas as referências tangíveis, Proust examina o luto em microescala, confinado em um espaço exíguo onde o mundo deixa de mudar e a viúva se torna prisioneira voluntária da própria imobilidade. Ambas as abordagens revelam, em última análise, a impotência humana diante do tempo: seja porque ele consome tudo implacavelmente, seja porque nos recusamos a deixá-lo avançar.