Quando o teatro grego antigo começou a perder seus grandes expoentes e a tragédia entrou em um período de profundas transformações, a comédia encontrou um caminho singular para fazer não apenas humor, mas uma contundente crítica literária e cultural. É nesse contexto que o dramaturgo Aristófanes constrói uma de suas obras mais fascinantes, utilizando a metalinguagem para debater o destino da arte, da poesia e da própria sociedade ateniense.
Vou explicar por que você deve assistir a este vídeo. Como acontece em todas as nossas lives aqui, nós contamos toda a história do livro que selecionamos e vamos pulverizando análises pontuais ao longo da exposição da obra. São análises que vão te ajudar de pelo menos três maneiras. A primeira delas é na leitura da própria obra, que muitas vezes não é a coisa mais fácil do mundo e exige um pouco de experiência anterior de leitura. Às vezes, é preciso prestar uma atenção especial aos símbolos próprios do texto, à terminologia, à intertextualidade e às expressões ou ideias que o autor está citando de criadores anteriores. Por causa disso, essas referências acabam ganhando um sentido e um peso diferentes. Nós vamos te dar insights aqui que você poderá usar até em materiais acadêmicos, mas com certeza em trabalhos escolares.
Depois da exposição da obra, ainda teremos alguns blocos finais de análises mais gerais, como estrutura, personagens, temática, semiótica (às vezes genoniana) e tudo o que a nossa loucura permitir. Então, fique até o final, porque essas coisas geralmente acontecem no último bloco. Já deixe o seu like aí e nos dê um salve no chat, só para sabermos quem está por aí e se não estamos sozinhos.
Deixa-me apresentar os camaradas de hoje: o Lisboa e o King of Times. Meu Deus do céu, nem estou acreditando que vocês fizeram isso. A gente estava fazendo piadinhas com você e você chegou faltando um segundo. Está bom, obrigado, Lisboa. Dá um salve aí pra galera. Um salve econômico. Ver o salve do Antônio, como é que vai ser? E aí, galera, salve! O importante não é chegar cedo, é chegar no momento adequado. Só que, como você é o King of Times, você decide qual é o momento adequado, né? Mas hoje eu fiquei surpreso, viu? A gente estava fazendo as piadinhas aqui e você chegou na hora exata, cara. Então, não tenho nem o que falar.
Deixa-me só ver uma coisinha aqui. Eu quero iniciar esta live com uma pergunta: alguma vez você já teve um desejo repentino de comer purê? Não sei, cara, eu acho que não. Daqui a pouco a gente vê o que é isso aí.
Vamos lá. Antes de começar nos aspectos centrais, deixa-me falar um pouco do Aristófanes, rapidinho. Não anotei nada aqui, vou falar de cabeça mesmo, porque estamos maratonando os poetas do teatro grego. Não é como se houvesse apenas um monte de peças isoladas; são várias obras. Não vamos conseguir maratonar todas aqui porque eu já quero avançar, mas creio que estamos vendo o suficiente.
Temos basicamente três tragediógrafos em ordem cronológica de falecimento — pois não sei exatamente quem nasceu primeiro, mas o primeiro com certeza é o Esquilo. Ele morre bem antes, uns cinquenta anos antes desta peça do Aristófanes. Depois vem a produção de Sófocles, e então a de Eurípides; no entanto, Eurípides morre um pouco antes de Sófocles, pelo que sei. Esses três grandes nomes aparecem referenciados nesta obra. É como se Aristófanes estivesse, de alguma forma, participando desse processo de canonização deles, até porque foram peças apenas desses três que sobraram para nós. Parece que, de cerca de cem peças encenadas naqueles concursos, ou de milhares no total, só nos restou um pingadinho de cada um. Sófocles escreveu umas 120 peças, e parece que só temos umas 14. Talvez eu esteja confundindo os números, mas Eurípides também fez muitas e só nos restou um punhadinho.
Depois disso, há um declínio do teatro trágico grego, que podemos discutir no final. A tragédia começa a dar espaço a uma onda de dramas satíricos e, posteriormente, de comédias. O que são os dramas satíricos? Parece que quase não restou nada deles; de Eurípides, por exemplo, só sobrou um. Eles consistiam basicamente em pegar uma história trágica — como aquela em que Odisseu está preso com o ciclope Polifemo — e inserir personagens cômicos para fazer palhaçadas no meio daquela cena angustiante e pavorosa. O drama satírico era basicamente isso: fazer piada com as situações da própria mitologia.
Isso acabou migrando para as comédias, gênero que conta com vários autores citados nesta obra de Aristófanes, embora, de peças inteiras chegadas até nós, apenas as de Aristófanes tenham sobrevivido integralmente. Fragmentos de outros autores existem aos montes, mas peças completas, só dele. Aristófanes começa a produzir contemporaneamente a Esquilo (que já havia morrido), a Sófocles e a Eurípides. Quando ele já tinha várias peças escritas, esta obra em questão é considerada por muitos como aquela em que ele atinge a sua maturidade.
É curioso notar que Sófocles tinha acabado de morrer, e Eurípides morrera um pouquinho antes. Imagine a sensação: os nossos grandes tragediógrafos estão morrendo, houve todo o desgaste da Guerra do Peloponeso, e Atenas enfrenta crises econômicas e políticas. Morrem os dois últimos grandes nomes da tragédia grega. E agora? Será que já era? Com Eurípides, a coisa já estava meio que degringolando, moralmente falando, ao menos para aquela época.
É aí que Aristófanes pega um gênero literário que é praticamente intrinsecamente metalinguístico: a comédia. A comédia não vai simplesmente fazer historinhas engraçadas; ela trata de outros assuntos, tornando-se uma história sobre outras histórias. Podemos chamar isso de uma metapoética, já que ele aponta a carabina para os escritores. Seja qual for o alvo de suas críticas, inclusive a política, ele está sempre fazendo uma história sobre essas histórias, com aquele tom crítico mordaz que ele tanto apreciava. Ele transforma o seu material em uma verdadeira crítica literária.
Da mesma forma que os grandes autores do teatro grego que citei, Aristófanes também ganhou um monte de concursos nos festivais de teatro em Atenas, principalmente com peças satíricas e sátiras políticas muito pesadas, fáceis de encontrar hoje pela internet. Nesta peça específica, contudo, ele muda bruscamente o tema, mas sem perder a pegada satírica, afinal, ainda é uma comédia. Ele provavelmente faz isso porque, no ano anterior, tinham acabado os grandes nomes da tragédia grega. Parece uma espécie de homenagem, mas usada de forma profundamente crítica.
Deixa-me dar um salve aqui para a galera: salve para a Tuca; para o Mateus (não sei se está por aí ainda, ele falou um pouco antes de começarmos); e para a Rebeca. Sim, Rebeca, todo sábado tem live aqui, recomendo as últimas, foram bem legais.
Há outro ponto importante: Aristófanes é contemporâneo de Sócrates. Sim, ele chega a citar Sócrates na peça. É uma lista de nomes que ele vai soltar, servindo quase como um panorama para entendermos o que estava acontecendo na época. Ele revela algumas fofocas, menciona pessoas importantes, figuras que fizeram muitas besteiras e acabaram fugindo da cidade. Tem bastante coisa interessante.
Há muito tempo venho tentando gravar aulas para um curso bem completo sobre desbloqueio criativo. Numa delas, falando sobre o que se deve pensar ao produzir uma história, desenvolvi uma ideia — usando a palavra "dialética", embora não sei se encaixe perfeitamente — para pensarmos em duas palavras-chave: tema e tese, fundamentais para desenvolver uma narrativa. O tema é o assunto geral que você escolhe para a sua história. Trago isso aqui porque vamos encontrar exatamente essa dinâmica na peça. Não sei se Aristófanes faz isso em todas as suas obras — esta foi a primeira que li —, mas aqui está bem claro para mim, encaixando-se perfeitamente na forma como explico nas minhas aulas. Ele escolhe um tema, usa-o para desenvolver uma tese que aparece mais ou menos no meio da obra e vai até o final, sem nunca abandonar o tema original.
Como eu disse no começo, como a comédia possui essa natureza intrinsecamente metalinguística, a peça acaba virando um verdadeiro ensaio de crítica literária, justamente pelo fato de ele ter escolhido escritores reais para compor a trama.
Vocês querem acrescentar alguma coisa sobre estas questões introdutórias?
Sim, justamente por essa questão metalinguística, acho tudo isso muito interessante. Sinto que este é o tipo de livro que você lê e, depois de um tempo, relendo, entende muito mais, principalmente se começar a estudar a fundo a Grécia Antiga. Há muita coisa aqui em que pensei: "Caraca, isso aqui tem camadas; ele está citando algum autor ou acontecimento histórico específico". Acredito que, se a pessoa já tiver conhecimento prévio das obras de Eurípides e Sófocles — especialmente no final, quando ele cita mais intensamente os autores —, ela vai se acabar de dar rir, porque vai captar todas as referências. Fica muito superior a alguém que lê aquilo do nada, sem bagagem prévia.
Olha o Abel aí, meu chegado. O Abel tem um irmão gêmeo; queria que qualquer dia os dois aparecessem por aqui, seria engraçado. Mas, voltando ao que ele perguntou sobre a metalinguística, esse termo vem de Roman Jakobson, que define seis funções da linguagem, sendo uma delas a metalinguística: a explicação do código pelo código, ou seja, a linguagem falando sobre a própria linguagem. Quando trazemos esse termo para a literatura, estamos falando da literatura que fala da própria literatura. Da mesma forma, existe o cinema que fala sobre o próprio cinema, o teatro que fala sobre o teatro, e assim por diante. É exatamente isso: esta é uma peça que fala sobre peças de uma maneira geral.